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Noites de Tormenta




         Nicholas Sparks
UM

Trs anos antes, numa manh quente de Novembro de 1999, Adrienne Willis
tinha voltado  estalagem e percebera que, pelo menos  primeira vista, o lugar
se tinha mantido sem alterao, como se aquela pequena construo fosse imune
aos efeitos do sol, das areias e da humidade salina. O alpendre estava pintado de
fresco e as janelas de ambos os pisos, com as suas cortinas brancas, eram emol-
duradas por caixilhos pintados de preto brilhante, pelo que o conjunto parecia
imitar o teclado de um piano. As paredes laterais eram da cor da neve suja. De
ambos os lados da construo abundava a aveia silvestre, cujos caules pareciam
dobrar-se em saudaes constantes, e a areia formava uma duna que ia
mudando imperceptivelmente de forma graas aos gros que o vento fazia deslo-
car de uns pontos para os outros em cada dia que passava.
    Com os raios de sol a penetrarem por entre as nuvens, o ar apresentava um
aspecto luminoso, como se, por momentos, as partculas de luz tivessem ficado
suspensas na neblina, fazendo Adrienne sentir-se regressada a uma poca an-
terior da sua vida. Porm, olhando mais de perto, verificou que os trabalhos de
manuteno no conseguiam esconder totalmente as alteraes: as zonas
apodrecidas nos cantos das janelas, as marcas de ferrugem ao longo do telhado,
as manchas de humidade junto dos algerozes. Parecera-lhe que a estalagem es-
tava a encolher e, embora reconhecendo no poder fazer nada para o evitar,
Adrienne lembrara-se de fechar os olhos, como se por um qualquer passe de m-
gica ela conseguisse que o edifcio voltasse a ser como fora antes.
     Agora, poucos meses depois de ter entrado na sexta dcada da vida,
encontrava-se de p na cozinha da sua prpria casa, a pousar o auscultador do
telefone, depois de ter falado com a filha. Sentou-se  mesa da cozinha, a re-
flectir na ltima visita que fizera  estalagem, a recordar-se do longo fim-de-se-
mana que uma vez l tinha passado. Apesar de tudo o que acontecera nos anos
decorridos desde ento, Adrienne continuava agarrada  ideia de que o amor era
a condio essencial de uma vida cheia e maravilhosa.
    Estava a chover. Ficou a ouvir o bater agradvel dos pingos de encontro 
'vidraa, satisfeita por experimentar aquela ideia perene de intimidade. Re-
cordar aqueles dias provocava-lhe sempre uma mistura de sentimentos, algo
parecido, mas impossvel de descrever exactamente, com nostalgia. Muitas
vezes, a nostalgia  envolvida por uma aura de romantismo; mas, quanto a estas
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suas memrias, no via razo para as tornar mais romnticas do que j eram.
Nem aquelas eram memrias que partilhasse com qualquer outra pessoa.
Pertenciam-lhe por inteiro, e com a passagem dos anos, comeou a encar-las
como uma espcie de peas de museu, de um museu de que ela era a conser-
vadora e tambm a nica patrona. E, que coisa esquisita, Adrienne acabara por
acreditar que tinha aprendido mais durante aqueles cinco dias do que em todos
os anos decorridos, antes ou depois.
    Vivia sozinha naquela casa. Os filhos estavam criados, o pai morrera em
1996 e havia dezassete anos que se divorciara do Jack. Embora os filhos insistis-
sem para que ela encontrasse algum para a acompanhar durante o resto da
vida, Adrienne no sentia desejos de o fazer. No que estivesse de p atrs em
relao aos homens; pelo contrrio, mesmo agora, muitas vezes sentia o olhar
dirigir-se para homens mais jovens com quem se cruzava no supermercado.
Como era frequente que fossem apenas uns anos mais velhos do que os seus
prprios filhos, punha-se a imaginar o que eles pensariam se notassem que ela
os estava a admirar. Nem se dignariam, talvez, notar a sua presena? Ou re-
tribuiriam o sorriso, encantados com o interesse dela? No fazia ideia. Nem
sabia se seria possvel que eles olhassem para alm do cabelo que estava a ficar
branco e das rugas, para procurarem a mulher que ela j fora.
    No que lamentasse estar a ficar velha. As pessoas de agora talam sem cessar
dos esplendores da juventude, mas Adrienne no sentia desejos de voltar a ser
jovem. De meia-idade, talvez, mas no jovem.  certo que reconhecia algumas
deficincias: j no pulava pelas escadas, no carregava mais de um saco de
compras de cada vez, faltava-lhe a energia para acompanhar os folguedos dos
netos, mas no se importava, porque de bom grado trocava tais coisas por certas
experincias que tinha vivido e estas s acontecem com o evoluir da idade.
Chegada a esta altura, o que a fazia adormecer e acordar com normalidade era a
certeza de quer olhando a sua vida passada, no encontrava nela muita coisa que
devesse ter sido feita de outro modo.
    Alm do mais, a juventude tem os seus problemas prprios. E recordava-os
da sua prpria vida, alm de os observar nos filhos  medida que eles lutavam
com as angstias da adolescncia e a incerteza e o caos dos primeiros anos da id-
ade adulta. Embora dois deles j tivessem entrado na casa dos trinta e outro est-
ivesse quase a atingi-la, Adrienne perguntava-se com frequncia se o ofcio de
me alguma vez deixaria de ser um emprego a tempo inteiro.
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     Matt tinha 32 anos, Amanda tinha 31 e Dan acabava de fazer 29. 0 facto de
todos terem frequentado a universidade enchia-a de orgulho, pois houvera uma
altura em que no tinha a certeza de que qualquer deles viesse alguma fez a
formar-se. Os filhos eram honestos, amveis e auto-suficientes. Matt trabalhava
como tcnico de contas, Dan era jornalista desportivo no noticirio da noite de
Greenville; ambos eram casados e pais de filhos. Quando se tinham juntado no
Dia de Aco de Graas, ficara a observar a forma como eles tratavam dos reben-
tos, sentindo uma imensa satisfao pela forma como os seus filhos tinham en-
trado na vida.
    Como sempre, as coisas eram um pouco mais complicadas quando se tratava
da filha.
    Jack tinha sado de casa quando os midos se encontravam no incio da ad-
olescncia e cada um dos filhos tinha encontrado a sua maneira pessoal de en-
carar o divrcio dos pais. Matt e Dan tinham descarregado a sua agressividade
nas pistas de atletismo e, por vezes, como actores do teatro escolar, mas Amanda
fora a mais afectada. Sendo a segunda filha, apertada entre os dois irmos,
sempre se revelara a mais sensvel e, como adolescente, sentiu muito a salta do
pai em casa, quando mais no fosse para a distrair da preocupao sentida nos
olhares que a me lhe lanava. Comeou a usar roupas que Adrienne consid-
erava trapos, a andar com um grupo que ficava fora de casa at tarde e num ou
dois dos anos seguintes confessou-se profundamente apaixonada por uma dzia
de rapazes, pelo menos. Regressada da escola, ficava horas fechada no quarto a
ouvir msica que fazia vibrar as paredes, ignorando os chamamentos da me
para que viesse jantar. Passou por perodos em que, durante dias seguidos, mal
falava  me ou aos irmos.
    Foram precisos alguns anos, mas a Amanda acabou por encontrar o seu
caminho, escolhendo uma maneira de estar estranhamente parecida com a que
Adrienne vivera durante uma parte da vida. Conheceu o Brent na faculdade,
casaram-se depois de formados e tiveram dois filhos nos primeiros anos do mat-
rimnio. Como acontece com muitos casais jovens, passaram por dificuldades
financeiras, mas Brent era acautelado, como Jack nunca conseguira ser. Por pre-
cauo, subscreveu uma aplice de seguro logo que lhes nasceu o primeiro filho,
mesmo que nenhum deles pensasse que viria a precisar dela por muitos e muitos
anos.
   Estavam enganados.
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    Brent havia partido havia oito meses, vtima de um tipo especialmente viru-
lento de cancro dos testculos. Adrienne viu a filha afundar-se numa violenta de-
presso e na tarde do dia anterior, quando foi levar os netos depois de os ter con-
sigo durante algum tempo, verificou que as cortinas da casa da filha estavam
corridas, que a luz do alpendre ficara acesa e que Amanda estava sentada na
sala, de robe e com aquela expresso vazia que tinha mostrado no dia do funeral.
    Foi ento, ali na sala de estar de Amanda, que Adrienne sentiu chegada a al-
tura de falar  filha do seu prprio passado.
    Tudo tinha acontecido catorze anos antes.
     Durante todos aqueles anos, Adrienne s contara a uma pessoa aquilo que
tinha acontecido, mas o pai levara o segredo para a sepultura, incapaz de o con-
tar fosse a quem fosse, mesmo que o tentasse.
     A sua me morrera quando Adrienne tinha 3 5 anos e, embora a me e a
filha mantivessem um bom relacionamento, esta sempre se sentira mais chegada
ao pai. Ele fora, continuava a pens-lo, um dos dois homens que a compreendera
verdadeiramente e fazia-lhe muita falta, agora que tinha partido. A vida do pai
pouco se distinguia da de muitos dos homens da sua gerao. Tinha aprendido
um oficio, no pudera frequentar a universidade e passara quarenta anos a tra-
balhar numa fbrica de mobilirio, recebendo  semana um salrio que
aumentava apenas uns patacos em cada ms de janeiro. Usava chapu de feltro
mesmo noh meses quentes de Vero, levava o almoo numa lancheira com do-
bradias que chiavam e saa apressadamente de casa s 6h 45 de cada manh,
para percorrer a p mais de dois quilmetros at  fbrica.
     noite, depois do jantar, vestia um casaco de malha e camisas de mangas
compridas. As calas amarrotadas davam-lhe um certo ar de desalinho que se
tornou mais pronunciado  medida que os anos foram passando, em especial de-
pois da morte da mulher. Gostava de se instalar na cadeira de repouso, ao lado
da lmpada de luz amarela, a ler romances do Oeste e livros acerca da Segunda
Guerra Mundial. Nos ltimos anos de vida, antes dos derrames, os culos anti-
quados, as sobrancelhas espessas e o rosto com rugas profundas faziam-no
parecer-se mais com um professor universitrio jubilado do que com o operrio
que tinha sido.
     O ambiente  volta do pai revelava uma quietude que ela sempre desejou im-
itar. Muitas vezes, a filha pensava que ele poderia ter sido um bom padre, um
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pregador, e as pessoas que falavam com ele pela primeira vez ficavam quase
sempre com a impresso de que aquele homem estava em paz consigo e com o
resto do mundo. Era um ouvinte soberbo; com o queixo apoiado na mo, nunca
tirava os olhos da pessoa que falava, sempre com uma expresso que revelava
empatia e pacincia, humor e tristeza. Adrienne bem gostaria que ele estivesse
ali de momento, pronto a ajudar a Amanda; ele tambm perdera a companheira
e certamente Amanda estaria disposta a ouvi-lo, mesmo que fosse s por ter a
conscincia de que o av sabia avaliar a verdadeira dimenso do seu pesar.
    Um ms antes, quando Adrienne tentara ser amvel e levar a filha a falar da
situao em que se encontrava, Amanda tinha-se levantado da mesa e abanara a
cabea para mostrar que no estava interessada na conversa.
   - Isto no tem nada a ver com o que se passou entre ti e o pai
    - afirmou. - Divorciaram-se por no terem conseguido resolver os vossos
problemas. Mas eu amava o Brent. Nunca deixarei de o amar, mas perdi-o. No
fazes ideia do que  viver uma situao como esta.
   Na altura, Adrienne no disse nada, mas depois de Amanda ter
   sado da sala, a me inclinou a cabea e sussurrou uma simples palavra.
   Rodanthe.
    Para alm da enorme simpatia que a situao da filha lhe despertava,
Adrienne estava preocupada com os netos. Eram dois - Max de seis anos, Greg
com quatro - e durante os ltimos oito meses Adrienne vinha a reparar nas
mudanas notrias na personalidade de cada um. Ao contrrio do que lhes era
habitual, tinham-se tornado retrados e sossegados. Nenhum jogara futebol dur-
ante o Outono e embora Max estivesse a sair-se bem na escola pr-primria, to-
das as manhs chorava por no querer ir. Greg recomeara a molhar a cama e
tinha acessos de mau humor pelos motivos mais insignificantes. Adrienne sabia
que algumas das mudanas eram consequncia da falta do pai, mas no
deixavam tambm de reflectir a pessoa que Amanda se tinha tornado a partir da
Primavera anterior.
    Graas ao seguro de vida, Amanda no tinha necessidade de trabalhar.
Mesmo assim, nos primeiros meses a seguir  morte de Brent, Adrienne passou
quase todo o seu tempo em casa da filha, a pr as contas em ordem e a preparar
as refeies das crianas, enquanto Amanda se encerrava no quarto a chorar.
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Deu-lhe apoio sempre que ela precisou dele, ouviu-a quando quis falar e obrigou
a filha a passar pelo menos duas horas dirias fora de casa, na esperana de que
o ar livre pudesse fazer-lhe entender que tambm ela, Amanda, tinha direito a
comear uma nova vida.
     Adrienne pensou que a filha estava a melhorar. No comeo do Vero,
Amanda tinha recomeado a sorrir, raramente, a princpio, com mais frequn-
cia, depois. Empreendeu algumas visitas  cidade, acompanhou os midos  pat-
inagem, o que levou Adrienne a comear, pouco a pouco, a libertar-se das
obrigaes que tinha assumido. Era importante, disso no tinha dvidas, que
Amanda voltasse a responsabilizar-se pela sua prpria vida. Adrienne tinha
aprendido que as tarefas rotineiras do dia-a-dia tambm servem de conforto; es-
perava que diminuindo a sua presena na vida da filha, Amanda se visse compel-
ida a perceber essa mesma realidade.
    Contudo, em Agosto, no dia em que comemorariam o stimo aniversrio do
casamento, Amanda abriu o guarda-fatos do quarto de casal, viu o p acumulado
nos ombros dos casacos do Brent e, subitamente, as melhorias de comporta-
mento acabaram. No que tivesse voltado atrs - continuou a ter momentos em
que era igual a si mesma - mas, na maioria dos casos, parecia tolhida num
mundo de indeciso. No se sentia deprimida nem alegre; nem excitada nem
lnguida, nem interessada nem aborrecida acerca das coisas que a rodeavam.
Para a me, era como se Amanda se tivesse convencido de que continuar a viver
era de alguma maneira atraioar a memria do marido; decidiu que no deixaria
que tal acontecesse.
    Era uma situao injusta para as crianas. Os filhos precisavam que ela os
guiasse, careciam do amor e da ateno da me. Precisavam de lhe dizer que es-
tava tudo bem com eles. J tinham perdido um dos pais, o que era suficiente no
captulo das desgraas. Porm, Adrienne no conseguia deixar de pensar que os
netos enfrentavam um risco ainda mais srio: o de perderem igualmente a me.
    De p, no ambiente agradvel da sua cozinha fracamente iluminada,
Adrienne verificou as horas. A seu pedido, Dan tinha levado o Max e o Greg ao
cinema, de modo a permitir que Adrienne passasse a tarde com a Amanda. Tal
como ela, os dois filhos estavam preocupados com os midos de Amanda. No se
limitavam a envidar todos os esforos para terem um papel activo na vida dos
rapazes, pois, para alm disso, desde h muito que todas as suas conversas com
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Adrienne comeavam e terminavam com a mesma pergunta: 0 que  que deve-
mos fazer?
    Naquele mesmo dia, quando Dan voltara a fazer a mesma pergunta, a me
tinha-lhe assegurado que iria falar com Amanda. Embora Dan se mostrasse
cptico - quantas vezes  que j tinham tentado faz-lo? - ela sabia que naquela
noite tudo iria ser diferente.
    Adrienne alimentava poucas iluses acerca do que os filhos pensavam dela.
Era bvio que a amavam e respeitavam como me, mas tambm 'sabia que eles
nunca chegariam a conhec-la perfeitamente. Aos olhos dos filhos, era uma
pessoa simptica mas previsvel, amorosa e estvel, uma boa alma vinda de
outra era, que conseguira abrir caminho na vida com as suas ideias ingnuas
acerca da integridade das pessoas.  certo que mostrava os sinais da idade - os
ns dos dedos das mos comeavam a destacar-se, a sua figura assemelhava-se
mais a um quadrado do que a uma ampulheta, as lentes tinham ficado mais es-
pessas com o passar dos anos - mas, por vezes, mal conseguia conter o riso,
quando os via a olhar para ela com expresses destinadas a levantar-lhe o moral.
    O erro dos filhos derivava, em parte, do desejo de a verem de certa maneira,
de a adaptarem a uma imagem que tinham construdo e que consideravam
aceitvel para uma mulher da idade da me. Era mais fcil - e francamente mais
cmodo - pensarem que a me era mais calma do que audaciosa, uma pessoa la-
boriosa e no dotada de capacidades que os pudessem surpreender. E, para se
manter fiel ao esteretipo, tinha-se tornado uma me previsvel, simptica e es-
tvel, que nem sequer tentava que os filhos a vissem a uma luz diferente.
    Sabendo que Amanda podia chegar a qualquer momento, foi ao frigorfico o
tirou uma garrafa de Pinot Grigio, que colocou em cima da mesa da cozinha. A
casa tinha arrefecido com o aproximar da noite, pelo que, a caminho do quarto,
ligou o termstato.
    Era o quarto que tinha partilhado com Jack, cuja decorao j fora modi-
ficada por duas vezes desde o divrcio. Encaminhou-se para a cama de dossel
que fora o seu sonho desde menina. Encostada  parede, por debaixo da cama,
havia uma pequena caixa, que Adrienne colocou ao seu lado, sobre a almofada.
    Continha uma srie de coisas que tinha guardado: o bilhete que lhe tinha
deixado na estalagem, uma fotografia dele tirada na clnica e a carta que rece-
bera umas semanas antes do Natal. Por debaixo, havia dois maos de cartas
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trocadas entre ambos, no meio dos quais ainda estava um bzio que tinham
apanhado durante um passeio pela praia.
    Adrienne ps de lado o bilhete e tirou um sobrescrito de um dos maos, a
recordar-se do que sentira quando o lera pela primeira vez, e retirou de l uma
folha de carta. O papel parecia mais fino e quebradio, e embora a tinta tivesse
desmaiado desde a altura em que a carta fora escrita, as palavras estavam ainda
bem legveis:
    Querida Adrienne,
   Como nunca fui bom a escrever cartas, espero que me perdoes se no
conseguir exprimir-me com a clareza desejada.
    Acredites ou no, cheguei esta manh, montado num burro, e tomei contacto
com o lugar onde vou passar uns tempos. Bem gostaria de poder dizer-te que o
lugar  melhor do que eu tinha imaginado mas, muito honestamente, no posso.
A clnica tem carncias, praticamente de tudo: _ de remdios, de equipamento e
at de camas, mas falei com o director e julgo que terei possibilidades de resolver
alguns dos problemas, no todos. Embora disponham de um gerador para
produzir electricidade, no existem telefones, pelo que no poderei falar contigo
at que me dirija para Esmeraldas. Fica a uns dias de viagem a cavalo e o prx-
imo abastecimento s chegar aqui dentro de algumas semanas. Lamento, mas
penso que ambos suspeitmos de que as coisas se passariam assim.
    Ainda no vi o Mark. Est numa clnica afastada, nas montanhas, e s estar
de regresso logo  noite. Conto informar-te do que se passar mas, pelo menos de
princpio, no alimento grandes esperanas. Como disseste, julgo que antes de
resolvermos os problemas que existem entre mim e ele teremos de fazer um es-
foro para nos conhecermos melhor.
    Ainda nem me dei ao trabalho de verificar quantos doentes vi hoje. Quero
crer que foram mais de uma centena. H muito que no observava doentes desta
forma, com estes tipos de doenas, mas a enfermeira nunca deixou de me ajudar,
mesmo nas alturas em que eu parecia perdido. Acho que se sentia grata s pelo
facto de eu estar aqui.
    Desde a partida, nunca mais deixei de pensar em ti, tentando perceber a
razo que fez que o meu caminho tivesse de se cruzar com o teu. Ser que a minha
viagem ainda no acabou e que a vida uma via tormentosa, mas resta-me
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esperar que, de uma forma ou de outra, essa via me leve de regresso ao lugar
onde perteno.
      assim que agora vejo a situao. Perteno-te. Enquanto conduzia a cam-
inho do aeroporto, e tambm quando o avio j estava no ar, imaginava que
quando chegasse a Quito estarias entre a multido,  minha espera. Sabia que tal
no era possvel mas, por uma qualquer razo, esse pensamento tornou mais f-
cil a separao. Quase me parecia que uma parte de ti me acompanhava na
viagem.
    Quero acreditar que isto seja verdade. No, no leias assim - sei que  ver-
dade. Antes de nos conhecermos, eu estava completamente perdido como pess-
oa, mas, mesmo assim, viste em mim qualquer coisa que de certa forma me in-
dicou de novo a direco certa. Ambos conhecemos a razo que me levou a Rod-
anthe, embora no consiga deixar de pensar que aquela viagem foi obra de uma
fora superior. Fui at l para encerrar um captulo da minha vida, esperando
que a viagem me ajudasse a encontrar o meu caminho. Penso, contudo, que
apenas andava  tua procura. E que s tu quem neste momento est comigo.
    Ambos sabemos que terei de passar aqui algum tempo. No fao ideia de
quando poderei regressar e, embora tenha passado muito pouco tempo, tenho a
certeza de que nunca senti por ningum as saudades que estou a ter de ti. Uma
parte do meu ser deseja saltar para o primeiro avio e voar ao teu encontro mas,
se os nossos sentimentos forem to verdadeiros quanto eu penso que so, acho
que poderemos tolerar a separao. E no deixarei de voltar. Prometo. No curto
perodo de tempo que passmos juntos, vivemos situaes que muitas pessoas
nem conseguem imaginar; e j estou a contar os dias que vo decorrer at que
possa ver-te de novo. Nunca te esqueas de quanto te amo, Paul, dizer que estava
a ouvir a msica do oceano. Paul rira-se ao ouvir aquilo, explicando que ela es-
tava a ouvir o prprio oceano. Tinha-a rodeado com os braos e sussurrado:
Estamos na mar-cheia, ou ainda no te apercebeste disso?
    Adrienne passou em revista o resto do contedo da caixa, retirando o que lhe
interessava para a conversa com Amanda, lamentando no dispor de mais tempo
para uma leitura mais sossegada. Talvez mais tarde, disse para si mesma. Atirou
com as peas restantes para a gaveta do fundo, certa de que no havia necessid-
ade de aquelas coisas serem do conhecimento da filha. +Agarrando na caixa,
levantou-se da cama e alisou a saia.
   A filha no tardaria a chegar.
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    Acabada a leitura, Adrienne ps a carta de lado e pegou no bzio em que tin-
ham tropeado, numa tarde de domingo, havia muitos anos. Mesmo agora, exa-
lava um odor a mar, a eternidade, o cheiro primordial da prpria vida. Era de
tamanho mdio, perfeitamente formado e sem falhas, algo quase impossvel de
encontrar no rebentar das ondas de Outer Banks depois de uma tempestade. Um
sinal, pensara na altura, e recordava-se de -o encostar ao ouvido e de
DOIS

    Adrienne encontrava-se na cozinha quando sentiu a porta da frente ser
aberta e fechada logo de seguida; momentos depois, Amanda atravessou a sala.
      -Mam?
      A me pousou a caixa na bancada da cozinha. - Estou aqui - bradou.
    Quando Amanda empurrou a porta de vaivm e entrou na cozinha, viu a me
sentada  mesa, tendo  sua frente uma garrafa de vinho, por abrir.
      - O que  que se passa? - perguntou Amanda.
    Adrienne sorriu, a pensar como a filha era bonita. Com cabelo castanho-
claro e olhos cor de avel, que serviam de contraponto s mas do rosto sali-
entes, sempre fora adorvel. Embora uns dois centmetros mais baixa do que a
me, andava com a postura de uma bailarina e parecia mais alta. Tambm era
magra, um pouco magra de mais, na opinio da me, que, contudo, se abstinha
de comentrios sobre isso.
    - Achei que devia ter uma conversa contigo - disse Adrienne. - Sobre que
assunto?
      Em vez de responder, a me apontou para a mesa. - Acho que devias sentar-
te.
    Amanda sentou-se  mesa. Vista de mais perto parecia arrasada e Adrienne
pegou-lhe na mo. Apertou-a, sem dizer nada, e depois largou-a com uma certa
relutncia, voltando-se para a janela. Houve um silncio prolongado na cozinha.
    - Mam? - acabou Amanda por perguntar. - Sentes-te bem? Adrienne cerrou
os olhos e aquiesceu.
      - Estou ptima. S estava a tentar descobrir por onde  que
      hei-de comear.
      Amanda retesou-se ligeiramente.
    -  sobre mim, uma vez mais?  que nesse caso... A me f-la calar com um
aceno de cabea.
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- No,  acerca de mim - respondeu. - Vou falar-te de algo
que me aconteceu faz agora catorze anos.
Amanda inclinou a cabea para um lado e, naquele ambiente to
familiar da sua cozinha, Adrienne comeou a contar a histria.
TRES

    Rodanthe, 1988
   O cu matinal estava cinzento quando Paul Flanner deixou o escritrio do
advogado.
    Correndo o fecho do bluso, caminhou atravs da neblina at onde tinha
deixado o Toyota Camry alugado e deslizou para o assento do condutor, a pensar
que a sua maneira de viver durante o ltimo quarto de sculo tinha terminado
formalmente com a assinatura daquele contrato de venda.
   Corria o ms de janeiro de 1988; durante o ltimo ms tinha vendido os seus
bens: os dois automveis, o consultrio e agora, nesta reunio final com o
advogado, desfizera-se da casa.
    Nunca tinha pensado na forma como reagiria  venda da casa mas, ao fechar
a porta pela ltima vez, apercebeu-se de que para alm de uma vaga sensao de
chegar ao fim de uma viagem no sentia nada de especial. Ao princpio da man-
h tinha percorrido toda a casa uma vez mais, diviso por diviso, na tentativa
de recordar diversas cenas da sua vida. Pensou na rvore de Natal e recordou a
excitao com que o filho costumava arrastar-se pela escada abaixo, de pijama,
para ver os presentes que o Pai Natal lhe tinha deixado. Tentara recordar os
cheiros da cozinha no Dia de Aco de Graas ou nas tardes chuvosas de domin-
go em que Martha fazia um guisado, ou os sons de vozes que irradiavam da sala
onde ele e a mulher tinham sido anfitries em dezenas de festas.
    Porm,  medida que passava de uma diviso para outra, parando por mo-
mentos de olhos fechados, no conseguiu que as recordaes voltassem  vida.
Apercebeu-se de que a casa no passava de uma concha vazia e, uma vez mais,
no conseguiu perceber as razes de ter ali vivido durante tanto tempo.
    Paul deixou o parque de estacionamento, entrou na fila de trnsito e dirigiu-
se para a auto-estrada interestadual, evitando as multides suburbanas que se
dirigiam para a cidade. Vinte minutos depois, entrou na Highway 70, uma es-
trada de duas vias que se dirigia para sudeste, em direco  costa da Ca oliva do
Norte. No banco traseiro seguiam dois enormes sacos de viagem. Os bilhetes de
avio e o passaporte estavam na bolsa de pele colocada no banco do passageiro.
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Na bagageira transportava um kit mdico e diversos medicamentos que lhe tin-
ham pedido que levasse.
    L fora, o cu era uma tela pintada de branco e cinzento, no deixando dvi-
das de que o Inverno viera para ficar. De manh tinha chovido durante uma hora
e o vento que soprava do norte fazia que a temperatura parecesse mais baixa. A
estrada no tinha muito movimento, o piso j no estava molhado e Paul entrou
em velocidade de cruzeiro, uns quilmetros acima do limite autorizado, deixan-
do a mente recriar tudo aquilo que fizera durante a manh.
     Britt Blackerby, o seu advogado, tinha feito uma ltima tentativa para o dis-
suadir. Eram amigos de h muitos anos; seis meses antes, a primeira vez que
Paul lhe falara do que pretendia fazer, Britt pensou que o amigo estava a brincar
e tinha soltado uma gargalhada, ao mesmo tempo que dizia: Esse ser um dia
para recordar! S se apercebeu de que o amigo falava a srio quando viu a
forma como Paul o olhava do outro lado da mesa.
    No havia dvidas de que Paul estava preparado para aquele encontro. Era
um hbito de que no conseguia libertar-se, pelo que se limitou a empurrar para
o amigo trs folhas cuidadosamente dactilografadas, que continham o esboo
dos preos que considerava justos e o que pensava sobre o clausulado dos con-
tratos de venda. Britt ficou um bom bocado a analisar o documento, antes de ol-
har para o amigo.
    - Isto  por causa da Martha? - perguntou.
    - No - respondeu Paul. -  apenas uma coisa que preciso de fazer.
     No carro, Paul ligou o aquecimento e deixou ficar a mo em frente do difus-
or, a tentar aquecer as pontas dos dedos. Olhando pelo retrovisor, avistou de fu-
gida os arranha-cus de Raleigh e ficou a pensar se voltaria a v-los.
    A casa tinha sido vendida a dois jovens profissionais - o marido era director
na Glaxo Smith-Kline, a mulher era psicloga - que tinham visto a casa logo no
primeiro dia em que tinha sido posta  venda. Voltaram no dia seguinte e fizer-
am uma oferta poucas horas depois dessa visita. Foram o primeiro casal, e o
nico, que se passeou pela casa.
    Paul no ficou surpreendido. Estava l quando eles chegaram e viu que pas-
saram uma hora a analisar as caractersticas da casa. Apesar das tentativas que
faziam para disfarar o que sentiam, Paul sabia que tinham decidido comprar a
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casa logo  primeira vista. Mostrou-lhes os pormenores do sistema de alarme e a
maneira de abrir o porto que separava o seu domnio do resto da comunidade,
deu-lhes o nome e o carto de visita do jardineiro que tratava da propriedade,
bem como da empresa que fazia a manuteno da piscina, com a qual ainda
tinha um contrato vlido. Explicou que o mrmore do vestbulo fora importado
de Itlia e que os vitrais das janelas tinham sido desenhados por um arteso de
Genebra. A cozinha fora remodelada apenas dois anos antes; o congelador e o fo-
go Viking eram ainda do mais moderno que existia no mercado; tinha-lhes
garantido que cozinhar para vinte pessoas, ou mais, no constituiria qualquer
problema. Levou-os a ver o quarto e a casa de banho principais, depois os outros
quartos, sem deixar de reparar como os olhares deles se demoravam na apre-
ciao das molduras executadas  mo e nas paredes pintadas com esponja. No
piso inferior chamou-lhes a ateno para a moblia de estilo e para o candelabro
de cristal, deixou-os examinar o tapete persa que estava por debaixo da mesa das
bebidas da sala de jantar. Na biblioteca viu o homem a apreciar o candeeiro
Tiffany colocado a um canto da secretria e a passar os dedos pelos painis de
madeira de cer.
    - E o preo - perguntou ele -, inclui todo o mobilirio?
    Paul assentiu. Ao sair da biblioteca, no deixou de ouvir os sussurros excita-
dos que o casal trocava entre si.
    No final da hora que tinham passado a ver a casa, quando estavam junto da
porta e preparados para sair, ambos fizeram a pergunta que Paul sempre consid-
erara inevitvel.
    - Por que  que ps a casa  venda?
    Paul recordou-se de olhar para o homem, sabendo que a pergunta no era
fruto de simples curiosidade. O que Paul estava a fazer parecia sugerir um
qualquer escndalo, alm de que o preo, como ele bem sabia, era baixo mesmo
se a cash fosse vendida sem moblia.
    Poderia ter respondido que, por viver sozinho, no necessitava de uma casa
to grande. Ou que a casa podia ser melhor aproveitada por algum mais jovem,
por pessoas que no se importassem de subir escadas. Ou que tinha planos para
comprar ou para construir uma casa diferente, que lhe agradava outro gnero de
decorao. Ou que tencionava reformar-se e que a propriedade exigia cuidados
em demasia.
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    Mas qualquer destas respostas seria enganadora. Em vez de responder, en-
carou o homem, olhos nos olhos.
   - Por que  que a quer comprar? - perguntou.
   A pergunta fora feita em tom amigvel e o homem ficou a olhar a esposa por
momentos. Uma mulher bonita, pequena, morena e mais ou menos da idade do
marido - cerca de 3 5 anos. O marido tambm era bem-parecido, direito como
um fuso, um homem obviamente aplicado, que nunca se sentira inseguro. Por
momentos, pareceram no perceber o sentido da pergunta de Paul.
   -  o gnero de casa que sempre sonhmos vir a ter - respondeu finalmente a
mulher.
   Paul aquiesceu. Certo, pensou, a lembrar-se de tambm ter pensado o
mesmo. Pelo menos at seis meses atrs.
   - Ento, espero que ela lhes traga felicidade - rematou.
    Momentos depois o casal voltou-se para a sada e Paul ficou a v-los
dirigirem-se para o carro. Fez-lhes um aceno antes de fechar a porta mas, uma
vez s, sentiu um n na garganta. Apercebera-se de que olhar para aquele
homem o obrigara a lembrar-se do que em tempos sentia quando olhava para o
espelho. E, subitamente, por uma razo que mal poderia explicar, Paul sentiu
que tinha lgrimas nos olhos.
    A estrada passava por Smithfield, Goldsboro e Kinston, pequenas cidades
separadas por cinquenta quilmetros de campos de algodo e de tabaco. Tinha
crescido nesta parte do mundo, numa pequena herdade nos arredores de Willi-
amston, e os lugares mais importantes ainda lhe eram familiares. Passou por
celeiros de tabaco e casas de lavoura em equilbrio instvel; viu manchas de
visco nos ramos altos e desfolhados dos carvalhos que ladeavam a estrada. Uma
espcie de pinheiros, plantados em filas compridas e estreitas, separavam as
propriedades umas das outras.
    Em New Bern, uma cidade estranha, situada na confluncia dos rios Neuse e
Trent, parou para almoar. Comprou uma sanduche e uma chvena de caf
numa loja do centro histrico e, apesar do frio, sentou-se num banco perto do
Sheraton, de onde se via a marina. Amarrados nos ancoradouros, os iates e os
barcos de vela balouavam suavemente com a brisa.
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    A respirao de Paul formava pequenas nuvens. Comida a sanduche, re-
moveu a tampa da chvena de caf. Ficou a observar o vapor de gua que subia e
a ponderar a sequncia de acontecimentos que o tinham trazido at ali.
     Tinha sido uma longa caminhada, pensou. A me morrera quando o trouxe
ao mundo e, sendo nico filho de um pai que tinha de trabalhar a terra para
comer, a sua vida no fora fcil. Em vez de ir jogar basebol com os amigos ou de
ir  pesca, passava os dias a mondar ervas daninhas e a tirar parasitas das folhas
de tabaco, doze horas por dia, sob o calor inclemente do sol dos Veres sulistas
que lhe mantinha as costas com um castanho-dourado permanente. Como todas
as crianas, por vezes queixava-se; mas na maior parte dos dias conformava-se
com o trabalho. Sabia que o pai precisava da sua ajuda e o pai era um bom
homem. Era paciente e simptico mas, mantendo a tradio do seu prprio pai,
raramente falava, a menos que tivesse alguma coisa importante para dizer. Na
maioria dos dias, a casa oferecia aquele tipo de sossego que normalmente s se
encontra nas igrejas. Para alm das perguntas superficiais acerca do que se pas-
sava na escola ou do que estava a acontecer nos campos, ao jantar apenas se
ouvia o som ocasional dos talheres a bater nos pratos. Lavada a loua, o pai
emigrava para a sala para folhear artigos e relatrios sobre agricultura, enquanto
Paul mergulhava na leitura dos seus livros. No tinham televisor e o rdio quase
s era ligado para ouvir o boletim meteorolgico.
    Eram pobres, no lhes faltav comida nenj uma cama quente para dormir-
em, mas era frequente que Paul se sentisse envergonhado com as roupas que
tinha de usar ou pelo facto de nunca ter dinheiro suficiente para ir  pastelaria
comprar um bolo ou uma cola, como faziam os seus amigos. Ouvia, uma vez por
outra, alguns comentrios maldosos sobre o assunto, mas em vez de lhes
responder dedicou-se ao estudo, como se tentasse provar que a pobreza no o
preocupava. Obteve notas excelentes, ano aps ano; o pai, por muito que os res-
ultados do Paul o enchessem de orgulho, mal escondia uma certa melancolia que
o assaltava ao olhar os relatrios, como se no tivesse dvidas de que aquelas
notas significavam que o filho um dia sairia da herdade, para no mais voltar.
    Os hbitos de trabalho que desenvolvera nos campos fizeram-se sentir nout-
ras reas da vida de Paul. No s foi o melhor aluno do seu curso como tambm
um excelente atleta. Quando caloiro, foi afastado da equipa de futebol, mas o
treinador recomendou-lhe que tentasse a corrida de corta-mato. Quando perce-
beu que a diferena entre ganhadores e perdedores era quase sempre mais de-
terminada pelo trabalho do que pelas qualidades inatas, comeou a saltar da
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cama s cinco horas da manh, de modo a poder fazer dois treinos dirios. O es-
quema resultou; frequentou a Duke University com uma bolsa de estudos destin-
ada a atletas e foi o melhor corredor da escola durante quatro anos, alm de ob-
ter excelentes notas. S uma vez, em quatro anos, baixou a guarda e quase mor-
reu em consequncia disso, mas no deixou que voltasse a acontecer. Dedicou-se
 Qumica e  Biologia e formou-se com distino summa cum lande). Nesse ano
tambm se tornou uma figura do desporto a nvel nacional, terminando em ter-
ceiro lugar no campeonato de corta-mato.
    Terminada a corrida, ofereceu a medalha ao pai e disse que tinha feito todo o
esforo por ele.
    - No - respondeu o pai -, correste por ti. S espero que estejas a esforar-te
para alcanares qualquer coisa, no para fugires de alguma coisa.
    Nessa noite, deitado na cama a contemplar o tecto, Paul tentou perceber
aquilo que o pai quisera dizer-lhe. Por si, pensava estar a correr em direco a
qualquer coisa, queria obter tudo. Uma vida melhor. Desafogo financeiro. Meios
de ajudar o pai. Considerao. Ausncia de dificuldades. Felicidade.
    Em Fevereiro do ltimo ano, depois de saber que tinha sido aceite pela
Faculdade de Medicina da Universidade Vanderbilt, foi visitar o pai para lhe dar
a boa notcia. O pai mostrou-se feliz por Paul ter conseguido o que queria. Mais
tarde, a horas a que o pai costumava estar a dormir profundamente, Paul foi 
janela e viu-o l fora, junto ao poste da vedao, uma figura solitria com o olhar
perdido nos campos.
   O pai morreu trs semanas depois. Foi vitimado por um ataque cardaco
quando andava a lavrar, a preparar as terras para as culturas da Primavera.
     Paul sentiu-se devastado pela perda; mas em vez de passar o tempo a chorar
a morte do pai, tentou no pensar nela e trabalhou ainda com mais afinco. Foi
cedo para Vanderbilt, frequentou os Cursos de Vero e escolheu trs disciplinas
que o fariam progredir nos estudos e depois, no Outono, acrescentou trs discip-
linas de opo a um plano de estudos j muito sobrecarregado. Depois disso, to-
dos os seus dias se tornaram iguais. Ia s aulas, fazia os trabalhos de laboratrio
e estudava at s primeiras horas da manh. Corria oito quilmetros por dia,
contra o cronmetro, a tentar melhorar os tempos a cada ano que passava.
Evitava discotecas e bares; ignorava as restantes actividades das equipas de at-
letismo da universidade. Comprou um televisor devido a um impulso
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momentneo mas nem o tirou da embalagem; vendeu-o um ano depois. Embora
tmido com as raparigas, foi apresentado  Martha, uma loura da Gergia, de
temperamento calmo, que trabalhava na biblioteca da Faculdade de Medicina;
como ele no se decidia a convid-la para sair, teve de ser ela a tomar a inici-
ativa. Embora a Martha se preocupasse com a cadncia infernal da vida dele, dez
meses mais tarde percorreram o caminho para o altar. No houve tempo para a
lua-de-mel, pois os exames finais estavam  porta, mas ele prometeu que iriam a
um stio adequado, logo que o ano escolar terminasse. Nunca foram. O filho,
Mark, nasceu um ano depois e durante os dois primeiros anos Paul nunca lhe
'mudou uma fralda, nem o embalou para adormecer. i, Tinha mais que fazer, tra-
balhava na mesa da cozinha, analisando diagramas de fisiologia humana ou
estudando equaes qumicas, sempre a tomar notas e a ser bem sucedido em
cada exame. Conseguiu licenciar-se em trs anos, foi o primeiro classificado do
curso e levou a famlia para Baltimore, a fim de fazer o internato de cirurgia na
Johns Hopkins.
    A cirurgia, soube-o a seu tempo, era o seu destino. Muitas das especialidades
exigem uma grande dose de interaco e de palmadinhas nas mos dos doentes;
Paul no era especialmente dotado para comportamentos desse tipo. A cirurgia
era diferente; os pacientes estavam mais interessados na aptido tcnica do
cirurgio do que na sua capacidade de comunicao e Paul possua no s a
autoconfiana suficiente para os pr  vontade antes da operao como tambm
dominava as tcnicas necessrias para fazer o que tinha de ser feito. Aquele
ambiente f-lo prosperar. Nos ltimos dois anos de internato, Paul trabalhava
semanas de noventa horas e dormia quatro horas por noite; por mais estranho
que parecesse, no revelava sinais de fadiga.
     Depois do internato completou um curso de ps-graduao em cirurgia
crnio-facial e mudou-se, juntamente com a famlia, para Raleigh, onde montou
consultrio com outro cirurgio, na altura exacta em que a populao da cidade
iniciou um aumento explosivo. Sendo os nicos dois especialistas daquele ramo
na cidade, a sua clnica tinha de se expandir. Aos 34 anos completou o paga-
mento das dvidas contradas na Faculdade de Medicina. Aos 36 tinha protoco-
los com todos os hospitais importantes da zona, embora a parte principal do seu
trabalho tivesse lugar no centro mdico da Universidade de Carolina do Norte.
Foi ali que participou num estudo sobre neurofibromas, em colaborao com es-
pecialistas da Clnica Mayo. Um ano mais tarde, viu um seu artigo acerca da
fenda palatina ser publicado no New England Journal of Medicine. Seguiu-se,
quatro meses depois, um artigo sobre hemangiomas que ajudou a uma nova
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definio do mtodo de operar este tipo de tumores em crianas. A sua
reputao aumentou e, depois de ter operado com xito a filha do senador Nor-
ton, que ficara desfigurada num acidente de viao, a sua fotografia foi capa do
Wall Street Journal.
    Para alm de especialista de cirurgia reconstrutiva, foi dos primeiros mdi-
cos do estado de Carolina do Norte a fazer cirurgia plstica e cavalgou a onda
quando ela ainda estava a formar-se. A clientela teve um aumento fantstico, os
seus rendimentos multiplicaram-se, comeou a acumular bens. Comprou um
BMW, depois um Mercedes, a seguir foi um Porsche e ainda outro Mercedes. Ele
e a Martha construram a casa com que ambos sonhavam. Comprou aces,
obrigaes e participaes em pelo menos uma dzia de fundos. Quando perce-
beu que no podia estar a par de todas as particularidades do mercado, con-
tratou um gestor financeiro. Depois disso, a sua fortuna comeou a duplicar em
cada quatro anos. Ento, quando j tinha mais dinheiro do que o necessrio para
se manter at ao fim da vida, a fortuna comeou a triplicar.
    Continuava, porm, a trabalhar. Marcava operaes para os dias teis e tam-
bm para os sbados. Passava as tardes de domingo no escritrio. Quando at-
ingiu os 45 anos de idade, o ritmo de trabalho que impunha acabou por cansar o
scio da clnica, que o deixou para ir exercer medicina com outro grupo de
colegas.
    Nos primeiros anos aps o nascimento do Mark, a mulher ainda falava em
terem outro filho. Com o tempo, deixou de tocar no assunto. Embora Martha o
forasse a ter frias, ele fazia-o to a contragosto que, por fim, a mulher
habituou-se a fazer longas visitas aos pais e a levar o Mark, deixando Paul soz-
inho em casa. Este conseguia arranjar tempo para assistir aos momentos mais
importantes da vida do filho, queles eventos que acontecem uma ou duas vezes
por ano, mas perdia quase todos os restantes.
   Convenceu-se a si mesmo de que trabalhava para bem da tam lia. Ou para a
Martha, que partilhara com ele as lutas dos primeiros anos. Ou para honrar a
memria do pai. Ou para prevenir o futuro do Mark. No entanto, bem l no
fundo, sabia que o fazia por si prprio.
    Se tivesse de escolher o mais grave de entre os seus desgostos durante
aqueles anos, teria de falar do filho que, apesar de criado sem ter o pai por perto,
o surpreendera e quisera ser mdico. Depois de Mark ter sido admitido na
Faculdade de Medicina, Paul espalhou a novidade por todos os corredores do
                                                                           21/121

hospital, encantado com a ideia de ter o filho como colega de profisso. Agora,
pensou, poderiam passar mais tempo juntos e lembrou-se de convidar Mark
para almoar, na esperana de que conseguiria convenc-lo a enveredar pela
cirurgia. Mark limitou-se a abanar a cabea.
   - Essa  a tua vida - disse-lhe o filho -, e  uma vida que no me interessa
minimamente. Para ser franco, direi que tenho pena de ti.
    Palavras duras. Tiveram uma discusso. Mark fez-lhe acusaes graves, Paul
enfureceu-se e o filho acabou por se precipitar para fora do restaurante.
Recusou-se a falar ao filho durante as semanas seguintes, mas Mark no fez
qualquer tentativa para remediar a situao. As semanas transformaram-se em
meses; correram os anos. Embora Mark mantivesse relaes afectuosas com a
me, evitava visit-la em casa quando sabia que o pai l estava.
     Paul tratou a desavena com o filho da nica maneira que conhecia. Manteve
o ritmo de trabalho, continuou a correr os seus oito quilmetros dirios, logo de
manh consultava as pginas de informaes financeiras do jornal. No entanto,
percebia a tristeza no olhar da Martha e havia momentos, especialmente a altas
horas da noite, em que procurava descobrir maneiras de retomar o relaciona-
mento com o filho. Bem gostaria de pegar no telefone e ligar-lhe, mas nunca
conseguiu reunir o nimo para o fazer. Mark, pelo que sabia atravs da mulher,
estava a sair-se muito bem sem a ajuda do pai. Em vez da especializao em
cirurgia, tornou-se mdico de famlia e, aps vrios meses passados a reunir os
conhecimentos exigidos, foi para o estrangeiro como voluntrio de uma organiz-
ao internacional de auxlio aos desprotegidos. Embora considerasse que se
tratou de um gesto nobre, Paul no conseguiu deixar de pensar que Mark
pretendera afastar-se dele o mais possvel.
   Duas semanas depois de o filho ter partido, Martha pediu o divrcio.
    Se as palavras de Mark o tinham feito zangar, as da Martha deixaram-no
boquiaberto. Comeou a tentar dissuadi-la, mas a mulher no o deixou
prosseguir.
   - Vais mesmo sentir a minha falta? - perguntou. - Ns j mal nos
conhecemos.
   - Eu posso mudar - respondeu ele.
   Martha sorriu.
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    - Sei que podes. E devias. Mas terias de o fazer por ser essa a tua vontade,
no por pensares que  isso que eu quero.
    Paul passou as semanas seguintes numa espcie de torpor e, um ms depois
daquela conversa, aps ter sido submetida a uma operao rotineira, Jill Torrel-
son, de 62 anos de idade, natural de Rodanthe, Carolina do Norte, morreu na
sala de recuperao.
    Foi este golpe terrvel, vindo na sequncia dos outros, que, sabia-o agora, o
tinha trazido at ali..
    Bebido o caf, Paul voltou ao carro e dirigiu-se de novo para a estrada.
Chegou a Morehead City trs quartos de hora mais tarde. Atravessou a ponte
para Beaufort, contornou as rotundas e dirigiu-se para leste, na direco de
Cedar Point.
    Abrandou a velocidade para apreciar devidamente a beleza serena daquelas
terras baixas da faixa costeira. Como pde verificar, por aquelas bandas a vida
era diferente. Sentia-se encantado porque as pessoas que conduziam em sentido
contrrio o cumprimentavam com acenos, maravilhou-se com o grupo de idosos
sentados no banco do exterior de uma bomba de gasolina, que pareciam no ter
mais nada que fazer do que observarem os automoveis que passavam.
    A meio da tarde apanhou o ferry para Ocracoke, uma vila no extremo sul dos
Outer Banks. O barco s transportava mais quatro automveis, dando-lhe opor-
tunidade, durante a viagem de duas horas, para confraternizar com alguns dos
outros passageiros. Passou a noite num motel de Ocracoke, acordou quando a
bola de luz brilhante se elevou acima da gua e tomou o pequeno-almoo, pas-
sando as horas seguintes a passear pela vila rstica, a observar as pessoas que
estavam a preparar casas para resistirem  tempestade que se formava ao, largo
da costa.
    Quando finalmente se sentiu pronto, atirou o saco de viagem para dentro do
carro e comeou a dirigir-se para norte, para o lugar onde tinha de ir.
    Os Outer Banks, pensou, tinham tanto de estranho como de mstico. No
havia outro lugar assim, com os tufos de erva a emergirem das dunas arredonda-
das e os carvalhos martimos dobrados pela brisa que nunca deixava de soprar
do oceano. A ilha j estivera ligada ao continente, mas depois da ltima Idade
Glaciar, o mar tinha inundado uma vasta rea, formando o Pamlico Sound, a
oeste. Esta srie de ilhas teve a sua primeira estrada nos anos 50 do sculo XX;
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at ento, as pessoas tinham de seguir pela praia e atravessar as dunas para
chegarem s suas casas. Mesmo agora, o sistema ainda fazia parte dos hbitos
locais, pois, enquanto conduzia, observava que havia rastos de pneus perto da
linha de gua.
    O cu tinha clareado aos bocados e, embora as nuvens corressem apressada-
mente em direco ao horizonte, o sol aparecia por entre elas, cobrindo a terra
de um brilho branco e agreste. Ouvia a violncia do oceano, cujo bramido se
sobrepunha ao barulho do motor.
   Como os Outer Banks eram pouco povoados nesta altura do ano, tinha
aquele troo de estrada s para si. No meio da solido, voltou a pensar na
Martha.
    O processo de divrcio terminara havia poucos meses, mas fora por comum
acordo. Sabia que ela andava a sair com outro homem, suspeitando at que j o
fizesse antes da separao, mas isso no tinha importncia. Nada lhe parecia im-
portante naquela altura.
   Quando ela saiu de casa, Paul achou que devia passar a trabalhar menos,
pensando que precisava de tempo para ordenar as coisas.
    Passados meses, em vez de ter voltado  rotina anterior, fez um novo corte
nos seus compromissos. Continuou a correr com regularidade, mas em vez de ler
as pginas financeiras logo pela manh, achou que tal leitura tinha perdido todo
o interesse. At onde a sua memria alcanava, sempre necessitara apenas de
seis horas de sono por noite; mas, por estranho que parecesse, quanto mais di-
minua o ritmo da vida que fazia anteriormente, mais horas parecia precisar
para se sentir repousado.
    Tambm reparou em outras mudanas a nvel fsico. Pela primeira vez, em
muitos anos, sentiu que os msculos dos ombros se descontraam. As rugas do
rosto, aprofundadas com a passagem do tempo, eram ainda bem visveis, mas a
intensidade que costumava notar na sua expresso tinha sido substituda por
uma espcie de melancolia resignada. E parecia-lhe, devia estar a imaginar
coisas, que as entradas do cabelo, j acinzentado, tinham deixado de aumentar.
   Pensara ter tudo, numa determinada altura da vida. Tinha corrido, seguindo
sempre em frente, atingira o pinculo do xito; agora, contudo, percebia que
nunca tinha seguido o conselho dado pelo pai. Tinha andado toda a sua vida a
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fugir de qualquer coisa, no  procura fosse do que quer que fosse e, no fundo do
corao, sabia que todos os seus esforos tinham sido vos.
    Tinha 54 anos e estava sozinho no mundo; ao olhar a tira de asfalto  sua
frente, tambm ela vazia, no conseguia deixar de perguntar a si mesmo a razo
que o levara a passar a vida a correr.
    Sabendo que j estava perto, Paul preparou-se para a ltima etapa da
viagem. Ia ficar numa pequena penso pouco afastada da estrada, com cama e
pequeno-almoo, e quando chegou aos arredores de Rodanthe, reconheceu logo
onde estava. No centro, se ainda se podia chamar assim, havia vrias lojas que
pareciam vender praticamente de tudo. O supermercado tanto vendia mquinas
como material de pesca e artigos de mercearia; a bomba de gasolina tambm
tinha pneus e sobressalentes para automveis, alm de oferecer servios de
mecnica.
    No viu necessidade de pedir orientaes e um minuto depois saiu da es-
trada, entrou numa vereda com gravilha, a pensar que a estalagem de Rodanthe
era bem mais encantadora do que tinha imaginado. Tratava-se de uma con-
struo vitoriana, que demonstrava idade, com venezianas pintadas de preto e
um alpendre convidativo. Nos corrimes havia vasos com amores-perfeitos e a
bandeira americana ondulava ao vento.
    Pegou nas suas coisas, pendurou os sacos no ombro, subiu os degraus e en-
trou. O cho era de pinho, estava desgastado pelas areias agarradas s muitas
solas que o tinham pisado e no tinha o aspecto formal do pavimento da sua an-
tiga casa.  esquerda havia uma sala de estar confortvel, bem iluminada por
duas grandes janelas, uma de cada lado da lareira. Cheirou-lhe a caf acabado de
fazer e viu que tinha um pequeno prato de bolachas  sua espera. Pensou que o
proprietrio estaria do lado direito e seguiu nessa direco.
    Embora tivesse visto um pequeno balco, onde era suposto fazer a inscrio,
no havia ali ningum. O armrio das chaves era no canto por detrs do balco,
com porta-chaves que representavam miniaturas de faris. Tocou a campainha
quando chegou junto do balco, a chamar a ateno de algum que o pudesse
atender.
    Esperou, voltou a tocar e pareceu-lhe ouvir um som de choro abafado. Pare-
cia vir de um ponto no fundo da casa. Ps os sacos no cho e, dando a volta ao
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balco, passou por um par de portas de vaivm que abriam para a cozinha. Havia
artigos de mercearia, ainda dentro dos sacos, em cima da bancada.
    A porta das traseiras estava aberta, como a convid-lo a avanar, e quando
saiu para o alpendre ouviu as tbuas a rangerem. Havia duas cadeiras de balouo
do lado esquerdo, com uma pequena mesa entre ambas; do lado direito, encon-
trou a fonte do som.
    Ela estava de p, no canto de onde se avistava o oceano. Tal como ele, usava
calas de ganga desbotadas, mas vestia uma espessa camisola de gola alta. O
cabelo castanho-claro estava penteado para trs, com alguns cabelos soltos a es-
voaarem com o vento. Viu-a voltar a cabea ao ouvir o som das botas nas tbuas
do alpendre. Uma dezena de gaivotas revoluteavam no cu por detrs dela e uma
chvena de caf fora abandonada em cima do corrimo.. Paul desviou os olhos,
mas voltou a olhar para ela pouco depois. Embora estivesse a chorar, via-se que
era bonita, mas, pelo ar de tristeza e pela agitao que demonstrava, Paul con-
cluiu que a mulher nem tinha conscincia disso. E esse pormenor, que nunca
deixaria de ressaltar sempre que ele recordava aquele momento, s servia para a
tornar ainda mais atraente.
QUATRO

    Sentada do outro lado da mesa, Amanda ficou a olhar para a me. Adrienne
tinha-se calado e ficara a olhar o cu pela janela. Deixara de chover; visto atravs
da vidraa, o cu parecia carregado de manchas escuras. No silncio que se
seguiu, Amanda conseguia at ouvir o zumbido montono do frigorfico.
   - Mam, qual  o motivo de estares a falar-me disso? - Porque acho que
deves saber o que se passou. - Mas porqu? Quer dizer, quem era ele?
   Em vez de responder, Adrienne pegou na garrafa de vinho. Abriu-a com mo-
vimentos deliberadamente lentos. Encheu o seu copo e depois o da filha.
    -  provvel que precises disto - disse. -Mam?
    Adrienne empurrou o copo na direco da filha.
    - Lembras-te da altura em que fui para Rodanthe? Quando a Jean me pediu
para eu tomar conta da estalagem?
    Antes de responder, Amanda teve de pensar um bocado. - Quando eu andava
no liceu,  isso? - Exacto.
    Quando a me recomeou a falar, Amanda deu consigo a pegar no copo de
vinho, tentando adivinhar aonde  que a conversa as iria levar.
SEIS

    Paul tinha vindo a Rodanthe a pedido de Robert Torrelson; enquanto tirava
umas coisas dos sacos para as guardar nas gavetas da cmoda, dava voltas 
cabea a tentar descobrir o que Robert teria para lhe dizer, ou se estaria  espera
de que Paul fizesse as despesas da conversa.
    Jill Torrelson tinha ido consult-lo por ter um meningioma. Um tumor be-
nigno, no lhe punha a vida em perigo mas era feio, para no dizer pior. O men-
ingioma estava do lado direito do rosto e cobria toda a zona desde a ponte do
nariz e por cima do malar, formando uma massa bulbosa e arroxeada, pontil-
hada de cicatrizes nos stios onde, ao longo de anos, os tecidos ulceraram. Paul j
havia operado dezenas de pacientes com meningiomas e recebera muitas cartas
de pessoas que se tinham submetido  operao, nas quais expressavam a maior
gratido pelo que o cirurgio fizera por elas.
    J tinha revisto o caso mais de um milhar de vezes, mas continuava sem
saber a razo da morte da doente. Nem era possvel, segundo parecia, que a cin-
cia pudesse fornecer uma resposta. A autpsia de Jill fora inconclusiva, sem se
conseguir determinar a causa da morte. Tinham comeado por admitir que a
doente fora vtima de uma espcie de embolia, mas no conseguiram reunir
provas disso. Depois, concentraram-se na ideia de que sofrera uma reaco alr-
gica  anestesia ou  medicao ps-operatria, mas tambm essa hiptese
acabou por ser posta de parte. Portanto, fora negligncia da parte de Paul; a
cirurgia tinha decorrido sem contratempos e o exame minucioso do mdico-le-
gista no tinha apontado qualquer falha no procedimento normal naqueles
casos, nem nada que pudesse, mesmo remotamente, ter sido responsvel pelo
bito.
     O registo em vdeo confirmou isso mesmo. Por se tratar de um meningioma
tpico, a operao tinha sido gravada pelo hospital para possvel utilizao nas
aulas prticas da faculdade. Mais tarde, a gravao fora vista pelo conselho de
cirurgies do hospital, a que se juntaram mais trs colegas de outros hospitais do
Estado. Uma vez mais, no se descobriu nada de errado. E o relatrio men-
cionava vrios estados patolgicos. Jill Torrelson tinha excesso de peso e as
artrias estavam endurecidas; com o tempo, teria de ser operada s coronrias.
Era diabtica e, como fumadora de longa data, estava a comear a sofrer de en-
fisema pulmonar, embora, uma vez mais, nenhuma destas doenas parecesse
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pr-lhe a vida em perigo na altura da operao e nenhuma delas pudesse forne-
cer uma explicao adequada para o que aconteceu.
  Aparentemente, Jill Torrelson morreu sem qualquer motivo, como se, no
momento, Deus tivesse decidido cham-la  Sua presena.
    Como muitas outras pessoas na mesma situao, Robert Torrelson tinha
posto o caso em tribunal. Como rus, eram indicados Paul, o hospital e o an-
estesista. Paul, como a maioria do cirurgies, tinha um seguro para cobrir aquele
tipo de situaes. Como era de rotina, foi aconselhado a no falar com Robert
Torrelson sem que o seu advogado estivesse presente e, mesmo ento, s se est-
ivesse a ser interrogado e se desse a circunstncia de Robert tambm se encon-
trar na sala.
    O caso arrastou-se durante um ano, sem soluo. Logo que o advogado de
Robert Torrelson recebeu o relatrio da autpsia, encarregou outro cirurgio de
rever a gravao de vdeo; os advogados da companhia de seguros e do hospital
comearam a colocar obstculos processuais para arrastarem o caso e fazerem
subir os custos, pois o advogado de Torrelson tinha pintado um quadro negro
das exigncias do seu cliente. Embora sem o dizerem directamente, os ad-
vogados da companhia de seguros esperavam que Robert Torrelson acabasse por
desistir do processo.
    Tinha acontecido o mesmo nos outros processos postos a correr contra Paul
Flanner, se pusermos de lado o facto de, dois meses antes, Paul ter recebido um
bilhete pessoal de Robert Torrelson.
   No precisava de o trazer consigo para recordar o que l tinha sido escrito.
   Caro Dr. Flanner,
   Gostaria de falar consigo em pessoa. Isto  muito importante para mim.
   Por favor,
   Robert Torrelson
   Escrevera o endereo no final da carta.
    Recebida a carta, Paul mostrou-a aos advogados, que o aconselharam a no
responder. Os seus antigos colegas do hospital disseram o mesmo. Que deixasse
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andar, opinaram; que quando o caso estivesse terminado poderia sempre aceitar
o encontro, se o outro ainda quisesse conversar.
    Mas aquele pedido simples de Robert Torrelson, por cima de uma assinatura
cuidadosamente desenhada, tinha mexido com Paul e ele decidiu no ligar s
recomendaes.
    Segundo a sua maneira actual de pensar, tinha ignorado demasiadas coisas.
    Paul vestiu o casaco, desceu a escada e saiu pela porta da frente, dirigindo-se
para o carro. Pegou na bolsa de pele que estava no banco da frente, que continha
os bilhetes e o passaporte mas, em vez de voltar para dentro, deu a volta pela
parte lateral da casa.
    O vento era mais forte do lado da praia e Paul teve de parar uns momentos
para fechar o casaco. Apertando a bolsa debaixo do brao, agarrou o casaco com
ambas as mos e baixou a cabea, sentindo que a brisa parecia morder-lhe as
mas do rosto.
    O cu recordou-o de outros cus que vira em Baltimore antes das tempest-
ades que tingiam todo o mundo com manchas de cinzento desmaiado. L longe,
avistou um pelicano a deslizar por cima da gua, de asas paradas, limitando-se-
a flutuar contra o vento. Bem gostava de saber para onde a ave iria quando a
tempestade atingisse a mxima fora.
     Paul parou perto da gua. As ondas rolavam para a praia vindas de duas dir-
eces diferentes, fazendo saltar espuma quando colidiam. O ar estava hmido e
frio. Olhando por cima do ombro, avistou o brilho amarelado da lmpada da co-
zinha da estalagem. Como se fosse um fantasma, a silhueta de Adrienne passou
pelo vo da janela e desapareceu da vista.
    Pensou que na manh seguinte tentaria falar com Robert Torrelson. A tem-
pestade era esperada durante a tarde e era provvel que se mantivesse durante
boa parte do fim-de-semana, mas poderia fazer a visita se o tempo permitisse.
No queria protelar a visita para segunda-feira, pois o seu voo tinha a partida
marcada para a tarde de tera-feira, o que obrigava a sair de Rodanthe s nove
da manh, no mximo. No desejava correr o risco de no falar com o homem,
mas por causa da tempestade, o tempo estava a ficar curto. Segunda-feira era
provvel que as linhas de transporte de energia tivessem sido derrubadas, podia
haver inundaes e, passada a tormenta, Robert Torrelson poderia ter de tomar
conta sabe-se l de quem.
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    Paul nunca tinha estado em Rodanthe, mas calculava que perderia apenas
uns minutos para encontrar a casa. Na sua avaliao, a cidade no devia ter mais
do que umas dezenas de ruas e poderia ser percorrida de ponta a ponta em
menos meia hora.
    Depois de passar alguns momentos no areal, Paul virou-se e iniciou o per-
curso de regresso  estalagem. No caminho, tornou a ver Adrienne de relance,
quando ela passou pelo vo de uma janela.
    O sorriso, pensou para consigo. Gostava do sorriso dela.
    Adrienne deu consigo a olhar atravs da janela, a v-lo regressar da praia.
    Estava a desempacotar os artigos de mercearia, fazendo o seu melhor para
os colocar nos armrios que lhes estavam destinados. No princpio da tarde com-
prara tudo o que a Jean tinha determinado, mas agora perguntava-se se no
deveria ter esperado a chegada de Paul, para lhe perguntar se tinha preferncia
por alguma comida especial.
    Esta visita intrigava-a. Soube, atravs da Jean, que ele tinha telefonado seis
semanas antes, que o informara de que ia fechar depois do Ano Novo e que no
voltaria a abrir antes de Abril, mas ele oferecera-se para pagar o dobro do preo
normal, desde que ela mantivesse a estalagem aberta durante mais uma semana.
    Este homem no estava de frias, disso tinha a certeza. No s por Rodanthe
no ser um destino popular durante os meses de Inverno, mas tambm por ele
na se enquadrar ano turista normal. Alm disso, quando chegou, no mostrou
ser uma pessoa que veio para um stio daqueles  procura de descanso.
    Tambm no dissera que estava a visita a familiares, o que talvez quisesse
dizer que estava aqui por motivos profissionais. Contudo, nem isso fazia muito
sentido. Para alm da pesca e do turismo, poucas mais actividades havia em
Rodanthe; com excepo das lojas que satisfaziam as necessidades dos habit-
antes da terra, a maioria dos negociantes fechava as portas durante o Inverno.
   Continuava  procura de uma explicao quando lhe sentiu os passos na es-
cada das traseiras. Ficou a ouvi-lo bater os ps para deixar a areia fora de casa.
     A porta das traseiras foi aberta momentos depois e Paul entrou na cozinha.
Enquanto ficou a v-lo libertar-se do casaco, notou que ele tinha a ponta do nar-
iz vermelha.
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   -Acho que a tempestade j est prxima - informou. - Desde esta manh a'
temperatura desceu pelo menos dez graus.
    Adrienne ps uma caixa de biscoitos no armrio e olhou por cima do ombro,
para lhe responder.
    - Eu sei. Tive de ligar o aquecimento. Mas esta casa no  das que faz um uso
mais eficiente da energia. Na verdade, estou a sentir o vento que entra pelas frin-
chas das janelas.  pena que no esteja um tempo mais ameno.
    Paul esfregou os braos.
    - O tempo  assim mesmo. Ainda h por a caf? Acho que uma chvena
vinha a calhar para me aquecer
   -  provvel que j no esteja grande coisa. Vou pr a cafeteira ao lume.
Demora apenas uns minutos.
    - No se importa?
    - Nada. Talvez tambm beba uma chvena.
    - Obrigado. Vou s pr o casaco no quarto e lavar-me; deso logo a seguir.
    Brindou-a com um sorriso antes de sair da cozinha e Adrienne sentiu que ex-
pirava violentamente o ar, pois no se apercebera de que tinha sustido a respir-
ao. Durante a ausncia dele, moeu uma mo-cheia de gros, mudou o filtro e
comeou a fazer o caf. Pegou no bule de prata, despejou o contedo pelo cano
do lava-loua e lavou tudo. Enquanto trabalhava, nunca deixou de o ouvir a
mexer-se no andar de cima.
    Embora soubesse com antecedncia que Paul ia ser o nico hspede durante
o fim-de-semana, no se tinha apercebido de quanto parecia estranho estar
naquela casa com ele. Ou sozinha, ponto final.  certo que os midos tinham as
suas actividades prprias, que ela tinha alguns momentos livres de vez em
quando, mas nunca por muito tempo, pois eles podiam aparecer a qualquer mo-
mento. Alm disso, eram da famlia. No era bem a mesma situao em que se
via naquele momento, nem conseguia escapar  sensao de que estava a viver a
vida de uma outra pessoa, uma vida cujas normas no dominava inteiramente.
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    Serviu-se de uma chvena de caf e despejou o restante no bule de prata.
Estava a levar a bandeja com o bule para a sala quando o ouviu a descer a
escada.
    - Mesmo na hora - exclamou. - O caf est pronto. Quer que acenda a
lareira?
    Chegou-lhe o cheiro da gua-de-colnia logo que ele entrou na sala. Encheu-
lhe a chvena.
     - No, no  necessrio. Sinto-me confortvel. Talvez mais tarde. Ela assen-
tiu e deu um ligeiro passo atrs. - Bem, se precisar de alguma coisa, eu estarei na
cozinha.
   - Pensei ouvi-la dizer que tambm lhe apetecia uma chvena. -j me servi.
Deixei-a em cima da bancada. Paul levantou os olhos para ela.
    - No me faz companhia?
    Havia um certo ar de expectativa na forma como fez a pergunta, como se
efectivamente quisesse que ela ficasse.
    Adrienne hesitou. Jean era especialista em conversas de salo com estran-
hos, mas ela nunca o fora. No entanto, sentiu-se lisonjeada pela oferta, embora
sem saber bem porqu.
    - Acho que sim - acabou por dizer. - S tenho de ir buscar a minha chvena.
    Quando ela regressou, Paul estava sentado numa das cadeiras de balouo,
junto da lareira. Com fotografias a preto e branco penduradas na parede, re-
tratando cenas da vida nos Outer Banks na dcada de 1920, mais uma prateleira
comprida cheia de livros muito usados, esta sempre fora a sua sala preferida
naquela casa.Sa parede do lado do oceano havia duas janelas. Junto da lareira
tinham colocado uma pequena pilha de lenha e tambm uma cesta de aparas de
madeira, um ambiente propcio a um confortvel sero em famlia.
    Paul tinha pousado a chvena em cima de uma perna, fazia a cadeira
balouar e olhava o horizonte. O vento fazia revolutear a areia e o nevoeiro es-
tava a aproximar-se, dando ao ambiente exterior uma atmosfera de crepsculo.
Adrienne sentou-se na outra cadeira e, por momentos, ficou a olhar a cena em
silncio, tentando no se mostrar nervosa.
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    Paul voltou-se para ela.
    - Pensa que a tempestade de amanh vai levar-nos pelo ar? - perguntou.
    Adrienne passou a mo pelo cabelo.
    - Duvido. Esta casa est aqui h sessenta anos e ainda no foi levada.
   -j aqui esteve durante um borrasca vinda de nordeste? Uma das grandes,
como esta de que estamos  espera?
   - No. Mas j aconteceu  Jean, pelo que no deve ser assim to mau. Con-
tudo, h que diz-lo, ela  de c, deve estar habituada.
    Enquanto ouvia a resposta, Paul deu consigo a avali-la. Mais nova uns anos
do que ele, cabelo castanho-claro cortado um pouco acima dos ombros e ligeira-
mente encaracolado. No era magra, mas tambm no era pesada; para ele, era
uma mulher atraente, segundo uma perspectiva que punha de parte os padres
irrealistas da televiso e das revistas. Tinha uma ligeira bossa no nariz, ps-de-
galinha  volta dos olhos e, quanto  pele, atingira aquele estdio intermdio
entre a juventude e a velhice, antes de a fora da gravidade comear a exigir o
seu tributo.
    - Disse que ela  sua amiga? .
    - Conhecemo-nos na universidade, h muitos anos. Jean foi uma das minhas
colegas de quarto e nunca perdemos o contacto. Esta casa pertenceu aos avs
dela, mas os pais converteram-na numa estalagem. Depois de combinar a sua
vinda, pediu-me que a substitusse por ter de assistir a um casamento, fora da
cidade.
    - Mas no vive aqui?
    - No, vivo em Rocky Mount. J alguma vez l esteve?
    - Muitas vezes. Quando ia a Greenville, costumava passar por l.
    Ao ouvir esta resposta, Adrienne ficou novamente a magicar no significado
do endereo registado no formulrio de admisso. Bebeu um gole de caf e pou-
sou a chvena no regao.
    - Sei que no tenho nada com isso - comeou -, mas posso perguntar-lhe o
que veio aqui fazer? S responde se quiser. Simples curiosidade minha.
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   Paul mudou um pouco de posio.
   - Vim c para falar com uma pessoa.
   - Uma longa viagem, s para ter uma conversa.
   - No tinha muito por onde escolher. Ele quer falar comigo em pessoa.
    A voz dele soava dura e longnqua, por momentos pareceu perdido nos seus
prprios pensamentos. No silncio que se seguiu, Adrienne at conseguia ouvir o
tremular da bandeira iada no mastro da frente.
   Passados uns instantes, Paul pousou a chvena na mesa que estava entre
ambos.
    - O que  que faz? - acabou por perguntar, com voz a voltar ao normal. - Para
alm de tomar conta de estalagens pertencentes a amigas?
   - Trabalho na biblioteca pblica.
   - Ah sim?
   - Parece surpreendido.
   - Acho que estou. Esperava ouvir uma resposta muito diferente. - Tal como?
   - Para falar com franqueza, no sei muito bem. Mas essa no.
   No me parece suficientemente idosa para uma bibliotecria. Onde
   eu vivo, esto todas na casa dos sessenta.
   Ela sorriu.
   - No  um trabalho com horrio completo. Tenho trs filhos,
   o que me obriga a ter outra profisso: a de me.
   - Que idades tm os seus filhos? - Dezoito, dezassete e quinze. - Do-lhe
muito trabalho?
    - No, na verdade no do. Desde que me levante s cinco da manh e no v
para a cama antes da meia-noite, no  assim to mau.
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    Ele riu-se  socapa e Adrienne sentiu que tambm comeava a sentir-se mais
descontrada.
    - E voc? Tem filhos?
    - S um. Um rapaz - respondeu, baixando os olhos por momentos, para logo
continuar. -  mdico, est no Equador.
    - Vive l?
    - Para j, vive. Ofereceu-se como voluntrio para trabalhar uns anos numa
clnica perto de Esmeraldas.
    - Deve ter orgulho nele.
    - Pois tenho. - Fez uma pausa. - No entanto, para ser franco, acho que ele de-
ve ter recebido esses sentimentos da minha mulher. Ou melhor, da minha ex-
mulher. Foi educado mais por ela do que por mim.
    Adrienne sorriu.
    -  agradvel ouvir isso. - O qu?
    - Que ainda aprecia as boas qualidades da sua ex-mulher. Isto , mesmo de-
pois de divorciados. Depois de se terem separado, no  vulgar que as pessoas
faam apreciaes desse gnero. Habitualmente, ao falarem dos antigos cn-
juges, as pessoas lembram-se do que correu mal ou dos erros que o outro
cometeu.
    Paul ficou a pensar se ela estaria a falar por experincia prpria; pareceu-lhe
que sim.
    - Fale-me dos seus midos, Adrienne. O que  que gostam de fazer?
    Adrienne bebeu um gole de caf, pensando como lhe parecia estranho ouvi-
lo pronunciar o seu nome.
    - Os meus midos? Ora bem, vejamos... Matt comeou por ser o trs-quartos
da equipa de futebol e agora joga como defesa na equipa de basquetebol.
Amanda adora teatro, acaba de conseguir o papel principal de Maria, de West
Side Story. Quanto ao Dan... bem, de momento, Dan tambm est a jogar bas-
quetebol, mas no prximo ano encara a possibilidade de mudar para a luta. O
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treinador tem andado a pedir-lhe isso desde que o observou nos desportos de
campo no Vero passado.
   Paul arregalou os olhos.
   - Impressionante.
   - O que  que eu hei-de dizer?  tudo obra da me deles - zombou Adrienne.
   - Por que ser que isso no me surpreende? Ela sorriu.
    - Como  bvio, esse  apenas o lado bom. Se lhe falasse das sas mudanas
bruscas de humor e de atitudes, ou lhe descrevesse a trapalhada que vai nos
quartos deles, talvez acabasse por pensar que eu estava a fazer um pssimo tra-
balho na educao dos meus filhos.
   Paul sorriu.
   - Duvido. Pensaria apenas que estava a educar adolescentes.
   - Por outras palavras, est a dizer que o seu filho, o mdico consciencioso,
tambm passou por estas fases e que, tambm eu, no devo perder a esperana?
   - Acho que tambm passou por isso.
   - Mas no tem a certeza, pois no?
    - Realmente no tenho. No o acompanhei tanto quanto devia. Tive um per-
odo na minha vida em que tinha por hbito trabalhar demasiado.
    Via-se que aquilo lhe custava a admitir e bem gostaria de saber a razo que o
levava a falar do assunto. Antes que pudesse ponderar devidamente a questo, o
telefone tocou, fazendo que ambos voltassem as cabeas.
   - Com licena - disse ela, ao levantar-se. - Tenho de atender esta chamada.
    Paul ficou a v-la afastar-se, voltando a notar que era uma mulher atraente.
A despeito do caminho que a sua prtica mdica tinha tomado nos anos mais re-
centes, sempre se interessara menos pela aparncia do que pelas qualidades que
no esto  vista: simpatia e integridade, humor e sensibilidade. Estava certo de
que Adrienne possua todas essas qualidades, mas ficara com a sensao de que
elas no tinham sido devidamente apreciadas durante muito tempo, talvez nem
por ela prpria.
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    Percebeu que ela se sentia nervosa da primeira vez que se sentou junto dele e
viu nisso um pormenor extremamente afectuoso. Era muito frequente, especial-
mente no seu tipo de trabalho, que as pessoas tentassem impressionar as outras,
que se assegurassem de que estavam a dizer o que deviam, alardeando tudo o
que faziam. Outras, pelo contrrio, falavam sem cessar, viam a conversa como
uma via de sentido nico e nada era mais aborrecido do que aturar esses enfatu-
ados. Nenhuma daquelas descries parecia aplicar-se a Adrienne.
    E tinha de admitir que era agradvel poder falar com algum que no o con-
hecia. Durante os meses mais recentes, tinha alternado entre o isolamento e a
fuga s perguntas sobre o modo como estava a sentir-se. Alguns colegas, por
mais de uma vez, recomendaram-lhe um bom psicoterapeuta e confidenciaram-
lhe que a pessoa em questo os tinha ajudado. Paul cansara-se de explicar que
sabia o que estava a fazer e que no tinha dvidas sobre a sua deciso. E estava
ainda mais cansado de reparar nos olhares de preocupao com que os colegas o
presenteavam ao ouvirem as explicaes que ele lhes dava.
    Mas havia qualquer coisa em Adrienne que o fazia sentir que esta mulher
seria capaz de compreender a situao em que ele se encontrava. No con-
seguiria explicar a razo que o levava a pensar assim, nem isso interessava.
Fosse como fosse, tinha a certeza de estar a pensar acertadamente.
SETE

    Uns minutos depois, Paul colocou a chvena vazia na bandeja e levou-a para
a cozinha.
    Quando chegou  cozinha, Adrienne estava de costas e continuava a falar ao
telefone. Estava encostada  bancada, com uma perna cruzada por cima da
outra, a retorcer uma mecha de cabelos entre os dedos. Pelo tom de voz, perce-
beu que estava a acabar e colocou a bandeja em cima da bancada.
    - Sim, li o teu bilhete... pois... sim, j chegou... - Fez uma longa pausa, para
ouvir, e depois voltou a falar, em voz ligeiramente mais baixa. - Tm dado a not-
cia durante todo o dia... Pelo que ouvi, deve ser das grandes... Oh, est bem... de-
baixo da casa?... Sim, acho que serei capaz de fazer isso. Quer dizer, depende da
violncia que atingir, no ?... no tens de qu... Diverte-te no casamento...
adeus.
    Paul estava a pr a chvena no lava-loua quando ela se voltou. - No precis-
ava de se dar  maada de fazer isso.
    - Eu sei, mas como tinha de vir para estes lados... Quis ver o que tnhamos
para jantar.
    - Est a ficar com fome?
    Ele abriu a torneira.
     - Tenho alguma. Mas posso esperar at que lhe d jeito. - No, tambm estou
a ficar com fome.
    Depois, vendo o que ele se preparava para fazer, exclamou: - No, deixe-me
fazer isso. Quem  que  o hspede?
    Paul desviou-se para o lado, permitindo que A(irienne se )uniasse a ele em
frente do lava-loua. Ela foi falando enquanto lavava as chvenas e o bule.
    - A ementa desta noite permite-lhe escolher entre frango, bife ou massa com
molho de natas. Posso fazer o que lhe agradar mais, mas  melhor que pense que
o que no comer hoje ter provavelmente de comer amanh. No posso garantir
que encontremos qualquer loja aberta durante este fim-de-semana.
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    - Qualquer dos pratos serve. A escolha  sua.
    - Frango? J est descongelado.
    - Com certeza.
    - E estava a pensar num acompanhamento de batatas e ervilhas.
    - Parece-me ptimo.
    - Adrienne secou as mos numa toalha de papel e pegou num avental que es-
tava pendurado num dos interruptores do fogo. Vestindo-o por cima da cam-
isola, continuou.
    - Tambm lhe agrada uma salada?
    - Se tambm quiser. Se no quiser, tambm no me faz diferena.
    Ela sorriu.
    - Caramba, no estava a brincar quando me disse que no era exigente.
   - O meu lema  o seguinte: desde que no seja eu a cozinhar, como pratica-
mente de tudo.
    - No gosta da cozinhar?
   - Na realidade, nunca precisei de o fazer. Martha, a minha ex-mulher, estava
sempre a experimentar novas receitas. Depois que se foi embora, tenho comido
quase sempre em restaurantes.
    - Bem, no procure avaliar os meus cozinhados de acordo com os padres
dos restaurantes. Sei cozinhar, mas no sou uma chefe de cozinha. Regra geral,
os meus filhos mostram-se mais interessados na quantidade do que na
originalidade.
    - Tenho a certeza de que ser um ptimo jantar. No entanto, terei muito
gosto em lhe dar uma ajuda.
    Olhou para ele, surpreendida pela oferta.
    - S se quiser. Se preferir ir l para cima descansar, ou ler, eu aviso-o quando
estiver tudo pronto.
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    Paul abanou a cabea.
   - No trouxe nada para ler e se me deitasse agora, no conseguiria dormir
durante a noite.
    Adrienne hesitou, a ponderar se deveria aceitar a oferta, enquanto se dirigia
para a porta do outro lado da cozinha.
   - Bem... obrigada. Pode comear por descascar as batatas. Esto na des-
pensa, mesmo ali em frente, na segunda prateleira e ao lado do arroz.
    Paul dirigiu-se para a despensa. Enquanto abria o frigorfico para tirar o
frango, ficou a v-lo pelo canto do olho, a pensar que o facto de ele estar a ajud-
la nos trabalhos da cozinha era simptico, mas sem deixar de ser um pouco em-
baraoso. O gesto revelava uma familiaridade que a deixava ligeiramente
desconcertada.
    Ouviu a voz de Paul, vinda l de trs.
    - H alguma coisa que se beba? A, no frigorfico, pergunto eu?
     Adrienne teve de desviar algumas coisas, antes de poder procurar na prate-
leira inferior. Havia trs garrafas, mantidas no lugar por um frasco de picles.
    - Gosta de vinho?
    - De que tipo?
     Ela pousou o frango na bancada e puxou uma das garrafas. -  um Pinot Gri-
gio. Serve?
    - Nunca provei. Costumo beber um Chardonnay. Tem algum? - No.
    Paul atravessou a cozinha com as batatas na mo. Depois de as pousar em
cima da bancada, pegou na garrafa de vinho. Adrienne viu-o analisar o rtulo
antes de olhar para ela.
    - Parece-me bem. Como  que ser, se aqui diz que tem sabor a mas e a
laranjas? Sabe onde  que podemos encontrar um saca-rolhas?
    -j o vi numa destas gavetas. Deixe-me procurar.
    Abriu a gaveta por debaixo dos utenslios de cozinha, depois a seguinte, at
que finalmente o descobriu.
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    Ao entreg-lo, os dedos roaram pelos dele. Com uma srie de movimentos
rpidos, Paul tirou a rolha e p-la de lado. Os copos estavam pendurados por de-
baixo do armrio, perto do fogo. Tirou um e hesitou.
   - Importa-se de que arranje um copo para si?
     - Por que no? - respondeu Adrienne, ainda mal refeita da sensao de lhe
ter tocado os dedos.
    Ele encheu dois copos e passou-lhe um. Cheirou o vinho e bebeu um
pequeno gole, levando Adrienne a imit-lo. Ainda com o sabor do vinho nas
papilas gustativas, deu consigo a tentar perceber o significado de tudo o que es-
tava a acontecer.
   - O que  que acha? - perguntou ele. -  bom.
   - Tambm penso o mesmo.
   Fez o vinho rodar dentro do copo.
   -Na realidade,  melhor do que eu pensava. Tenho de me lembrar do nome.
   Adrienne sentiu um desejo sbito de recuar e deu um pequeno passo atrs.
   - Vou pr as coisas a mexer na cozinha.
   - Acho que esse  o sinal para eu comear a trabalhar.
    Achou a travessa dos assados por baixo do fogo. Paul pousou o copo na
bancada e foi para junto do lava-loua. Abriu a torneira, ensaboou as mos e
esfregou-as. Ela reparou que ele esfregou a frente e. as costas das mos, alm de
esfregar um dedo de cada vez.
   Ligou o fogo, ajustou a temperatura e sentiu o gs incendiar-se. - H por a
um descascador? - perguntou Paul.
    - No consegui encontrar nenhum; por isso, acho de ter de se servir de uma
faca. Faz-lhe diferena?
   Paul riu-se  socapa.
    - Acho que sou capaz de manejar uma coisa dessas. Sou cirurgio -
respondeu.
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    Logo que ele proferiu a palavra, tudo passou a fazer sentido: as rugas da
cara, a intensidade do olhar, a maneira de lavar as mos.
    Por que  que no se lembrara antes? Paul colocou-se ao seu lado e pegou
nas batatas, comeando a lav-las.
    - Exercia em Raleigh? - perguntou ela.
    - Costumava trabalhar l. Vendi a clnica no ms passado. - Reformou-se?
    - De certo modo. Efectivamente, estou de viagem para o Equador para me
juntar ao meu filho.
    - No Equador?
   - Se ele tivesse pedido a minha opinio, ter-lhe-ia recomendado o Sul de
Frana, mas duvido de que ele me ouvisse.
    Ela sorriu.
    - Eles alguma vez o fazem?
    - No. Mas, devo confessar, eu tambm no dei ouvidos ao meu pai. Tudo
isso faz parte do processo de crescimento, penso eu.
     Por momentos, nenhum deles falou. Adrienne acrescentou diversos tem-
peros ao frango. Paul iniciou a descasca das batatas, movendo as mos com
eficincia.
    - Percebi que Jean est preocupada com a tempestade - comentou.
    Ela olhou-o de relance.
    - Como  que sabe?
    - Pela maneira como atendeu o telefone. Calculei que estivesse a dar-lhe in-
strues sobre o que h a fazer para preparar a casa. -  muito esperto.
    - Vai ser difcil? Isto , prestarei toda a ajuda necessria, se vier a precisar
dela.
    - Tenha cuidado, ou posso aproveitar a oferta. O meu ex-marido  que era
bom com um martelo nas mos, eu no. Alis, falando francamente, ele tambm
no era l grande coisa.
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    - Sempre gostei de acreditar que  uma capacidade demasiado valorizada -
respondeu Paul. Colocou a primeira batata na mquina de cortar e pegou numa
outra. - Se me permite, gostaria de lhe fazer uma pergunta: h quanto tempo 
que est divorciada?
    Adrienne nem estava muito certa de querer falar no assunto mas, mesmo as-
sim, deu consigo a responder.
   - Dois anos. Mas ele saiu de casa um ano antes.
   - Os midos vivem consigo?
    - A maior parte do tempo. De momento, como esto no perodo de frias
escolares, foram visitar o pai. E o seu, foi h quanto tempo?
   - H apenas uns meses. Tudo acabou em Outubro do ano passado. Mas ela
tambm tinha sado de casa um ano antes. - Foi ela quem saiu?
   Paul assentiu.
    - Pois foi, mas a culpa foi mais minha do que dela. Como raramente tinha o
marido em casa, acabou por se fartar da situao. No lugar da Martha, acho que
teria procedido da mesma maneira.
    Adrienne ficou a cismar na resposta, pois o homem que estava ali a seu lado
no se parecia nada com a descrio que fazia de si prprio.
   - Qual era a sua especialidade na cirurgia?
    A resposta f-la levantar os olhos para ele. Paul continuou, como se quisesse
antecipar-se s perguntas.
    - Decidi-me por essa especialidade por gostar de pr a desco berto os res-
ultados do meu trabalho, sentindo, ademais, uma enorme satisfao por saber
que estava a ajudar as pessoas. De incio, tratava-se principalmente de trabalho
de reconstruo, consequncia de acidentes. Agora as pessoas vo ter com o
mdico para fazerem cirurgias plsticas. Nos ltimos seis meses corrigi mais
narizes do que alguma vez julgara possvel.
   - O que  que eu preciso de corrigir? - perguntou ela com ar brincalho.
   Ele abanou a cabea.
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   - Absolutamente nada. - A srio?
   - Estou a falar a srio. No alteraria coisa alguma. - De verdade?
   Levantou dois dedos. - Palavra de escuteiro.
   - Alguma vez foi escuteiro? - No.
   Adrienne riu-se, mas no deixou de sentir as faces enrubescerem.
   - Bom, tenho de lhe agradecer. - No tem de qu.
    Quando acabou de preparar o frango, Adrienne meteu-o no forno, marcou o
tempo e lavou novamente as mos. Paul passou as batatas por gua e deixou-as
perto do lava-loua.
   - E a seguir?
   - Os tomates e os pepinos para a salada esto no frigorfico.
    Paul passou por ela, abriu a porta e encontrou. Adrienne sentiu a gua-de-
colnia que ele usava a encher o pequeno espao que havia entre eles.
   - Como  que foi o seu crescimento em Rocky Mount? - perguntou ele.
    Comeou por nem saber o que havia de responder-lhe, mas passados
minutos tinha entrado num gnero de conversa despretensiosa que era simul-
taneamente familiar e agradvel. Contou histrias acerca do pai e da me, men-
cionou o cavalo que o pai lhe comprou quando fez doze anos, recordou as horas
que ambos tinham passado a tratar do animal e como isso lhe tinha ensinado
mais sobre a noo de responsabilidade do que qualquer outra tarefa de que se
tinha encarregado at ento. Descreveu os anos na universidade com gosto,
mencionou a forma como tinha conhecido o Jack, numa festa de confraterniza-
o quase no final do primeiro ano. Namoraram-se dois anos, pelo que, quando
se comprometeu no casamento, pensou que estava a tomar uma deciso para
toda a vida. A partir da, tornou-se menos segura, abanou ligeiramente a cabea
e mudou de assunto, para falar dos filhos e no ter de falar do divrcio.
     Paul deixou-a falar enquanto ia preparando a salada, que finalizou com os
quadradinhos de po que ela comprara antes, s fazendo perguntas de vez em
quando, para lhe lembrar de que ouvia com interesse o que ela estava a dizer-
lhe. A animao demonstrada quando falava do pai, e depois dos filhos, fizeram-
no sorrir.
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   Estava a anoitecer, as sombras comeavam a alongar-se pela cozinha.
Adrienne ps a mesa e Paul despejou um pouco mais de vinho nos dois copos.
Quando o jantar ficou pronto, tomaram lugar  mesa.
    Paul encarregou-se da maior parte da conversa no decorrer do jantar. Falou-
lhe da infncia na herdade, descreveu-lhe as dificuldades por que teve de passar
na faculdade, do tempo gasto a treinar corta-mato e falou-lhe de visitas anteri-
ores aos Outer Banks. Quando lhe falou do pai, Adrienne ainda pensou em
contar-lhe a doena do dela, mas recuou no ltimo momento. Jack e Martha fo-
ram referidos apenas de passagem. Durante a maior parte do tempo a conversa
ficou-se pela superfcie dos assuntos e, de momento, nenhum estava pronto para
aprofundar qualquer questo.
    Na altura em que acabaram o jantar, o vento tinha amainado, era agora
apenas uma brisa, e as nuvens tinham-se juntado, naquela calma que antecede a
tormenta. Paul trouxe os pratos para o lava-loua e Adrienne guardou os restos
no frigorfico. A garrafa de vinho estava vazia, a mar estava a encher e no hori-
zonte distante comearam a aparecer as primeiras manchas de luz dos relmpa-
gos, fazendo bilhar o mundo l de fora, como se algum andasse por ali a tirar
fotografias, na esperana cde vir a recordr aquela noite para sempre.
NOVE

    Apesar das venezianas fechadas e das cortinas corridas, que deveriam no
deixar entrar a luz da manh, Paul acordou ao nascer do dia de sexta-feira e pas-
sou os dez minutos seguintes a esticar-se para atenuar as dores que sentia por
todo o corpo.
    Abriu as venezianas para deixar entrar a luz da manh. Havia uma neblina
espessa por cima do oceano, o cu estava da cor do chumbo. Cmulos de nuvens
passavam apressados, rolando paralelos  linha de costa. A tempestade, calcu-
lou, deveria desabar sobre a zona ao cair da noite; mais provavelmente a meio da
tarde.
    Sentou-se na beira da cama para vestir o equipamento de corrida, a que
acrescentou um bluso. Tirou mais um par de pegas da gaveta da cmoda e
enfiou-as nas mos. Depois, desceu a escada com cuidado e olhou para todos os
lados. Adrienne ainda no estava levantada, o que lhe provocou uma certa
desiluso por no a ver, antes de pensar que, afinal, no tinha nada com isso.
Abriu a porta e instantes depois comeou a marchar pela areia, a aquecer para
iniciar uma corrida mais regular.
    Do seu quarto, Adrienne ouviu-o fazer ranger os degraus de madeira ao des-
cer a escada. Sentando-se na cama, afastou os cobertores e enfiou os ps nos
chinelos, lamentando-se por no ter ao menos uma chvena de caf pronta para
quando Paul acordasse. No tinha a certeza de que ele quisesse beber caf antes
da corrida, mas no se perdia nada se tivesse feito a oferta.
    L fora, os msculos e articulaes de Paul comearam a descontrair-se, o
que lhe permitiu aumentar a passada. Tinha um ritmo firme e.repousado, muito
longe da sua velocidade aos vinte ou trinta anos.
    Para ele, a corrida nunca fora apenas um exerccio fsico. Tinha atingido um
ponto em que correr j no tinha nada de difcil; oito quilmetros no pareciam
exigir-lhe mais energia do que a leitura do jornal. Em vez disso, via aquilo como
uma forma de meditao, como uma das poucas ocasies em que podia estar s.
    Estava uma manh maravilhosa para correr. Embora tivesse chovido dur-
ante a noite e ainda houvesse gotas de gua nos pra-brisas dos carros, o
aguaceiro devia ter passado rapidamente pela zona, pois muitas das estradas j
                                                                             47/121

estavam secas. Pequenas nuvens de neblina brilhavam  luz da manh,
movendo-se como fantasmas entre as casas. Gostaria de ter corrido ao longo da
praia, uma oportunidade de que nem sempre dispunha, mas decidira aproveitar
a corrida para descobrir onde ficava a casa de Robert Torrelson. Correu pela es-
trada, passou pelo centro da vila, voltou na primeira esquina, os olhos a registar-
em a paisagem.
    Na sua opinio, Rodanthe era exactamente o que parecia: uma velha aldeia
de pescadores encavalitada  beira-mar, um lugar onde a vida moderna tinha en-
trado com lentido. As casas eram todas de madeira, e embora houvesse algu-
mas que se destacavam pelo arranjo, com pequenos quintais bem tratados e
pequenas vedaes de terra onde nasceriam flores logo que chegasse a
Primavera, para qualquer lado que olhasse, eram bem evidentes as provas da
dureza da vida na costa. At algumas das casas que no teriam mais de uma
dzia de anos j apresentavam um aspecto decadente. As cercas e as caixas do
correio estavam corrodas pelo mau tempo, a pintura a pelar, os telhados de
chapa a mostrarem grandes manchas de ferrugem. Os quintais da frente das cas-
as estavam pejados de objectos de uso comum nesta parte do mundo: botes a re-
mos e motores velhos, redes de pesca usadas como decorao, cordas e correntes
para manter os estranhos  distncia.
    Algumas das casas eram meras barracas, cujas paredes pareciam em
equilbrio precrio, como se apenas estivessem  espera do prximo temporal
forte para se deixarem derrubar. Em alguns casos, o alpendre da frente estava
vergado e dava a impresso de que o dono da casa usara tudo o que tinha  mo
para evitar que desabasse totalmente: blocos de beto ou pilhas de tijolos, ou
barrotes que pareciam nascer do cho.
    Mas havia actividade neste lugar, mesmo de manh cedo, mesmo nas casas
que pareciam abandonadas. Enquanto corria, viu fumo a sair das chamins e
observou homens e mulheres que estavam a entaipar as janelas com chapas de
contraplacado. O som das marteladas enchia o ar.
   Virou no quarteiro seguinte, verificou o nome da rua e continuou a correr.
Minutos depois, virou para a rua onde vivia Robert Torrelson. Sabia que ele
morava no nmero 34.
    Passou pelo nmero 18, depois pelo 20 e levantou a cabea para olhar para o
fundo da rua. De olhar incrdulo, as pessoas interrompiam o trabalho para o
verem passar a correr. Passou pela casa de Robert Torrelson momentos depois,
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fazendo o possvel para no se tornar notado quando a observou pelo canto do
olho.
    A casa era semelhante  maioria das que havia naquela rua; no estava num
estado de manuteno impecvel, mas tambm no era uma barraca. Bem vistas
as coisas, ocupava uma posio intermdia, como se homem e natureza tivessem
chegado a um impasse na sua batalha pelo domnio da casa. Era uma habitao
de um s piso, com mais de cem anos de idade, com tecto de zinco; sem al-
gerozes, a pintura branca tinha sido manchada de cinzento pela gua de mil tem-
porais. No alpendre viam-se duas cadeiras de balouo desengonadas, inclinadas
uma para a outra,  volta das janelas havia uma linha simples de luzes de Natal.
    Olhando na direco das traseiras da propriedade, via-se um pequeno anexo
com as portas da frente abertas. L dentro havia duas bancadas cobertas de
redes e canas de pesca, bas e ferramentas. Havia dois croques encostados de
encontro  parede, podendo ainda ver-se um impermevel amarelo, pendurado
num cabide, logo a seguir  porta. Da sombra do interior emergiu um homem
que transportava um balde.
    O seu aparecimento apanhou Paul desprevenido e obrigou-o a voltar a
cabea, antes de o homem reparar que ele estava a olhar para a casa. Ainda era
demasiado cedo e tambm no queria fazer a visita com o fato de treino vestido.
Por conseguinte, Paul levantou o queixo para enfrentar a brisa, virou na esquina
seguinte e tentou voltar ao ritmo de passada anterior.
   No foi tarefa fcil. Foi perseguido pela imagem do homem, sentindo-se
mais pesado, cada passada mais difcil do que a anterior. Quando terminou,
apesar do frio, tinha o rosto coberto de uma camada fina de transpirao.
    Deixou de correr a algumas dezenas de metros da estalagem, fazendo o resto
do percurso a andar para arrefecer as pernas. Da estrada, viu que a luz da co-
zinha j estava acesa.
   Sorriu, por saber o que isso significava.
     Enquanto Paul estava ausente, os filhos de Adrienne tinham telefonado e
passara uns minutos a falar com cada um deles, satisfeita por saber que estavam
felizes na companhia do pai. Um pouco mais tarde,  hora da abertura, ligou
para a casa de repouso.
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     Embora o pai no estivesse em condies de atender o telefone, ela tinha ar-
ranjado as coisas de maneira a que Gail, uma das enfermeiras, respondesse por
ele, o que aconteceu logo ao segundo toque.
    - Mesmo na hora! - exclamou Gail. - Estava precisamente a dizer ao seu pai
que a chamada devia estar mesmo a chegar.
   - Como  que ele est hoje?
   - Um pouco cansado mas, tirando isso, est ptimo. Espere um momento
enquanto lhe chego o telefone ao ouvido, est bem?
    Uns segundos depois, ao ouvir a respirao ofegante do pai, Adrienne fechou
os olhos.
     - Ol, pap - comeou e, durante alguns minutos falou como se estivesse a
visit-lo, como falaria se estivesse l, junto dele. Falou-lhe da estalagem e da
praia, da tempestade e dos relmpagos e, mesmo sem mencionar o Paul, ficou a
pensar se o pai conseguiria notar aquele tremor na sua voz, o mesmo que ela
sentia quando mencionava o nome dele.
    Paul caminhou para os degraus da porta da frente e mal entrou chegou-lhe
ao nariz o cheiro do bacon frito, como que a dar-lhe as boas-vindas. Momentos
depois, Adrienne passou pela porta de vaivem.
    Vestia calas de ganga e uma camisola azul-clara, que lhe acentuava a cor
dos olhos. Vistos  luz da manh, pareciam quase turquesa, fazendo pensar nos
cus cristalinos da Primavera.
    - Levantou-se cedo - saudou ela, a prender atrs da orelha uma mecha solta
de cabelo.
   Achando aquele gesto estranhamente sensual, Paul limpou o suor da testa.
    - Pois foi, queria comear o que tenho a fazer durante o dia sem me preocu-
par com a corrida.
   - Correu tudo bem?
    - J tive dias melhores mas, de qualquer maneira, est feita. Transferiu o
peso do corpo de um p para o outro. - A propsito, cheira muito bem aqui para
estes lados.
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   - Comecei a fazer o pequeno-almoo enquanto esteve fora disse apontando
com a cabea para a mesa. - Quer comer j ou prefere esperar um pouco?
    - Se no se importa, prefiro tomar um duche antes de comer.
    - ptimo. De qualquer maneira, estava a pensar fazer papas de aveia, que
levam vinte minutos a cozer. Como  que quer os ovos?
    - Mexidos?
    - Acho que consigo fazer isso - respondeu, a apreciar a franqueza do olhar
dele e a tentar mant-la visvel por um instante mais. - Deixe-me ir tratar do ba-
con antes que se queime - acabou por dizer. - Vemo-nos dentro de minutos?
    - Claro.
    Depois de a ver seguir para a cozinha, Paul subiu a escada para o quarto, a
abanar a cabea e a pensar que bem que ela lhe tinha parecido. Despiu-se, pas-
sou a camiseta por gua e pendurou-a por cima do varo da cortina, antes de ab-
rir a torneira. Como Adrienne avisara, a gua quente levou algum tempo a
aparecer.
    Tomou duche, barbeou-se, vestiu umas Dockers e uma camisa, calou mo-
cassins e desceu para se juntar a ela. Adrienne tinha posto a mesa na cozinha e
estava a acomodar as duas ltimas travessas: uma com tostas e outra com fruta
cortada aos pedaos.
   Quando Paul passou por ela, veio-lhe ao nariz um odor suave a jasmim,
proveniente do champ que ela tinha utilizado de manh. -Espero que no se
importe que volte a acompanh-lo disse ela.
    Paul afastou uma cadeira para ela se sentar.
    - De maneira nenhuma. Do facto, esperava que o fizesse. Faa favor - con-
cluiu, fazendo o gesto de a convidar a sentar-se. Adrienne esperou que ele
puxasse a cadeira para ela, ficando  espera at ele se sentar tambm. - Tentei
surripiar um jornal disse -, mas a prateleira do supermercado j estava vazia
quando l cheguei.
   - No me surpreende. Logo pela manh havia muitas pessoas fora de casa.
Acho que est toda a gente a pensar como  que vai ser a tempestade de hoje.
                                                                           51/121

    - O tempo no me parece pior do que ontem. - Diz isso porque no vive aqui.
- Voc tambm no vive aqui.
    - No, mas j tive de suportar uma grande tempestade. Efetivamente, j lhe
contei o que se passou quando estava na universidade e fomos a Wilmington...
   Adrienne soltou uma gargalhada.
   - E jurou que nunca tinha contado essa histria.
   - Agora, quebrado o gelo, acho que me  mais fcil cont-la.
     a minha nica histria de jeito. Todas as outras so maadoras. - Duvido.
Pelo que me contou, estou a pensar que a sua vida foi tudo menos maadora.
    Sorriu, sem saber se aquilo era um elogio; satisfeito, mesmo assim. - O que 
que Jean disse que tinha de ser feito hoje? Adrienne serviu-se de ovos mexidos e
passou-lhe a travessa. -Bem, a moblia do alpendre tem de ser guardada no bar-
raco. As janelas tm de ser fechadas e os fechos interiores das venezianas tm
de ser corridos. A seguir,  preciso colocar as pro teces contra tufes. 
suposto que se encaixem numas calhas e h uns ganchos para as manter no
lugar; depois prendemo-las com ripas de madeira. As ripas de madeira devero
estar empilhadas juntamente com as proteces contra tufes.
   - Espero que haja uma escada.
   - Tambm est debaixo da casa.
    - No me parece assim to difcil. No entanto, como disse ontem, no me im-
porto de ajudar; ter  de ser para o fim da manh, depois de eu regressar.
   Adrienne olhou para ele.
   - Tem a certeza? Nada o obriga a fazer isso.
    - No tem importncia. De qualquer modo, no tenho mais nada planeado.
E, para lhe ser franco, seria impossvel manter-me sentado dentro de casa,
sabendo que voc estava l fora a fazer o trabalho todo. Mesmo sendo o hspede,
acabaria por sentir-me culpado.
   - Obrigada.
   - No tem de qu.
                                                                           52/121

    Acabaram de servir-se, encheram as chvenas de caf e comearam a comer.
Paul ficou a v-la momentaneamente absorvida na tarefa de barrar uma tosta
com manteiga.  luz cinzenta da manh, era bonita, ainda mais bonita do que
lhe parecera no dia anterior.
   - Vai falar com aquela pessoa que mencionou ontem?
   Paul assentiu.
   - Aps o pequeno-almoo - respondeu.
    - No me parece que a ideia lhe agrade muito. - No sei como avaliar a
situao.
   - Porqu?
    Aps uma ligeirssima hesitao, Paul falou-lhe de Jill e de Robert Torrel-
son: da operao, da autpsia e de tudo o que acontecera depois, incluindo o bil-
hete que tinha recebido pelo correio. Quando ele terminou, Adrienne pareceu
analisar a situao.
   - E no faz ideia nenhuma daquilo que ele quer?
   - Presumo que tenha a ver com o processo.
    Adrienne no estava assim to segura disso, mas no disse nada. Em vez
disso, pegou no bule do caf.
   - Bem, acontea o que acontecer, penso que est a agir correctamente. Tal
como est a fazer em relao ao Mark.
    Paul ficou calado, mas tambm no tinha necessidade de dizer o que quer
que fosse. O facto de ela ter compreendido era mais do que suficiente.
    Era tudo o que pretendia de momento e, embora a tivesse conhecido apenas
na vspera, sentia que de certa forma ela j o conhecia melhor do que a maioria
das pessoas.
   Ou, provavelmente, melhor do que ningum.
DEZ

    Depois do pequeno-almoo, Paul entrou no carro e pescou as chaves do
bolso do casaco. Adrienne acenou-lhe do alpendre, como a desejar-lhe boa sorte.
Instantes depois, a olhar por cima do ombro, Paul comeou a recuar para per-
correr a vereda e entrar na estrada.
    Em poucos minutos chegou  rua onde morava Torrelson; embora pudesse
ter vindo a p, no fazia ideia da rapidez com que o tempo podia piorar e no
queria ser apanhado pela chuva. Nem queria ficar encurralado em casa daquele
homem se a reunio desse para o torto. Mesmo sem saber o que o esperava,
tinha decidido contar-lhe tudo o que acontecera com a operao, mas no en-
traria em especulaes acerca da causa da morte de Jill Torrelson.
    Abrandou, arrumou de um lado da estrada e desligou o motor. Ficou sentado
por momentos e depois saiu do carro para percorrer o caminho particular at 
casa. O vizinho do lado estava em cima de uma escada a pregar uma placa de
contraplacado numa janela. Olhou Paul l de cima, tentando descobrir quem
seria. Paul ignorou-o, acercou-se da porta de Torrelson e bateu, recuando um
passo para ficar com espao de manobra.
    Como ningum apareceu, tornou a bater, mas desta vez ficou  escuta de
qualquer movimento no interior. Nada. Percorreu o alpendre. No viu ningum,
embora as portas do anexo continuassem abertas. Ainda pensou em chamar alto,
mas decidiu no o fazer. Tirou uma caneta e arrancou uma folha de um dos blo-
cos com que atafulhara a bolsa de mdico.
    Escreveu o nome e o endereo onde podia ser contactado, bem como uma
mensagem curta a dizer que, se Robert ainda tivesse interesse em lhe falar, es-
taria na cidade e s partiria na manh de tera-feira. Dobrou a folha e levou-a
at ao alpendre, metendo-a pela fresta da porta e tendo o cuidado de evitar que
voasse. J estava de regresso ao carro, simultaneamente desgostoso e aliviado,
quando ouviu uma voz atrs de si.
   - Deseja alguma coisa?
    Quando se virou, Paul no reconheceu o homem que estava de p junto da
casa. Apesar de no se lembrar do specto de Torrelson - um rosto no meio de
milhares - sabia que nunca tinha visto este homem. Era um jovem, de 30 anos,
                                                                          54/121

talvez um pouco mais, magro e de cabelo escuro ralo, vestido com uma camisa e
calas de trabalho. Encarava Paul com o mesmo ar de desconfiana que ele j
tinha notado no vizinho na altura da chegada.
   Paul pigarreou.
   - Sim - comeou. - Procuro Robert Torrelson.  aqui que ele mora?
     O homem aquiesceu, sem mudar de expresso. - , ele vive aqui.  o meu
pai. - Est em casa?
   - O senhor  do banco? Paul abanou a cabea.
   - No. Chamo-me Paul Flanner.
   O homem levou algum tempo a recordar-se do nome. Semicerrou os olhos.
   - O mdico? Paul assentiu.
   - O seu pai escreveu-me uma carta a dizer que queria falar comigo.
   - Para qu? - No sei.
   - Ele no me falou de carta nenhuma.
    medida que falava, os msculos do queixo comeavam a ficar tensos.
   - Pode dizer-lhe que estou aqui?
   O homem enfiou o polegar no cinto.
   - No est em casa.
   Disse aquilo ao mesmo tempo que relanceava o olhar na direco da casa, le-
vando Paul a duvidar de que ele estivesse a dizer a verdade.
    - Pode ao menos dizer-lhe que eu passei por c? Deixei-lhe um bilhete numa
frincha da porta a dizer onde me pode encontrar. - Ele no quer falar consigo.
   Paul olhou para baixo, acabando por levantar os olhos de novo.
   - Ele  que deve decidir isso, no acha?
    - Quem diabo  que voc se julga? Pensa que pode vir aqui para tentar safar-
se do que fez, com uma simples conversa? Como se tudo no passasse de um
                                                                         55/121

erro ou coisa parecida? - Paul ficou calado. Sentindo a hesitao do mdico, o
homem deu um passo na direco dele e continuou, levantando a voz. - Ponha-se
a andar daqui para fora! Nunca mais. ponha os ps aqui e o meu pai tambm no
o quer ver!
   - ptimo... muito bem...
   O homem pegou numa p e Paul levantou os braos, recuando. - Eu vou...
   Paul rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se para o carro.
   - E no volte - berrou o homem. - Acha que ainda no nos fez mal que
chegue? A minha me morreu por sua causa!
    Paul esquivou-se da torrente de palavras, acusou o toque e entrou no carro.
Ligou o motor e arrancou, sem olhar para trs.
    No viu que o vizinho tinha descido da escada para falar com o homem mais
novo; no viu que este tinha atirado com a p para longe. No reparou que, den-
tro de casa, algum tinha arredado a cortina da sala e voltara a fech-la.
    Nem viu que a porta da frente se abriu, nem a mo enrugada que apanhou o
bilhete cado no alpendre.
    Minutos depois, Adrienne estava a ouvir o relato que Paul lhe fazia dos
acontecimentos. Encontravam-se na cozinha e Paul falava encostado  bancada,
de braos cruzados e o olhar perdido num ponto para l da janela. Tinha uma ex-
presso vazia, ausente; pare cia muito mais cansado do que no incio da manh.
Quando terminou, a cara de Adrienne mostrava uma mistura de simpatia e de
preocupao.
   - Tentou, pelo menos.
   - Com excelentes resultados, no foi?
   - Talvez ele no soubesse nada acerca da carta do pai.
   Paul abanou a cabea.
    - No se trata apenas disso. Tudo vai entroncar na razo que me levou a vir
aqui. Pretendi saber se podia encontrar uma forma de resolver a questo ou,
pelo menos, torn-la +compreensvel, mas no vou ter essa oportunidade.
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    - Mas a culpa no  sua.
    - Ento, por que  me sinto culpado?
   No silncio que se seguiu, Adrienne at conseguiu ouvir os estalidos do
aquecimento.
    - Porque se preocupa. Porque mudou.
    - Nada mudou. Continuam a pensar que eu a matei - disse, respirando
fundo. - Consegue imaginar o que se sente quando algum pensa uma tal coisa
de ns?
    - No - admitiu ela. - No consigo. Nunca tive de lidar com uma situao
dessas.
    Paul aquiesceu; parecia exausto.
    Adrienne ficou na expectativa, a ver se a expresso dele mudava e quando
no mudou, deu consigo a caminhar na direco dele e a pegar-lhe na mo. Uma
mo hirta, que se descontraiu quando os dedos de Paul se entrecruzaram com os
dela.
     - Por muito que lhe custe aceitar isso, seja o que for que algum lhe possa
dizer - comeou Adrienne, cautelosamente -, tem de perceber que mesmo que
falasse com o pai desse rapaz esta manh, o mais provvel era que no con-
seguisse modificar a opinio do filho. O homem est a sofrer e para ele  mais f-
cil culpar algum, como o mdico, do que aceitar o facto de o tempo de vida da
me ter chegado ao fim. E, qualquer que seja a sua opinio sobre a forma como o
encontro decorreu, ir l foi uma deciso muito importante.
    - O que  que quer dizer com isso?
   - Ouviu o que o filho tinha a dizer. Mesmo que ele esteja errado, deu-lhe a
oportunidade de exprimir o que sente. Permitiu
    que ele tirasse aquele peso do peito e, afinal, provavelmente era a nica coisa
que o pai dele queria. Como sabe que o caso no vai chegar a julgamento, quis
que voc ouvisse pessoalmente a sua verso da histria. Para saber o que custa.
    Paul riu-se sem vontade.
    - Isso faz-me sentir muito melhor.
                                                                            57/121

    Adrienne apertou-lhe a mo.
    - O que  que esperava? Que ouvissem o que tinha para lhes dizer e que acei-
tassem tudo passados uns minutos? Depois de terem contratado um advogado e
prosseguido com o processo, mesmo sabendo que no tm hipteses de ganhar?
Depois de ouvirem o que os outros mdicos todos tinham para dizer? Queriam
que l fosse para ouvir, em pessoa, aquilo que eles tinham a dizer. No era o con-
trrio, no queriam ouvir mais explicaes. - Paul no disse palavra; porm, no
fundo, sabia que ela tinha razo. Porqu, ento, no tinha percebido antes? - Sei
que no lhe foi fcil ouvir - continuou Adrienne -, sei que eles esto equivocados
e que no  justo que lhe atribuam as culpas. Contudo, hoje deu-lhes algo im-
portante e, mais do que isso, fez aquilo que no era obrigado a fazer. Pode
orgulhar-se do seu gesto.
    - Nada do que aconteceu foi uma surpresa para si, pois no?
    - Nada, efectivamente.
    -Esta manh j sabia o que ia acontecer? Quando lhe falei acerca deles pela
primeira vez?
    - No tinha a certeza, mas pensei que a cena pudesse desenrolar-se dessa
forma.
    Um breve sorriso perpassou pelo rosto dele. - Voc  nica, sabia?
    - E isso  bom ou  mau?
   Paul fez mais presso na mo dela, a pensar que sentia prazer ao faz-lo.
Parecia-lhe um gesto natural, uma coisa que tivesse passado anos a fazer.
    -  uma grande qualidade - afirmou.
    Voltou a cara para ela, a sorrir com simpatia e, de sbito, Adrienne
apercebeu-se de que ele estava a pensar beij-la. Por muito que ela o desejasse, o
seu lado racional recordou-lhe abruptamente que era sexta-feira. Tinham-se
conhecido no dia anterior e ele no- tardava a ir-se embora. E ela tambm. Alm
do mais, no era a verdadeira Adrienne que estava ali, ou era? Esta no era a
verdadeira Adrienne, me e filha cheia de preocupaes, ou a esposa que tinha
sido trocada por outra mulher, ou a senhora que catalogava livros na biblioteca.
Neste fim-de-semana era algum diferente, algum que mal conhecia. O tempo
                                                                         58/121

passado na estalagem tinha parecido um sonho e, por muito agradveis que os
sonhos sejam, so apenas sonhos e nada mais.
     Deu um pequeno passo atrs. Vislumbrou o ar de desapontamento quando
lhe largou a mo, que desapareceu logo que ele voltou a cabea.
   Ela sorriu, a tentar no ser trada pela voz.
   - Continua disposto a ajudar-me a preparar a casa? Enquanto o tempo o
permite?
   Paul acenou que sim.
   - Claro. D-me uns minutos para mudar de roupa.
    -Tem tempo. De qualquer maneira, ainda tenho de dar um salto  loja.
Esqueci-me de comprar gelo e uma geleira, para poder manter alguma comida
fresca no caso de faltar a electricidade.
   - Est bem.
   Adrienne fez uma pausa.
   - Fica bem?
   - Fico ptimo.
    Ficou mais um pouco, como a dizer-lhe que acreditava nele, e saiu. No
havia dvidas, pensou, de que agira correctamente. Fizera bem em se afastar
dele, largar-lhe a mo fora uma deciso acertada.
     No entanto, ao sair por aquela porta, no conseguia deixar de sentir que
tinha voltado as costas  possibilidade de obter aquela dose de felicidade cuja
falta vinha a sentir desde h muitos anos.
    Paul estava no andar de cima quando ouviu o carro de Adrienne arrancar.
Voltando-se para a janela, ficou a olhar o rebentamento das ondas, ao mesmo
tempo que tentava compreender o que tinha acabado de acontecer. Uns minutos
antes, quando olhara para Adrienne, sentira um frmito muito especial, que de-
sapareceu com a mesma rapidez com que tinha aparecido; a expresso que vira
na cara dela explicou-lhe porqu.
                                                                           59/121

    Compreendia as reservas de Adrienne. Afinal, todos viviam num mundo
definido por certas normas, que nem sempre admitem a espontaneidade, ou as
tentativas repentinas de vivermos o momento que passa. Sabia que eram essas
mesmas normas que permitiam a prevalncia de uma certa ordem na vida de
cada pessoa, apesar de, nos ltimos meses, as suas aces terem representado
tentativas de desafiar os limites, de rejeitar a prpria ordem que tinha adoptado
durante tanto tempo.
    No era justo esperar que ela agisse da mesma maneira. Estava numa
posio diferente; tinha responsabilidades e, como tornara bem claro na noite
anterior, essas responsabilidades requeriam estabilidade e ausncia de surpres-
as. Ele prprio tambm tinha sido assim e embora agora estivesse em condies
de viver de acordo com normas diferentes, a Adrienne, percebia-o agora, no
estava.
   No entanto, algo tinha mudado no curto espao de tempo em que ele per-
manecera ali.
     No sabia exactamente o momento em que tinha acontecido. Poderia ter
sido no dia anterior, quando caminhavam pela praia, ou da primeira vez em que
ela lhe falou do pai, ou at naquela manh quando tinham tomado o pequeno-al-
moo juntos,  luz fraca da lmpada da cozinha. Ou talvez tivesse acontecido
quando deu por ele a segurar-lhe na mo, no desejando mais nada que no
fosse que os seus lbios aflorassem os dela.
    Tambm no interessava. S tinha a certeza de comear a estar apaixonado
por uma mulher chamada Adrienne, que se tinha encarregado de tomar conta da
estalagem de uma amiga, numa pequena cidade da Carolina do Norte.
ONZE

    Robert Torrelson estava na sala, sentado  sua velha secretria de tampo de
correr, a ouvir o filho a entaipar as janelas das traseiras da casa. Tinha na mo o
bilhete deixado por Paul Flanner, que dobrava e desdobrava com ar ausente,
ainda admirado com a vinda do mdico.
     No esperara que viesse. Apesar de ter escrito a carta, sempre julgara que
Paul Flanner o deixaria sem resposta. Flanner era um mdico proeminente da
cidade, representado por advogados que usavam gravatas de marca e cintos da
moda, nenhum dos quais, passado um ano, revelara qualquer considerao em
relao a ele ou  sua famlia. Os ricaos da cidade eram assim mesmo; quanto a
si, sentia-se feliz por nunca ter sido obrigado a viver junto de pessoas que gan-
ham a vida a prejudicar os outros e se sentem mal se a temperatura do local de
trabalho no for exactamente de 22C. Tambm no gostava de lidar com pess-
oas que, por terem melhores habilitaes, serem mais ricas ou donas de uma
casa maior, se julgavam superiores a outras. Quando o tinha conhecido, aps a
operao, ficara com a ideia de que Paul Flanner era um indivduo desse gnero.
Mostrou-se rgido e distante; embora tivesse dado explicaes, a forma seca
como proferiu as palavras tinha deixado Robert com a sensao de que aquele
homem no perderia um minuto de sono por causa do que tinha acontecido.
    O que no era justo.
    A vida de Robert tinha sido pautada por valores diferentes, valores que tin-
ham sido honrados pelo av e pelo bisav e, antes, pelos avs dos avs. Sabia
que a sua famlia se estabelecera nos vuter isanxs navia quase duzentos anos e
conhecia a respectiva genealogia. Os Torrelson tinham pescado nas guas de
Pamlico Sound gerao aps gerao, desde os tempos em o que peixe era to
abundante que bastava um lanamento da rede para o pescador conseguir ench-
er o barco. No entanto, a situao tinha mudado. Agora havia as quotas, os regu-
lamentos e as grandes empresas, toda a gente em busca de peixe, que cada vez
aparecia em menor quantidade. Nos tempos actuais, Robert considerava-se feliz
se, em metade das vezes em que se metia no barco, conseguisse pescar o sufi-
ciente para pagar o combustvel necessrio.
    Robert Torrelson tinha 67 anos, mas parecia dez anos mais velho. O rosto
mostrava as marcas das intempries, o corpo estava lentamente a perder a
batalha contra o tempo. Tinha uma grande cicatriz que ia do olho esquerdo at 
                                                                            61/121

orelha. A artrite provocava-lhe dores nas mos, o dedo anelar da mo direita
faltava-lhe desde o dia em que ficara preso no guincho que puxava a rede.
   Mas Jill no se importava com nenhuma dessas coisas. E agora, Jill estava
morta.
    Havia uma fotografia da mulher em cima da secretria e Robert continuava a
olhar para ela sempre que se encontrava sozinho na sala. Tinha saudades de
tudo o que lhe dizia respeito; sentia a falta das mos da mulher, que lhe es-
fregavam os ombros quando chegava a casa nas tardes frias, sentia falta das
ocasies em que ficavam juntos no alpendre das traseiras, a ouvir msica no r-
dio, sentia a falta do cheiro do peito da mulher depois de ela o empoar, um odor
simples, a lavado, fresco como o de um recm-nascido.
    Paul Flanner tinha-lhe roubado tudo. Sabia que Jill ainda estaria ali a fazer-
lhe companhia, se no tivesse ido para o hospital naquele dia.
    O filho tivera uma oportunidade. Agora, chegara a sua vez de agir.
    Adrienne arrumou o carro no parque de gravilha do supermercado, aps a
curta viagem desde a estalagem, deixando escapar um suspiro de alvio ao ver
que o estabelecimento ainda estava aberto.
     Havia inaii-trs carros arrumados ao acaso, cada um revestido de uma fina
camada de sal.  porta, estavam dois homens idosos, com bons de basebol, a
fumar e a beberem caf. Ficaram a observar Adrienne a sair do carro e calaram-
se, inclinando a cabea num cumprimento quando ela passou por eles a caminho
da loja.
    O supermercado era um estabelecimento tpico das zonas rurais; um soalho
de madeira j gasto, ventoinhas suspensas do tecto, prateleiras com milhares de
artigos apertados uns nos outros. Perto da caixa registadora havia uma pequena
barrica com picles de pepino para venda; a seguir, ouga com amendoins torra-
dos. No fundo, via-se um grelhador de pequenas dimenses, que vendia ham-
brgueres acabados de fazer e sanduches de peixe; embora no se visse nin-
gum atrs do balco, o odor dos fritos enchia o ar.
    A mquina do gelo estava no canto mais afastado da entrada, ao lado das ge-
ladeiras com garrafas de cervejas e refrigerantes. Foi para l que Adrienne se di-
rigiu. Ao pegar no puxador para abrir a geladeira deu de cara com a sua imagem
                                                                            62/121

reflectida no brilho da porta. Parou um instante, como se estivesse a ver-se com
olhos diferentes.
    Quando tempo teria passado, perguntou a si mesma, desde a ltima vez em
que algum a achara atraente? Ou que algum acabado de conhecer a tentara
beijar? Se as perguntas lhe tivessem sido feitas antes de vir tomar conta da es-
talagem, teria respondido que nada disso acontecera desde o dia em que Jack
tinha sado de casa. O que no era exactamente verdade, pois no? De qualquer
modo, a situao agora era diferente. Jack tinha sido o seu marido, no era nen-
hum estranho e, contando os dois anos que durara o namoro, tinham passado
quase vinte e cinco anos desde a ltima vez que passara por uma situao
semelhante.
     certo que, se Jack no a tivesse deixado, viveria perfeitamente, sem pensar
duas vezes no assunto; contudo, aqui e agora, considerava que tal j no era pos-
svel. Tinha passado mais de metade da sua vida sem despertar o interesse de
um homem atraente e, por muito que quisesse convencer-se de que as razes
para lhes voltar as costas tinham sido produto do bom senso, tambm no podia
deixar de pensar que uma falta de prtica de vinte e trs anos no deixava de ter
a sua importncia.
    No podia negar o seu interesse pelo Paul. No s por ele ser bonito e in-
teressante, ou at fascinante  sua maneira. No se tratava apenas do facto de ele
a ter achado desejvel. No, o que achava mais interessante era o desejo dele de
mudar, de ser uma pessoa melhor do que fora at ento. Tinha conhecido pess-
oas como ele, pois era frequente que mdicos e advogados fossem viciados no
trabalho, mas ainda no tinha encontrado ningum que no s tomara a deciso
de alterar as normas que governavam a sua vida, como tambm o fizera de uma
forma que deixaria aterrorizada a maioria das pessoas.
    Havia, sem sombra de dvida, algo de nobre em tudo aquilo. Ele queria re-
mediar os defeitos que reconhecia em si prprio, queria construir uma relao
com o filho de que estava afastado, tinha vindo quela terra porque um estranho,
que lhe exigia uma reparao, lhe escreveu um bilhete a pedir que viesse.
    Que tipos de pessoas  que fazem coisas destas? Que tipo de fora  preciso
possuir? Ou quanta coragem? Mais do que a que tinha, pensou. Mais do que a de
qualquer pessoa das suas relaes; alm de que, por mais que desejasse neg-lo,
estava-lhe grata por ele a ter achado interessante.
                                                                          63/121

    Enquanto reflectia nestas questes, pegou nos dois ltimos sacos de gelo e
numa geladeira, dirigindo de seguida para a caixa. Depois de pagar, saiu e cam-
inhou para o carro. Quando saiu, um dos idosos ainda estava sentado no alpen-
dre e cumprimentou-o ao passar; a expresso de Adrienne era a de algum que,
num mesmo dia, tivesse assistido a um casamento e a um funeral.
     Enquanto ela esteve ausente, o cu tinha-se tornado mais escuro e o vento
dificultou-lhe a sada do carro. O vento tinha comeado a uivar  medida que ro-
dopiava  volta da estalagem, um som fantasmagrico, como de uma flauta es-
pectral que tocava uma s nota. As nuvens corriam e juntavam-se, mudando de
forma ao passarem. O oceano era um campo de pontos brancos, as ondas batiam
com fora, tendo j ultrapassado as marcas da mar alta do dia anterior.
    Quando:^va a pegar nos sacos de gelo, viu Paul aparecer de detrs do
porto.
   - No me diga que comeou sem mim? - gritou.
   - No, nada disso. S estive a assegurar-me de que temos tudo o que 
necessrio.
   Apontou para os sacos.
   - Precisa de ajuda?
   Adrienne negou com a cabea.
   -j agarrei tudo. No  pesado.
    Dirigiu-se para a porta. - Mas vou comear pelo interior. Importa-se de que
entre no seu quarto para fechar as venezianas?
   - No, avance. No me importo nada.
    Depois de entrar, instalou a geleira perto do frigorfico, abriu os sacos do
gelo com a faca de cortar a carne e despejou-os na geleira. Pegou num pedao de
queijo, na fruta que tinha ficado do pequeno-almoo e no resto do frango da
noite anterior, empilhando tudo em cima do gelo, a pensar que, no sendo uma
refeio para apreciadores de boa mesa, serviria perfeitamente se no houvesse
mais nada disponvel. E vendo que ainda havia espao, conseguiu l meter uma
das duas garrafas de vinho, sentindo um frmito proibido com a ideia de mais
tarde a partilhar com o Paul.
                                                                               64/121

    A tentar afastar a ideia da cabea, passou os minutos seguintes a assegurar-
se de que todas as janelas estavam fechadas, a prender as persianas do piso
trreo pela parte de dentro. Subiu a escada, comeou por preparar os quartos
que estavam vagos, deixando para o fim o quarto onde ele tinha dormido.
    Abriu a porta e entrou, reparando que Paul tinha feito a cama. Os sacos de
viagem estavam dobrados junto da cmoda; as roupas que vestira pela manh j
tinham sido arrumadas, os mocassins estavam no cho, junto  parede, com as
biqueiras viradas para fora. Os seus filhos, pensou para si mesma, teriam muito
que aprender com aquele homem acerca das vantagens da manuteno dos re-
spectivos quartos bem arrumados.
    Fechou uma pequena janela da casa de banho e, ao faz-lo, espiou o creme e
o pincel da barba colocados junto da mquina de barbear. Tudo junto da bacia
do lavatrio, ao lado de um frasco de loo para depois da barba. Mesmo sem
querer, veio-lhe  mente a imagem dele naquela manh, de p em frente do lav-
atrio; e ao imagin-lo ali, o instinto dizia-lhe que Paul desejara poder t-la ali, a
seu lado.
    Abanou a cabea, sentindo-se como uma adolescente a espreitar para o
quarto dos pais, e dirigiu-se para a janela ao lado da cama. Enquanto estava a
fech-la, viu Paul transportar uma das cadeiras de balouo do alpendre para a
guardar debaixo da casa.
    Mexia-se como se fosse vinte anos mais novo. Jack no era assim. Com a
passagem dos anos e devido aos muitos coquetis, o ex-marido ficara mais
grosso na parte mdia do corpo e a barriga entrava em trepidao logo que ele
tentava qualquer tipo de actividade fsica.
    Mas Paul era diferente. Paul, tanto quanto ela sabia, era diferente de Jack
em todos os aspectos; e foi ali, no quarto dele, no primeiro andar, que Adrienne
notou pela primeira vez aquele sentimento de antecipao ansiosa, uma
sensao semelhante  que o jogador deve sentir quando espera ter sorte no
lanamento seguinte dos dados.
    Paul encontrava-se debaixo da casa, a preparar tudo.
    As proteces contra tufes eram de chapa ondulada de alumnio, de 0,75 m
de largo por 1,80 m de comprido, e cada uma tinha uma marca permanente que
indicava a janela da casa que teria de proteger. Paul comeou a tir-las da pilha e
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a p-las de lado, juntando-as por grupos, sempre a esboar mentalmente tudo o
que tinha de fazer.
    Estava a acabar quando Adrienne desceu. A trovoada ainda estava longe,
mas os troves pareciam ribombar logo acima do mar. Notou que a temperatura
tinha comeado a descer.
    - Como  que isso vai? - perguntou. Aquele tom de voz, pensou, no parecia
o seu, como se as palavras tivessem sido ditas por outra mulher.
   -  mais fcil do que tinha pensado - respondeu ele. - S tenho de procurar a
chapa reservada a cada uma das janelas, enfi-la nas calhas e colocar estes
grampos.
   - E quanto s ripas de madeira para as manter no lugar?
    - Tambm no  nada difcil. Os encaixes j l esto, de modo que s tenho
de colocar as ripas nos respectivos suportes e pregar dois pregos em cada uma.
Como a Jean disse,  trabalho para uma pessoa s.
   - Pensa que ainda dispomos de muito tempo?
   - Uma hora, talvez. Se preferir, pode esperar l dentro.
   - H alguma coisa que eu possa fazer?
   - Acho que no. Mesmo assim, se lhe agradar, pode fazer-me companhia.
   Adrienne sorriu, apreciando o tom convidativo da voz dele.
   - Acaba de arranjar uma companhia.
    Durante cerca de uma hora, Paul passou de uma janela a outra, colocando as
proteces no seu lugar, com ela a seu lado. Enquanto trabalhava, sentia que
Adrienne no tirava os olhos dele, fazendo-o sentir-se to desajeitado como se
tinha sentido pela manh quando ela lhe soltara a mo.
    Dentro de minutos comeou a cair uma chuva mida, que foi crescendo de
intensidade. Adrienne deslocou-se para mais perto da casa para no se molhar,
mas descobriu que no lhe servia de muito por causa dos redemoinhos do vento.
Paul no se apressou, mas tambm no abrandou o ritmo; a chuva e o vento
pareciam no o afectar.
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    Tapava uma janela e passava para a seguinte. Encaixar as placas, colocar os
ganchos, mudar a escada. Quando as janelas ficaram prontas e Paul comeou a
pregar as ripas, os relmpagos j estavam sobre a praia e chovia copiosamente. E
Paul continuava a trabalhar. Aplicava quatro marteladas em cada prego, com
regularidade, como se tivesse passado a vida a trabalhar em carpintaria.
    Conversavam, apesar da chuva; Adrienne reparou que ele mantinha uma
conversa ligeira, no dizendo nada que pudesse ter segundas interpretaes.
Falou-lhe de algumas das reparaes que ele e o pai costumavam fazer na her-
dade, referindo de passagem que talvez viesse a ter de fazer o mesmo no
Equador, que era bom sentir novamente o gosto por aquele gnero de coisas.
    Ao ouvi-lo falar disto e daquilo, Adrienne percebia que Paul estava a dar-lhe
o espao de que julgava que ela precisava, que julgava que ela pretendia. Porm,
ao observ-lo, descobriu subitamente que manter as distncias era uma coisa
com que deixara de preocupar-se.
     Tudo nele a fazia aspirar a qualquer coisa que nunca tinha conhecido: a
maneira como ele tornava fcil tudo o que fazia, o volume das ancas e das pernas
que sobressaam das calas de ganga quando subia a escada, aqueles olhos que
reflectiam sempre o que ele estava a pensar e a sentir. De p, a aguentar aquele
dilvio, sentiu a atraco da pessoa que ele era e apercebeu-se da pessoa que ela
prpria queria ser.
    Quando acabou, Paul tinha a camisola e o bluso encharcados e estava lvido
por causa do frio. Depois de arrumar a escada e as ferramentas por debaixo da
casa, juntou-se a Adrienne, no alpendre. Ela tinha passado a mo pelo cabelo,
afastando-o do rosto. As ondas suaves haviam desaparecido, o que tambm
acontecera a qualquer vestgio de maquilhagem. No seu lugar ficara uma beleza
natural e, a despeito do casaco grosso que ela vestia, Paul conseguia antever o
corpo feminino e quente que estava por baixo do _tecido.
    Foi ento, ainda eles estavam protegidos pelo telhado do alpendre, que a .
tempestade irrompeu com toda a sua fria. Um raio desceu aos ziguezagues,
produzindo um risco longo que uniu cu e mar, o trovo fez um estrondo que
parecia provocado pelo choque de dois carros na estrada. O vento soprou forte,
dobrando rvores e ramos numa nica direco. A chuva vinha de todas as dir-
eces, como se tentasse desafiar as leis da gravidade.
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    Deixaram-se ficar uns momentos a observar, sabendo que um minuto mais 
chuva no faria qualquer diferena. At que, finalmente, resistindo ao desejo de
verem o que poderia seguir-se, rodaram sobre os calcanhares e, sem dizerem
nada, meteram-se dentro de casa.
DOZE

    Molhados e transidos de frio, cada um foi para o seu quarto. Paul libertou-se
da roupa e abriu a torneira, esperando at ver o vapor de gua aparecer por de-
trs da cortina para saltar para dentro da banheira. Passaram alguns minutos
at que conseguisse sentir-se quente e, embora se demorasse mais tempo do que
era normal no duche e se vestisse com vagar, Adrienne ainda no tinha reapare-
cido quando ele desceu a escada.
    Com as janelas entaipadas, a casa estava escura e Paul acendeu a luz da sala,
antes de se dirigir  cozinha  procura de uma chvena de caf. A chuva mar-
telava furiosamente as placas de proteco contra tufes, fazendo vibrar a pr-
pria casa. O trovo ribombava, perto e longe simultaneamente, um som con-
stante como o de uma estao movimentada de caminho-de-ferro. Paul foi para
junto da lareira, pois, mesmo com a luz ligada, as janelas escurecidas davam 
sala um ar nocturno.
    Abriu o registo de tiragem e colocou trs cavacos, pondo-os de forma a per-
mitir que o ar circulasse entre eles, e juntou-lhes algumas aparas. Procurou a
caixa de fsforos e encontrou-a em cima da cornija da lareira. O cheiro a enxofre
encheu o ar quando acendeu o primeiro fsforo.
    As aparas estavam secas e acenderam com facilidade; logo de seguida, Paul
ouviu um som parecido com um amarrotar de papel, sinal de que os cavacos es-
tavam a comear a arder. Dentro de minutos a fogueira comeou a libertar calor
e Paul aproximou mais a cadeira de balouo, esticando os ps na direco do
lume.
    Sentia-se confortvel, pensou, mas no totalmente. Levantando-se da ca-
deira, atravessou a sala e apagou a luz. Sorriu. Melhor, pensou. Muito melhor.
                                      ***
    Fechada no quarto, Adrienne procurava ganhar tempo. Depois de terem
voltado a entrar em casa, resolvera seguir o conselho da Jean e comeou a ench-
er a banheira. Mesmo depois de ter aberto a torneira e saltado para dentro da
banheira, continuou a ouvir correr gua pelos canos, sinal de que, no andar de
cima, Paul continuava debaixo do chuveiro. Havia algo de sensual naquela con-
statao e sentiu-se percorrida por uma sensao agradvel.
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     Dois dias antes, nem imaginava que lhe pudesse acontecer uma coisa
daquelas. Nem conseguia imaginar-se a alimentar sentimentos daqueles acerca
de quem quer que fosse, muito menos acerca de algum que tinha acabado de
conhecer. A sua vida no permitia aquele tipo de fantasias, pelo menos naquela
altura. Era fcil pr as culpas nos midos, ou dizer a si mesma que as responsab-
ilidades familiares no lhe permitiam aqueles devaneios, mas essa era apenas
uma parte da verdade. A outra parte tinha mais a ver com a pessoa em que ela se
tornara aps o divrcio.
    Sim, sentira-se trada pelo Jack e detestara-o; qualquer pessoa podia perce-
ber isso. Porm, o facto de ser preterida a favor de outra tinha outras im-
plicaes que, por muito que tentasse esquecer, nem sempre conseguia pr para
trs das costas. Jack tinha-a rejeitado, tinha rejeitado a vida que haviam passado
juntos, um golpe arrasador para ela, no s como esposa e me mas tambm
como mulher. Mesmo que, segundo afirmara, apaixonar-se por Linda no fosse
parte de nenhum plano e tivesse acontecido por acaso, no podia admitir-se que
ele se tivesse limitado a cavalgar a onda sem tomar qualquer deciso consciente
durante todo o processo. No pde ter deixado de pensar no que estava a fazer,
teve de ter em conta todas as possibilidades, desde o momento em que comeou
a passar tempo na companhia da Linda. Por muito que ele tentasse minimizar o
que aconteceu, a rejeio equivaleu a dizer que Adrienne nem sequer era mere-
cedora do tempo e esforo necessrios para corrigir qualquer anomalia existente
na sua vida conjugal.
    Como  que deveria ter reagido a uma rejeio total como aquela? Para
quem estava de fora, era fcil dizer que a culpa no fora dela, que Jack estava a
passar pela crise da meia-idade; mas a situao tinha de deixar marcas na pessoa
que pensava que era. Especialmente como mulher. Era difcil sentir-se sensual
sem se sentir atraente, pelo que os trs anos seguintes, em que no teve qualquer
namoro, ainda concorreram mais para agudizar a sua sensao de incapacidade.
    E como  que lidara com esse sentimento? Tinha dedicado a vida aos filhos,
ao pai,  casa, ao emprego, s facturas a pagar. Consciente ou inconsciente-
mente, tinha posto de lado todas as actividades que lhe pudessem fornecer opor-
tunidades de pensar em si prpria. Acabaram as conversas telefnicas calmantes
com as amigas, os passeios e a sauna, at deixou de cuidar do jardim. Tudo o que
fazia tinha uma finalidade, e embora pensasse que assim mantinha a sua vida
em ordem, s agora percebia o erro que tinha cometido.
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     Afinal, no deu resultado. Mantinha-se activa desde que acordava at voltar
a deitar-se e, como negando a si mesma qualquer hiptese de recompensa, tam-
bm no tinha objectivos. A rotina diria no passava de uma sucesso de tare-
fas, em nmero suficiente para deixar qualquer pessoa esgotada. Ao desistir das
pequenas coisas que tornam a vida desejvel, tudo o que conseguira, percebia-o
agora, subitamente, fora esquecer-se da sua prpria pessoa.
    Suspeitava de que Paul j tinha percebido como ela era. E, de certa maneira,
o tempo que passara junto dele tinha permitido que tambm ela percebesse o
mesmo.
    Porm, este fim-de-semana no iria servir apenas para Adrienne reconhecer
os erros que havia cometido no passado. Teria reflexos no futuro e na sua
maneira de viver a partir daquele momento. O passado estava morto; no podia
fazer nada para o remediar, mas o futuro estava  sua merc e ela no queria
passar o resto da vida a alimentar sentimentos como os que tinha aguentado
durante os ltimos trs anos.
    Depilou as pernas e deixou-se ficar de molho durante mais alguns minutos,
o tempo suficiente para a espuma se desvanecer e a gua comear a arrefecer.
Limpou-se e, sabendo que Jean no se importaria, pegou no frasco de loo da
amiga. Aplicou algum lquido nas pernas e na barriga, encantada com a forma
como a pele parecia voltar  vida.
    Com a toalha enrolada  sua volta, dirigiu-se  mala de viagem. A fora do
hbito levou-a a pegar numa camisola e numas calas de ganga mas, depois de
vestida, ps esta roupa de lado. Se quero levar a srio a forma como vou viver,
pensou para si prpria, o melhor  comear desde j.
    No tinha trazido muito que vestir e muito menos roupa que se pudesse con-
siderar elegante, mas trouxera umas calas pretas e a blusa branca que Amanda
lhe oferecera pelo Natal. Tinha trazido as duas peas com a remota esperana de
que poderia sair uma vez  noite e, mesmo que hoje no fosse a qualquer lado,
pareceu-lhe que tinha uma excelente oportunidade de as usar.
    Secou e ondulou o cabelo com o secador. Depois a maquilhagem: mscara e
um pouco de cor, o batom comprado no Belk's uns meses antes, mas raramente
usado. Inclinando-se para o espelho, acrescentou um pouco de sombra nos ol-
hos, como costumava fazer durante os primeiros anos de casada.
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    Quando ficou pronta, enfiou a blusa nas calas at lhe ficar mesmo justa ao
corpo, sorrindo com o resultado. H muito tempo que no tinha um tal aspecto.
    Deixou o quarto e atravessou a cozinha, reparando no cheiro a caf. Normal-
mente, seria aquela a sua bebida num dia como aquele, especialmente por ainda
estar no incio da tarde; porm, em vez de se servir de uma chvena, pegou no
saca-rolhas e em dois copos, a sentir-se mundana, como se, finalmente, re-
solvesse assumir o controlo da situao.
    Ao levar as coisas para a sala, reparou que Paul j tinha a lareira acesa, o que
de certo modo alterara o ambiente, como a antecipar o estado de esprito de
Adrienne. O rosto dele brilhava com o reflexo das chamas e, embora se
mantivesse quieta, sabia que ele se apercebera da sua presena. Voltou-se para
dizer qualquer coisa, mas ao v-la no conseguiu articular uma s palavra.
Limitou-se a ficar a olhar para ela.
    - Fui longe de mais? - acabou Adrienne por perguntar.
   Paul negou com a cabea, sem nunca tirar os olhos dela. No... de forma al-
guma... Est... linda.
    Adrienne esboou um sorriso tmido.
     - Obrigada - disse, em voz suave, quase um sussurro, uma voz de h muito
tempo. Continuaram a olhar um para o outro, at que finalmente ela levantou
um pouco a garrafa. - No lhe apetece um copo de vinho? - perguntou. - Sei que
fez caf, mas, com a tempestade, pensei que isto seria mais agradvel.
    Paul pigarreou.
    - Uma ideia excelente. Quer rque abra a grafa?
   - Ser melhor, a menos que goste de beber vinho com pedaos de cortia.
Nunca consegui apanhar o jeito.
    Passou-lhe o saca-rolhas logo que ele se levantou da cadeira. Paul abriu a
garrafa com uma sucesso de movimentos rpidos e Adrienne segurou os dois
copos para ele os encher. A garrafa ficou em cima da mesa e ambos foram
sentar-se nas cadeiras de balouo, cada um com o seu copo. Ela no deixou de
notar que as cadeiras estavam mais juntas do que no dia anterior.
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    Adrienne bebeu um pequeno gole de vinho e descansou a mo no regao,
satisfeita com tudo: com o seu aspecto e com a maneira como se sentia, com o
gosto do vinho, com a prpria sala. A luz bruxuleante das chamas fazia que as
sombras danassem  volta deles. A chuva esmagava-se contra as paredes
exteriores.
   - Isto est encantador - observou ela. - Ainda bem que acendeu a lareira.
    No ar, que estava a ficar mais quente, Paul notou o odor ligeiro do perfume
que ela usava e mexeu-se na cadeira.
    - Continuava a ter frio, depois daquele trabalho no exterior - respondeu. -
Segundo parece, em cada ano que passa preciso de um pouco mais de tempo
para aquecer.
    -Mesmo com todo esse exerccio? E eu a pensar que voc estava a conseguir
conter os estragos da idade.
   Paul riu-se baixinho.
   - Bem gostaria.
   - Parece-me que est muito bem.
   - No me v logo pela manh.
   - Mas no  essa a hora que dedica  corrida?
    - No, antes disso. Ao sair da cama mal consigo mexer-me. Coxeio como um
velho. Tenho de pagar o preo de todas as corridas que tenho feito, durante mui-
tos anos.
    Ao balouarem as cadeiras para diante e para trs, Paul via a dana do re-
flexo das chama nos olhos dela.
   - J falou hoje com os seus filhos? - perguntou, tentando olhar para
Adrienne de forma menos evidente. Ela assentiu.
    - Telefonaram esta manh, enquanto esteve fora. Esto a preparar-se para
irem fazer esqui mas, antes, querem passar por casa. Vo passar este fim-de-se-
mana a Snowshoe, na Virgnia Ocidental. H meses que sonham com a viagem.
   - Parece que vo divertir-se.
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     -Com certeza, Jack  bom nesse tipo de coisas. Quando os filhos vo visit-
lo, tem sempre divertimentos programados, como se a vida no fosse mais do
que uma grande festa. - Adrienne fez uma pausa. - Est tudo certo. Ele tambm
sente a falta de inmeras coisas; no gostaria de trocar de lugar com ele. No se
pode fazer o tempo voltar para trs.
   - Eu sei - murmurou Paul. - Pode crer que sei. Ela esboou um sorriso.
   - Desculpe. No devia ter dito aquilo... Paul abanou a cabea.
    -No faz mal. Mesmo que voc no estivesse a referir-se a mim, reconheo
que perdi mais do que aquilo que posso recuperar. Contudo, de momento estou
a tentar remediar alguns aspectos. S espero que o esforo resulte.
   - Vai resultar.
   - Pensa que sim?
   - Sei que sim. Acho que  aquele tipo de pessoa que consegue
    obter quase tudo aquilo por que se dispe a lutar. - Desta vez no est a ser
assim to fcil. - Porqu?
   - De momento, eu e o Mark no temos muito boas relaes. Na realidade,
no mantemos quaisquer relaes. Nos ltimos anos, trocmos um nmero
muito reduzido de palavras.
   Adrienne ficou a olhar para ele, sem saber o que dizer.
   - No me tinha apercebido de que a frieza vinha de to longe. - Como  que
poderia saber? No  nada que me orgulhe de admitir.
    - O que  que vai dizer-lhe? Isto , como  que pensa comear? -No fao
ideia. - Olhou para ela. - O que  que me sugere? Parece ter bastante sensibilid-
ade para lidar com os filhos. - Nem por isso. Acho que teria de comear por con-
hecer bem o problema.
   -  uma longa histria.
   - Se quer falar disso, temos o dia todo.
   Paul bebeu um gole, como se estivesse a pesar a deciso. Depois, durante a
meia hora seguinte, acompanhado do som do vento e da chuva cada vez mais
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fortes, falou da assistncia que no tinha dado ao filho enquanto estava a cres-
cer, da discusso no restaurante, da sua incapacidade para apaziguar a zanga
entre os dois. Quando acabou, a fogueira estava quase a extinguir-se e Adrienne
manteve -se calada por momentos.
    - No vai ser fcil - acabou por admitir. - Eu sei.
    - Mas a culpa no  toda sua, como bem sabe. Para alimentar uma zanga so
precisas duas pessoas.
   - Um argumento bem filosfico. - Verdadeiro, apesar de tudo. - O que  que
devo fazer?
    - Eu diria que no pode forar muito. Acho que talvez tenham de comear
por se conhecerem melhor, ainda antes de tentarem resolver os problemas que
existem entre os dois.
    Paul sorriu, a pensar nas palavras dela.
   - Sabe uma coisa, espero que os seus filhos reconheam que tm uma me
muito esperta.
    - No reconhecem. Mas encaro o futuro com esperana.
    Ele riu-se, a pensar que na claridade baa da sala a pele dela parecia ter luz
prpria. Um dos cavacos tombou, lanando fascas chamin acima. Paul despe-
jou mais vinho nos dois copos.
    - Quanto tempo pensa permanecer no Equador? - perguntou Adrienne.
    Ainda no sei bem. Acho que depende do Mark e do tempo que ele queira
que eu l esteja. - Rodou o vinho no copo, antes de olhar para ela. - Diria, con-
tudo, que estarei l um ano, pelo menos. De qualquer modo, foi isso que disse ao
director.
    - E passado esse tempo, regressa?
    Paul encolheu os ombros.
    - Quem sabe. Acho que posso ir para qualquer lado. No  absolutamente
necessrio que volte a Raleigh. Para lhe ser franco, ainda no pensei no que vou
fazer quando regressar. Talvez me dedique a tomar conta de estalagens quando
os respectivos donos tiverem de sair da cidade.
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    Adrienne soltou uma gargalhada.
    - Acho que ia sentir-se bastante aborrecido com esse trabalho. - Mas seria
bom na iminncia de uma tempestade. -  verdade, embora tivesse de aprender
a cozinhar.
    - Boa observao - admitiu Paul, com metade do rosto na sombra, a olhar
para ela. - Nesse caso, talvez me mude para Rocky Mount, para depois decidir o
que fazer.
   Ao ouvir aquelas palavras, Adrienne sentiu o sangue subir-lhe s faces.
Abanou a cabea e virou-se.
    - No diga isso.
    - No digo o qu?
    - Coisas que no pretende dizer.
    - O que  que a leva a pensar que no as pretendo dizer?
    Adrienne no o encarou de frente, nem respondeu e, na calma que reinava
na sala, ele pde aperceber-se do arfar do peito dela. Notou uma sombra de
medo no rosto de Adrienne, mas no sabia que isso se devia ao desejo de que ele
avanasse e ao receio de que no o fizesse, ou se no queria que ele avanasse e
receasse que o fizesse. Estendeu o brao, colocando a mo no brao dela.
Quando voltou a falar, f-lo com voz suave, como se tentasse acalmar os receios
de uma criana.
    - Peo desculpa se a fao sentir-se incomodada - disse ele -, mas este fim-de-
semana... tem sido um tempo cuja existncia eu desconhecia. Isto , quero dizer
que me parece um sonho. Voc tem sido um sonho.
    O calor da mo dele parecia penetrar-lhe nos ossos.
    - Tambm tenho passado um tempo maravilhoso - respondeu Adrienne.
    - Mas os seus sentimentos so diferentes.
    Ela olhou para ele.
    - Paul... eu...
    - No, no tem de dizer seja o que for...
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    No o deixou continuar.
   - Ai isso  que tenho. Procura uma resposta e eu gostaria de lha dar, est
bem?
    Fez uma pausa, a arrumar os pensamentos.
    - Quando eu e o Jack nos separmos, no aconteceu apenas o fim de um
casamento. Foi o fim de tudo o que eu esperava do futuro. E tambm repres-
entou o fim da pessoa que eu era. Pensei que queria continuar a viver e tentei,
mas o mundo parecia j no estar nada interessado em mim. Os homens, na
generalidade, no se mostravam interessados em mim e acho que me recolhi
numa espcie de concha. Este fim-de-semana obrigou-me a tentar perceber o
que se passa comigo, mas ainda no cheguei a concluses definitivas.
    -No tenho a certeza de perceber aquilo que est a tentar dizer-me.
    - No estou a dizer isto por a resposta ser no. Gostaria de voltar a v-lo. 
um homem encantador e inteligente, os dois ltimos dias significaram mais para
mim do que estar em condies de perceber. Mas mudar-se para Rocky Mount?
Um ano  muito tempo e no temos maneira de saber o que estaremos a pensar
daqui a um ano. Veja quanto mudmos durante os ltimos seis meses. Pode
assegurar-me, com toda a franqueza, que daqui a um ano ainda ter a mesma
perspectiva do que est a acontecer?
    - Certamente posso.
    - E como  que pode ter a certeza?
    L fora, ouvia-se o rugido contnuo do vendaval a fustigar a casa. A chuva
martelava as paredes e o telhado; a velha estalagem gemia sob uma presso
incessante.
   Paul pousou o copo de vinho. Ao olhar para Adrienne convenceu-se de que
nunca vira nenhuma mulher to bonita.
    - Porque - disse - voc  a nica razo que me levar a querer regressar.
    - Paul... no...
    Fechou os olhos e, por momentos, Paul acreditou que ia perd-la. A ideia
assustou-o mais do que julgara possvel, sentiu que as suas ltimas resistncias
estavam a ceder. Olhou para o tecto e voltou a concentrar o olhar em Adrienne.
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Levantou-se e foi para junto dela. Com um dedo, obrigou-a a voltar o rosto para
ele, sabendo que estava apaixonado por tudo o que dizia respeito quela mulher.
    - Adrienne - sussurrou, obrigando a que ela finalmente o olhasse de frente e
no pudesse deixar de reconhecer a emoo espelhada nos olhos dele.
    Paul no conseguiu pronunciar as palavras, mas na torrente de sentimentos
que a inundou, Adrienne imaginou que estava a ouvi-las, o que, de momento, era
suficiente.
   Porque foi ento, quando ele a prendeu naquele seu olhar resoluto, que
Adrienne percebeu que tambm estava apaixonada.
    Durante muito tempo, at Paul lhe pegar na mo, nenhum deles parecera
consciente do que fazer. Com um suspiro, Adrienne deixou-o pegar-lhe na mo,
recostando-se na cadeira quando sentiu o dedo polegar dele comear a acariciar-
lhe a pele.
    Ele sorriu,  espera de uma resposta, mas Adrienne parecia satisfeita por
poder permanecer quieta. E Paul no tinha a certeza do que devia fazer. No
conseguia decifrar-lhe a expresso que, no entanto, parecia dar a entender que
os sentimentos dele estavam a ser correspondidos; esperana e receio, confuso
e aceitao, paixo e recato. Porm, pensando que ela precisava de tempo e de
espao, soltou-lhe a mo e levantou-se.
   - Vou pr mais um cavaco na lareira - disse. - A fogueira est a esmorecer.
    Ela aquiesceu, observando-o atravs dos olhos quase fechados, vendo-o
agachar-se diante da lareira, com as calas de ganga a marcarem-lhe as coxas.
    Isto no devia estar a acontecer, disse a si mesma. Por amor de Deus, o
homem tinha 54 anos, no era nenhum adolescente. Ela tinha maturidade sufi-
ciente para perceber que uma situao da quelas no pertencia aos domnios da
realidade. Era uma consequncia do temporal, do vinho, do facto de estarem ss.
Seria uma combinao de mil coisas, disse para si prpria, mas no era amor.
    No entanto, ao ver Paul pr outro cavaco na fogueira e ficar a olhar calma-
mente para as chamas, teve a certeza de que era. O brilho dos olhos dele no
mentia, o tremor da voz quando tinha sussurrado o nome dela... sabia que os
sentimentos dele eram verdadeiros. E o mesmo, pensou, estava a suceder com os
dela.
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    Porm, o que  que isso significava? Para ele ou para ela? Saber-se amada,
por mais maravilhosa que fosse a ideia, no era s o que estava ali em causa. Os
olhos dele tambm tinham revelado desejo, o que a tinha aterrorizado, mais
ainda por saber que ele a amava. Sempre acreditara que fazer amor era mais do
que um simples acto, por mais agradvel, entre duas pessoas. Inclua tudo aquilo
que um casal era suposto partilhar: confiana e dedicao, esperanas e sonhos,
a promessa de ultrapassar em conjunto tudo o que o futuro pudesse trazer.
Nunca entendeu as aventuras de uma noite s, nem as pessoas que mudam de
cama de dois em dois meses. Isso transformava o acto do amor numa coisa
quase sem sentido, como se fazer amor tivesse a mesma importncia de um beijo
de despedida junto  porta de casa.
    Embora se amassem um ao outro, sabia que tudo podia mudar logo que se
deixasse levar pelos sentimentos. Atravessaria uma fronteira que tinha erigido
na sua prpria mente e essa era uma viagem sem regresso. Ir para a cama com o
Paul significaria que os dois passariam a partilhar de um vnculo para o resto das
suas vidas e no tinha a certeza de estar preparada para isso.
    Tambm no estava segura de saber o que devia fazer. Jack no fora apenas
o nico homem com quem ela partilhara a cama; durante dezoito anos, fora o
nico homem com quem quis partilhar a cama, pelo que a possibilidade de o
fazer com outro a deixava extremamente ansiosa. Fazer amor era uma dana
amvel de dar e receber, pelo que a ideia de o desapontar era quase suficiente
para que no deixasse as coisas passarem dali.
     No entanto, no estava a conseguir dominar-se. Agora, j no. No, por ver a
maneira como Paul a olhava, no com os sentimentos que alimentava em relao
a ele.
    Ao levantar-se da cadeira sentiu a garganta seca e a tremura das pernas. Paul
continuava agachado em frente da fogueira. Aproximando-se, colocou as duas
mos nos msculos entre os ombros e o pescoo dele. Sentiu os msculos a
retesarem-se momentaneamente e, depois de ele respirar profundamente, a
descontrarem-se. Voltou-se, levantando os olhos para ela, e foi ento que
Adrienne sentiu que ia desistir de lutar.
     Tudo lhe parecia bem, ele parecia-lhe bem e, ali de p, a acariciar-lhe as cos-
tas, soube que no deixaria de ir ao lugar onde era esperado que fosse.
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    L fora, o cu foi riscado por um relmpago. Vento e chuva uniam esforos e
martelavam as paredes. A sala comeou a aquecer quando as chamas da lareira
subiram um pouco mais.
    Paul ps-se de p e olhou-a nos olhos. A sua expresso suavizou-se quando
lhe pegou na mo. Adrienne esperou por um beijo que no veio. Em vez disso,
Paul levantou-lhe a mo, levou-a  cara e apertou-a, ao mesmo tempo que
fechou os olhos, como que a tentar recordar-se para sempre do toque da pele de
Adrienne.
    Antes de a libertar, Paul beijou-lhe as costas da mo. Depois, abrindo os ol-
hos e inclinando a cabea, aproximou-se mais, at sentir os lbios encostados 
face dela e de a cobrir de beijos delicados, antes de finalmente lhe beijar os
lbios.
    Adrienne inclinou-se para Paul quando se sentiu apertada nos seus braos;
sentiu os seios a esmagarem-se contra o peito dele; sentiu um ligeiro arranhar da
barba quando foi beijada pela segunda vez.
    Paul fez deslizar as mos pelas costas dela, pelos braos e ela afastou os l-
bios, sentindo a humidade da lngua dele. Ele beijou-lhe o pescoo, as faces e
deixou que a sua mo deslizasse para a barriga dela, num toque que parecia car-
regado de electricidade. Quando sentiu que a mo de Paul lhe deslizava para os
seios, Adrienne sentiu-se perder o flego; e beijaram-se, uma e outra vez, com o
mundo  sua volta a dissolver-se, a transformar-se em algo distante e irreal.
    O fogo da paixo acalmara, mas quando se aproximaram ainda mais, no
sentiram que estavam apenas a abraar-se, sentiram que
  estavam tambm a erguer um muro para manter  distncia todas as
memrias dolorosas do passado.
    Paul afundou as mos nos cabelos de Adrienne e ela apoiou a cabea contra
o peito dele, sentindo um corao que batia to acelerado quanto o seu.
    E ento, quando conseguiram finalmente separar-se, Adrienne deu consigo a
procurar-lhe a mo.
   Deu um pequeno passo atrs e, puxando-o com suavidade, comeou a
conduzi-lo para o andar de cima, para o quarto azul.
TREZE

   Estavam ambas na cozinha e Amanda tinha os olhos fixos na me.
    No tinha dito coisa alguma desde que a me comeara a contar a sua
histria e j tinha bebidos dois copos de vinho, o segundo um pouco mais de-
pressa do que o primeiro. Nenhuma delas falava, de momento, mas Adrienne
sentia a expectativa ansiosa da filha, que estava suspensa do que viria a seguir.
    No entanto, Adrienne no lhe podia contar o que acontecera, nem tinha ne-
cessidade de o fazer. Amanda era uma mulher adulta, sabia o que era estar na
cama com um homem, alm de ter vivido o suficiente para saber que, embora
essa tivesse sido uma parte maravilhosa da descoberta mtua entre a me e
Paul, era apenas uma parte do todo. Adrienne fez amor com Paul e se o acto no
tivesse um profundo significado para ela, o fim-de-semana teria resultado apen-
as num acto de natureza fsica, no teria ficado nada para recordar, para alm de
alguns momentos agradveis, que s a sua prolongada solido anterior teria tor-
nado especiais. Efectivamente, o que os dois partilharam foram sentimentos
escondidos durante tempo demasiado, sentimentos que s tinham significado
para os dois. E unicamente para eles.
    Alm disso, Amanda era sua filha. Podia ser considerada antiquada, mas
contar-lhe os pormenores no lhe pareceu apropriado. H mulheres que con-
seguem falar dessas coisas, mas Adrienne nunca conseguira perceber como
conseguiam faz-lo. Sempre pensou que o quarto do casal era um lugar cujos se-
gredos pertenciam s ao prprio casal.
    E mesmo que lhe quisesse contar tudo, sabia-se incapaz de encontrar as pa-
lavras apropriadas. Como  que poderia descrever o que sentira quando ele
comeou a desabotoar-lhe a blusa, ou falar-lhe dos arrepios que lhe percorreram
todo o corpo quando ele lhe passou um dedo pelo abdmen? Ou do calor que
sentiram na pele quando os dois corpos se uniram? Ou da textura da boca dele
quando a beijou, ou do que sentiu quando enterrou os dedos com fora na pele
dele? Ou o som que ambos faziam a respirar e como a respirao de ambos se
acelerou quando comearam a mover-se em sintonia.
   No, no iria falar desse tipo de coisas. Em vez disso, deixaria que a filha
imaginasse o que aconteceu, pois Adrienne sabia que s a imaginao dela
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poderia, eventualmente, perceber os mnimos detalhes da magia que a me tinha
sentido nos braos de Paul.
   Amanda acabou por sussurrar-lhe:
   - Mam?...
   - Queres saber o que aconteceu?
   A filha engoliu em seco, a sentir-se pouco  vontade.
   - Sim - foi tudo o que Adrienne conseguiu dizer.
   - Queres dizer que...
   - Sim - disse outra vez.
   Amanda bebeu um gole de vinho. A tentar ser forte, pousou o copo em cima
da mesa.
   - E?...
    Adrienne inclinou-se para diante, como se quisesse evitar que mais algum
ouvisse.
    - Sim - murmurou e, dito isto, olhou para o lado, retirando-se para o
passado.
    Fizeram amor naquela tarde e passaram o resto do dia na cama. A tempest-
ade rugia l fora, as folhas e os ramos arrancados fustigavam a casa, ela e Paul
estavam agarrados um ao outro, os lbios dele junto da face dela, cada um a re-
cordar o passado e a falar do que sonhava como futuro, ambos maravilhados
pela sucesso de ideias e de sentimentos que os tinham levado quele momento.
    O sentimento tinha sido to novo para ela como para o Paul. Nos ltimos
anos de casamento com o Jack - talvez at na maior parte do tempo que pas-
saram casados, pensava agora - os seus actos de amor tinham sido mecnicos,
com pouco sentimento e rpidos na durao, sem ternura e sem emoo. E rara-
mente falavam aps o acto porque Jack quase sempre se virava para o outro lado
e adormecia em poucos minutos.
    Quanto a Paul, no s a manteve abraada durante horas como lhe deu a
saber que aquele abrao era to importante para ele como a intimidade fsica de
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que tinham partilhado. Beijou-lhe os cabelos e o rosto, disse-lhe que era bonita
sempre que lhe tocou qualquer parte do corpo, chamou-lhe bela e disse que a ad-
orava, tudo naquele tom solene e confiante que ela comeara a amar desde o
incio.
    Mesmo sem terem conscincia disso por as janelas estarem entaipadas, o
cu tinha-se tornado um negrume opaco e temeroso. As ondas impelidas pelo
vento atingiram a duna e levaram-na; a gua revolveu as fundaes da es-
talagem. As antenas da casa foram arrancadas e atiradas para a parte oposta da
ilha. A vibrao que a energia libertada pela tempestade provocou na porta das
traseiras permitiu a entrada de areia e gua na cozinha. A electricidade foi
cortada numa altura qualquer, durante a madrugada. Amaram-se uma segunda
vez, em escurido total, guiados pelo tacto e, quando terminaram, adormeceram
finalmente nos braos um do outro, enquanto o ncleo do furaco passava por
cima de Rodanthe.
DEZESSEIS

    Adrienne tinha acabado a sua histria e sentia a garganta seca. A despeito
dos efeitos sedativos de um nico copo de vinho, sentia as costas doridas por es-
tar sentada na mesma posio h demasiado tempo. Mudou de posio na ca-
deira e sentiu um assomo de dor, que reconheceu como um princpio de artrite.
Uma vez em que mencionara aquela dor ao mdico, ele obrigara-a a sentar-se
em cima da mesa, numa sala que cheirava a amonaco. Tinha-lhe alado os
braos, mandara-a dobrar os joelhos e passou uma receita que ela nunca se deu
ao cuidado de aviar. Disse para si mesma que a situao ainda no era grave;
alm do mais, tinha uma teoria de acordo com a qual se comeasse a tomar
comprimidos para uma dada doena, no tardariam a aparecer todos aqueles
achaques que eram o tormento das pessoas da sua idade. A esses, no tardariam
a seguir-se outros comprimidos, com todas as cores do. arco-ris, uns para tomar
de manh, outros  noite, uns com a comida e outros em jejum, a exigirem um
mapa colocado na porta do armrio dos remdios para evitar confuses. Era tra-
balho mal empregado.
    Amanda estava sentada  sua frente, de cabea descada para o peito. A me
observava-a, sabendo que as perguntas no deixariam de surgir. Eram inevit-
veis, mas bem gostaria que no aparecessem j de seguida. Precisava de tempo
para pr ordem nas ideias, de forma a poder concluir a tarefa que tinha iniciado.
    Estava satisfeita porque Amanda tinha concordado em falar com ela, ali em
casa. J vivia nesta casa h mais de trinta anos e este era o seu lar, mais ainda do
que a casa onde tinha passado a meninice.
     Havia algumas deficincias: muitas das portas careciam de afinao, a alc-
atifa do corredor estava a ficar muito gasta, os desenhos dos azulejos da casa de
banho h muito que estavam fora de moda, mas havia algo de reconfortante em
saber que podia encontrar o material de campismo no canto esquerdo do sto,
ou que, chegando o Inverno, o aquecimento fazia disparar o disjuntor na
primeira vez que fosse ligado. Esta casa tinha hbitos; tal como ela e supunha
que, com o passar dos anos, os hbitos da casa e os dela se tinham misturado
para lhe tornarem a vida mais estvel e estranhamente reconfortante.
    Passava-se o mesmo com a cozinha. H anos que tanto o Matt como o Dan a
tentavam com ofertas de remodelaes e, na altura do seu ltimo aniversrio,
tinham trazido um mestre-de-obras para avaliar o que era preciso fazer. Este
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tinha batido nas portas, enterrado a chave de parafusos nos cantos rodos dos
armrios, andara a acender e a apagar todas luzes e at soltara um pequeno as-
sobio quando viu o fogo antiquado em que ela continuava a cozinhar. No final,
tinha recomendado a substituio de quase tudo, deixado uma estimativa de
custos e uma lista de referncias. Embora soubesse que as intenes dos filhos
tinham sido excelentes, disse-lhes que o melhor era pouparem o dinheiro para o
gastarem em coisas de que as suas famlias precisassem.
    Alm do mais, gostava da sua velha cozinha. Depois de transformada, per-
deria o seu carcter e ela apreciava as recordaes que tinham sido ali forjadas.
Afinal, fora na cozinha que tinham passado a maior parte da sua vida de famlia,
antes e depois da sada do Jack. Os midos tinham feito os trabalhos de casa na
mesa onde agora se encontravam; durante anos, o nico telefone que havia na
casa estava colocado na parede da cozinha e ainda se recordava das alturas em
que dava com o fio a passar pela greta da porta das traseiras, sempre que um dos
midos fazia o que podia na tentativa de conseguir alguma privacidade para tele-
fonar do alpendre. Num dos barrotes das prateleiras da despensa ainda podiam
ver-se as marcas a lpis, que indicavam a altura de cada um dos filhos nas datas
indicadas, e nem se imaginava a desfazer-se daquela preciosidade por troca com
algo de novo e melhorado, por muito bonito que fosse. Ao contrrio da sala, com
a televiso sempre alta, ou dos quartos para :onde cada um se retirava quando
queria estar s, esta era a nica diviso da casa onde todos vinham para falar e
para ouvir, para aprender e para ensinar, para rir e para chorar. Este era o lugar
da casa que mais se adaptava  ideia do que deve ser um lar; este era o lugar em
que Adrienne sempre se sentira mais alegre e mais feliz.
    E este era o lugar onde Amanda iria saber quem era realmente a sua me.
    Adrienne bebeu o resto do vinho e empurrou o copo para o lado. Tinha deix-
ado de chover, mas as gotas de gua que tinham ficado nos vidros das janelas
pareciam fazer inflectir a luz de uma forma que tornava o mundo exterior difer-
ente, um lugar que ela reconhecia com dificuldade. O que no a surpreendia; 
medida que envelhecia, descobriu que, logo que deixava o pensamento deslizar
para o passado, tudo  sua volta parecia modificar-se. Esta noite, ao contar a sua
histria, teve a sensao de que o tempo voltara para trs e, embora achasse a
ideia ridcula, ficou a magicar se a filha teria notado aquela nova juventude de
que se sentia possuda.
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    No, decidiu, certamente no notou, mas esse era um problema da idade da
Amanda. Para a filha, conceber a ideia de vir a ter 60 anos era to difcil como
convencer-se de que podia transformar-se num homem; em certas ocasies,
Adrienne punha-se a pensar se Amanda alguma vez chegaria a perceber que, na
sua maior parte, as pessoas no so assim to diferentes umas das outras. Jovem
ou idoso, masculino ou feminino, quase toda a gente que conhecia desejava as
mesmas coisas: queriam sentir o corao em paz, queriam uma vida sem sobres-
saltos, queriam ser felizes. A diferena, pensava Adrienne, era que, na sua
maioria, os jovens pareciam pensar que aquelas coisas os esperavam num ponto
qualquer do futuro, enquanto boa parte dos idosos acreditava que elas faziam
parte do passado.
     A ideia tambm se lhe aplicava, pelo menos em parte, mas, por mais mara-
vilhoso que o passado pudesse ter sido, recusava deixar-se prender nos seus me-
andros, como acontecia com muitas pessoas suas amigas. O passado no fora
apenas um jardim' inundado de luz e coberto de rosas; o passado inclua tam-
bm uma boa dose de desgostos. Era o que sentia no momento em que chegara 
estalagem acerca dos efeitos que os actos do Jack estavam a ter sobre a sua vida
e, agora, pensava o mesmo acerca de Paul Flanner.
    Esta noite iria chorar mas, como prometeu a si mesma no dia em que ele
partiu de Rodanthe, Adrienne no se deixaria abater. Era uma sobrevivente,
como o pai tinha dito inmeras vezes e, embora saber isso lhe desse uma certa
satisfao, no chegava para eliminar as dores e os desgostos.
     Nesta altura da vida tentava concentrar-se nas coisas que lhe davam prazer.
Adorava observar os netos nas suas tentativas de descoberta do mundo, adorava
visitar amigos e saber como  que eles estavam a passar, acabara at por apreciar
os dias que passava a trabalhar na biblioteca.
    O trabalho no era difcil - agora estava a trabalhar na seco de referncias
especiais, cujos livros no podiam ser levados para fora da biblioteca - e podia
passar horas sem que os seus servios fossem necessrios, o que lhe dava muitas
oportunidades de ficar a observar as pessoas que passavam pelo vestbulo
imaculado do edifcio. Com o passar dos anos, observar pessoas tornara-se um
divertimento. Ao ver os leitores sentados em silncio naquelas salas, no con-
seguia deixar de imaginar como seriam as suas vidas. Dava consigo a magicar se
determinada pessoa era casada ou o que fazia para ganhar a vida, em que cidade
vivia, quais os livros que lhe podiam interessar e, uma vez por outra, tinha a
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oportunidade de descobrir que uma sua observao estava correcta. A pessoa po-
dia vir pedir-lhe ajuda para encontrar um certo livro, possibilitando o incio de
uma conversa amigvel. Era frequente que as suas conjecturas andassem
bastante perto da verdade, o que a deixava maravilhada.
    Uma vez por outra, aparecia algum interessado nela. H anos, esses ho-
mens eram quase sempre mais velhos do que ela; agora, tendiam a ser mais nov-
os mas, mais velhos ou mais novos, o processo repetia-se. O homem em questo
comeava por passar bastante tempo na seco de referncias especiais, fazia
uma srie de perguntas, primeiro sobre livros, depois sobre assuntos de carcter
mais genrica!, para, finalmente, chegar s perguntas sobre a bibliotecria. No-
se importava de lhes responder e, embora nunca tentasse seduzi-los, a maioria
acabava por convid-la a sair. Porm, mesmo que tais propostas a envaide-
cessem sempre, no fundo sabia que, por mais maravilhoso que o pretendente se
mostrasse, por mais que ela pudesse apreciar a companhia dele, nunca
conseguiria abrir-lhe o corao da maneira como, em tempos, fizera.
    Aqueles dias passados em Rodanthe ainda provocaram outras alteraes na
sua maneira de ser. O tempo passado na companhia de Paul tinha curado as feri-
das deixadas pelos sentimentos de perda e de traio inerentes ao divrcio,
substituindo-os por algo mais forte e mais digno. Saber-se digna de ser amada
ajudou-a a andar de cabea levantada e, na medida em que a sua autoconfiana
aumentou, passou a ser capaz de falar com Jack sem subterfgios nem insinu-
aes, sem os complexos de culpa e de remorso que, antes, estavam sempre
presentes nas conversas entre ambos. Tudo foi acontecendo gradualmente;
quando ele telefonava para saber dos midos, comearam a conversar durante
alguns minutos antes de ela passar o telefone aos filhos. Mais tarde, comeara a
fazer-lhe perguntas acerca de Linda e do trabalho, ou a contar-lhe o que tinha
andado a fazer nos ltimos tempos. Pouco a pouco, Jack parecia compreender
que ela j no era a pessoa que costumava ser. As conversas tornaram-se mais
amigveis com a passagem dos meses e dos anos, chegando ao ponto em que
telefonavam um ao outro s para conversarem um pouco. Quando o casamento
com a Linda comeou a desmoronar-se, passavam horas ao telefone, por vezes
de noite. Quando Jack e Linda se divorciaram, Adrienne esteve presente para o
ajudar a ultrapassar o desgosto e at deixava que ele ficasse no quarto de hs-
pedes quando vinha ver os filhos. Ironicamente, Linda deixou-o para ir viver
com outro homem. Adrienne recordava-se de estar sentada na sala em compan-
hia do Jack, que fazia rodar nas mos um copo de usque. J passava da meia-
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noite e havia horas que falavam disto e daquilo, at que, finalmente, Jack
pareceu aperceber-se da pessoa com quem estava a falar.
   - Tambm te sentiste assim magoada? - perguntou.
   - Claro - respondeu Adrienne.
   -De quanto tempo  que precisaste para ultrapassares a questo?
   - Trs anos. Mas tive sorte.
    Jack aquiesceu. Ficou a olhar para a bebida, de lbios cerrados. - Lamento -
acabou por dizer. - Sair por aquele porta foi a coisa mais estpida que fiz em
toda a minha vida.
   Adrienne sorriu e deu-lhe uma palmadinha no joelho.
    - Eu sei. De qualquer modo, obrigada por reconheceres isso. Isto passara-se
cerca de um ano antes de Jack a ter convidado a sair com ele. E, como cos-
tumava fazer com todos os outros, Adrienne respondeu-lhe polidamente que
no.
    Adrienne levantou-se, foi buscar a caixa que tinha trazido consigo do quarto
e voltou a sentar-se  mesa. Chegada quele ponto, Amanda observava a me
com uma espcie de fascnio prudente. Adrienne estendeu a mo para acariciar a
da filha.
    Ao faz-lo, verificou que, num ponto qualquer da conversa que mantinham
h horas, Amanda se tinha apercebido de que no conhecia a me to profunda-
mente quanto julgava. Tratava-se, pensou Adrienne, de uma espcie de inverso
de papis. Amanda mostrava a mesma expresso que Adrienne mostrara tantas
vezes, sempre que os filhos se juntavam durante as frias e diziam piadas acerca
de muitas das coisas que tinham feito quando eram mais novos. S h uns dois
anos soubera que Matt costumava escapar-se do quarto para andar fora de casa,
at altas horas, com os amigos, ou que Amanda tinha comeado a fumar e tinha
deixado o vcio, tudo no primeiro ano, ou que fora o Dan o causador do incndio
da garagem, sem grandes consequncias, que fora atribudo a um aparelho elc-
trico defeituoso. Tinha-se divertido imenso com eles, sem deixar de sentir-se in-
gnua, e imaginava que Amanda estivesse agora a sentir o mesmo.
   Na parede, o relgio produzia o seu tiquetaque regular. O aquecimento deu
um estalido ao entrar em funcionamento. Amanda respirou fundo.
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   - Essa fji uma grande histria - disse.
   Enquanto falava, Amanda agarrava no copo com os dedos, fazendo o vinho
rodar em crculos. A luz incidia sobre o vinho, mostrando a espuma.
   - O Matt e o Dan sabem disto? Quer dizer, tambm lhes contaste?
   - No.
   - Porqu?
    - Nem decidi se devem ou no saber - respondeu Adrienne, a sorrir. - Alm
do mais, no sei se compreenderiam, quaisquer que fossem as minhas ex-
plicaes. Por um lado, so homens e sentem-se no dever de me protegerem.
No quero que pensem que Paul se limitou a abusar de uma mulher solitria.
Por vezes os homens so assim: conhecem uma mulher e apaixonam-se, consid-
erando que se trata de amor verdadeiro, pouco interessando a rapidez com que
se apaixonaram. Porm, se outro homem se apaixona por uma mulher por quem
se interessam, nunca deixam de duvidar das intenes do estranho. Para te ser
franca, duvido de que alguma vez venha a falar-lhes do caso.
   Amanda fez um gesto de concordncia, antes de perguntar:
   - Ento, por que motivo me escolheste para confidente?
   - Porque achei que necessitavas de ouvir a histria.
   Com ar ausente, Amanda comeou a enrolar uma madeixa de cabelo entre os
dedos. Adrienne ficou a matutar se aquele seria um gesto transmitido por via
gentica ou se teria sido aprendido a observar a me.
   -Mam?
   - O que ?
   - Por que  que no nos falaste dele? No me lembro de o teres sequer
mencionado.
   - No podia.
   - Por que razo?
   Adrienne recostou-se na cadeira e respirou fundo.
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    -De incio, acho que tive receio de no se tratar de amor duradouro. Sabia
que nos amvamos mas a distncia tem uma influncia esquisita sobre as pess-
oas e, antes de vos falar do caso, queria ter a certeza de a relao era para durar.
Depois, quando comecei a receber cartas dele e soube que seria... nem sei...
pareceu-me que passaria muito tempo antes que o pudessem conhecer e no vi
interesse em...
    Interrompeu-se para escolher as palavras seguintes com todo o cuidado.
    - Tambm tens de compreender que no s a mesma pessoa que eras na al-
tura. Tinhas 17 anos, Dan tinha apenas 15, e no podia ter a certeza de que est-
ivessem preparados para ouvirem uma coisa destas. Sejamos francas, como 
que te sentirias ao regressares de uma visita ao teu pai se eu te dissesse que es-
tava apaixonada por algum que acabara de conhecer?
    - Teramos ultrapassado isso.
    Adrienne tinha as suas dvidas, mas resolveu no contrariar a filha. Em vez
disso, encolheu os ombros.
    - Quem sabe? Talvez tenhas razo.  possvel que conseguisses aceitar uma
coisa assim mas, na altura, no quis arriscar uma reprovao da tua parte. E, se
tivesse de voltar ao princpio,  provvel que me comportasse da mesma
maneira.
    Amanda mexeu-se na cadeira. Passados uns momentos enfrentou a me, ol-
hos nos olhos.
    - Tens a certeza de que ele te amava? - perguntou. - Tenho.
    Na luz do entardecer, os olhos azuis da filha tinham reflexos esverdeados.
Fez um sorriso doce, como se tentasse tocar num ponto sensvel sem magoar a
me.
    Adrienne sabia o que a filha ia perguntar-lhe a seguir. Era, segundo pensou,
a nica pergunta que fazia sentido.
   Amanda inclinou-se para diante, a olhar a me com preocupao. - Ento,
onde  que ele est?
   Nos catorze anos decorridos desde que viu Paul Flanner pela ltima vez,
Adrienne foi a Rodanthe cinco vezes. A primeira viagem tinha sido em junho do
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mesmo ano e, embora a areia parecesse mais branca e o oceano s se encon-
trasse com o cu no horizonte distante,' 4as visitas seguintes durante os meses
de Inverno, quando a paisagem era cinzenta e fria, sabendo que assim recordaria
muito melhor o passado.
     Depois de Paul ter partido, incapaz de ficar estar quieta, Adrienne errou pela
casa durante toda a manh. O movimento parecia-lhe a nica maneira de no se
deixar abater pelos sentimentos. Para o final da tarde, quando o crepsculo ves-
tia o cu com vus de vermelho e laranja, tinha sado e ficara a apreciar o color-
ido, a tentar localizar o avio em que Paul estaria, a caminho do Equador. As
possibilidades de o ver eram itifinitesimais mas, mesmo assim, ficara c fora, a
arrefecer  medida que caa a noite. Por entre as nuvens, aparecia de vez em
quando o rasto de um jacto, mas a lgica dizia-lhe que os rastos pertenciam a
avies estacionados na base naval de Norfolk. Quando se decidiu a ir para dentro
de casa, tinha as mos dormentes, de tal maneira que teve de pr a gua quente
a correr no lava-loua para as mergulhar. Mesmo admitindo que ele tinha
partido, ps a mesa para duas pessoas.
    Num recanto da mente albergava uma certa esperana de que ele regressas-
se. Enquanto jantava, imaginou-o a entrar pela porta da frente e a libertar-se dos
sacos de viagem, explicando que no poderia partir sem que passassem outra
noite juntos. Partiriam os dois no dia seguinte ou no outro, diria ele, e poderiam
seguir pela estrada na direco do norte, at  curva de acesso  rua onde ela
morava.
    Mas no veio. A porta da frente no foi empurrada, o telefone nunca tocou.
Por mais que desejasse t-lo ali, Adrienne soube sempre que tivera razo quando
o estimulara a partir. Um dia mais no tornaria a partida mais fcil, outra noite
apenas significava que teriam de se despedir outra vez, como se no bastasse o
primeiro adeus, to difcil. Nem queria imaginar-se a ter de proferir novamente
aquelas palavras, nem podia conceber a ideia de reviver outro dia como o que es-
tava prestes a acabar.
    Na manh seguinte, comeou a limpeza da estalagem, executando calma-
mente as rotinas necessrias. Lavou a loua e assegurou-se de que estava tudo
seco e arrumado. Limpou as alcatifas com o aspirador, varreu a areia que tinha
invadido a cozinha e a vereda da entrada, limpou o p do corrimo e do can-
deeiro da sala, acabando a trabalhar no quarto da Jean at ficar convencida de
que deixava as coisas como as tinha encontrado no dia em que chegara.
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    Depois, levando a mala pela escada acima, abriu a porta do quarto azul.
    No tinha l entrado desde a manh, desde a hora em que Paul partira. A luz
da tarde desenhava prismas nas paredes. Ele tinha feito a cama antes de descer,
mas no parecera aperceber-se da necessidade de a fazer bem feita. Havia
pequenas bossas por debaixo do edredo nos stios onde o cobertor ficara en-
rugado, o lenol de cima estava  vista e nalguns pontos quase tocava o cho. Na
casa de banho havia uma toalha pendurada no varo da cortina, alm de mais
duas deixadas a monte junto do lavatrio.
   Ficou de p, junto da porta, a observar tudo at que respirou fundo e pousou
a mala. Quando o fez, viu, em cima da escrivaninha, a carta que Paul lhe deixara.
Pegou nela e, lentamente, sentou-se na borda da cama. Na quietude daquele
quarto onde se tinham amado, leu o que ele tinha escrito na manh anterior.
    Quando acabou, Adrienne baixou a mo que segurava a carta e deixou-se
ficar sentada, sem se mexer, a imagin-lo ali sentado, a escrever-lhe. Depois, do-
brando a carta com todo o cuidado, meteu-a na mala de viagem, juntamente com
o bzio. Quando Jean chegou, horas mais tarde, Adrienne estava encostada ao
corrimo do alpendre das traseiras, a olhar para o cu.
    Jean apareceu com a exuberncia habitual; contente por ver a Adrienne,
contente por estar de regresso a casa, falando sem cessar do casamento e do
velho hotel de Savannah onde tinha ficado. Adrienne deixou-a contar as histri-
as sem a interromper e, depois do jantar, disse  amiga que gostava de ir dar
uma volta pela praia. Felizmente, Jean declinou o convite para a acompanhar.
    Quando regressou, Jean estava no quarto a esvaziar a mala, e Adrienne
aproveitou para preparar um ch e foi sentar-se junto da lareira. J estava h um
bocado a descansar, quando ouviu Jean a dirigir-se  cozinha.
   - Onde  que tu ests? - chamou Jean. - Estou aqui - respondeu Adrienne.
Jean entrou na sala segundos depois.
    - Terei ouvido o assobio da chaleira ou foi impresso minha?
    - Acab d preparar uma chvena.
    - Desde quando  que tu bebes ch?
    Adrienne soltou uma pequena gargalhada, mas no deu resposta.
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   A amiga sentou-se na outra cadeira. L fora, a Lua subia no cu, ntida e bril-
hante, fazendo a areia brilhar com a cor das panelas e frigideiras antigas.
    - Esta noite pareces-me muito calada - observou Jean.
    - Desculpa - justificou-se Adrienne. - S estou um pouco cansada. Parece-me
que estou mesmo pronta para regressar a casa.
     -Acredito. Comecei a contar os quilmetros logo que sa de Savannah, mas
felizmente no apanhei muito trnsito. No estamos na poca, como sabes. -
Adrienne aquiesceu. Jean recostou-se na cadeira. - Correu tudo bem com o Paul
Flanner? Espero que a tempestade no lhe tenha arruinado a viagem.
    Ouvir o nome dele provocou um espasmo na garganta de Adrienne, mas
tentou aparentar calma. - No penso que a tempestade o tenha afectado minima-
mente - respondeu.
    - Como  que ele ? A julgar pela voz, achei-o um bocado pedante.
    - No, de maneira nenhuma. Foi... simptico.
    - Foi esquisito, estares aqui sozinha com ele?
    - No. No, desde que me habituei  ideia.
   Jean ficou a ver se Adrienne acrescentava qualquer outro pormenor, mas a
amiga no disse mais nada.
    - Bem... - continuou Jean. - E no tiveste problemas a entaipar a casa.
    - No.
   - Ainda bem. Agradeo o favor que me fizeste. Sei que estavas  espera de
um fim-de-semana descansado, mas parece-me que o Destino resolveu pregar-te
uma partida, no foi?
    -Acho que no. - Talvez fosse a maneira como falou que provocou aquele ol-
har da Jean, aquela curiosa expresso na cara dela. Subitamente, precisando de
ar, Adrienne acabou de beber o ch. - Jean, odeio-me por te fazer isto - disse, a
esforar-se ao mximo para a voz lhe soar natural -, mas acho que a minha noite
acaba aqui. Estou cansada e amanh tenho um longo caminho a percorrer.
Fiquei contente por saber que te divertiste nesse casamento.
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    Ante a forma abrupta como a amiga deu o sero por findo, Jean arqueou li-
geiramente as sobrancelhas.
    - Oh... muito bem, obrigada - respondeu. - Boa noite.
   Adrienne sentiu-se atingida pela expresso de dvida de Jean, mesmo
quando j ia a subir a escada. Depois de abrir a porta do quarto azul, despiu a
roupa e arrastou-se para a cama, nua e sozinha.
    O cheiro de Paul tinha ficado na almofada e nos lenis; quase sem dar por
isso, contornou os seios com os dedos enquanto aspirava aquele cheiro e ficou
assim, a combater o sono at no poder aguentar mais. Na manh seguinte, de-
pois de se levantar, fez caf e foi dar outro passeio pela praia.
    Encontrou dois casais na meia hora que passou ao ar livre. Uma corrente
quente fizera subir a temperatura na ilha, o que ia atrair ainda mais pessoas para
a beira-mar.
    Paul j deveria estar na clnica e ela bem gostaria de saber como seria o local.
Tinha uma imagem na cabea, algo que tinha visto num desses canais que pas-
sam filmes sobre o mundo natural; uma srie de construes de m qualidade,
rodeadas pela floresta que ameaava engolir tudo, sulcos profundos em estradas
de terra batida, o chilrear de aves exticas como msica de fundo, mas no fazia
ideia se a viso era a mais correcta. Gostaria de saber se ele j tinha falado com
Mark, como teria corrido o encontro e se Paul, como sucedia com ela, estava
ainda a reviver mentalmente o fim-de-semana.
    A cozinha estava vazia quando regressou. Viu o aucareiro destapado e uma
chvena vazia junto da mquina de caf. Ouviu sons abafados no andar de cima,
algum que cantarolava.
    Seguiu o som e, ao atingir o primeiro andar, viu a porta do quarto azul
aberta. Aproximou-se mais, abrindo a porta completamente, e viu a Jean a en-
talar o ltimo canto de um lenol lavado. Os lenis usados, os lenis que tin-
ham envolvido o corpo dela e de Paul, tinha sido amarfanhados e atirados para o
cho.
    Adrienne ficou a olhar para os lenis, sabendo que o seu desgosto era
ridculo, mas apercebendo-se, de sbito, de que teria de decorrer pelo menos um
ano at que voltasse a sentir o cheiro de Paul Flanner. Inspirou ruidosamente, a
tentar conter um soluo.
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    Jean foi surpreendida pelo som e voltou-se, de olhos esbugalhados.
    - Adrienne? - perguntou. - Sentes-te bem?
    Mas Adrienne no pde responder-lhe. S conseguiu levar as mos s faces,
consciente de que, a partir daquele preciso momento, iria marcar no calendrio
os dias que faltavam para o regresso de Paul.
   - Paul - respondeu Adrienne - est no Equador. Conseguiu dizer aquilo com
uma voz que a surpreendeu pela firmeza.
    - No Equador - repetiu Amanda. Ficou a matraquear a mesa com os dedos e
a olhar para a me. - Por que  que no voltou? - No pde.
    - Porqu?
   Em vez de responder, a me levantou a tampa da caixa que trouxera do
quarto. Tirou de l uma folha de papel que, a Amanda, pareceu ter pertencido a
um caderno escolar. Dobrada, tinha ama relecido com a idade. Amanda viu o
nome da me escrito na frente. - Antes de te contar - continuou Adrienne -,
quero responder  outra pergunta que fizeste.
    - Que outra pergunta? A me sorriu.
    - Perguntaste-me se tinha a certeza de que o Paul me amava.
    - Dito isto, empurrou a folha de papel na direco da filha. Este  o bilhete
que me deixou no dia da partida.
    Amanda hesitou antes de pegar na folha de papel, mas depois desdobrou-a
lentamente. Com a me a observ-la do outro lado da mesa, comeou a ler.
    Querida Adrienne,
    esta manh, no estavas ao meu lado quando acordei e, embora conhea o
motivo de j no estares ali, desejei que estivesses. Sei que estou a ser egosta,
mas suponho que esse  um dos traos do meu carcter de que no me libertei, a
nica constante de toda a minha vida.
    Se leres este bilhete,  sinal de que parti. Quando acabar de o escrever, vou
descer a escada e pedir-te para ficar junto de ti mais algum tempo, mas no ali-
mento iluses quanto  resposta que vais dar-me.
                                                                            95/121

    isto no  um adeus e no quero que penses, nem por um instante, que essa
 a finalidade desta carta. Em vez disso, digo-te que vou encarar este ano que
temos pela frente como uma oportunidade de te conhecer ainda melhor J ouvi
falar de pessoas que se apaixonam atravs de cartas e, embora estejamos apaix-
onados, isso no quer dizer que o nosso amor no possa ser ainda mais pro-
fundo, pois no? Gostaria de pensar que tal  possvel e, se queres saber a ver-
dade, essa convico  a nica que me poder ajudar a passar este prximo ano
sem a tua companhia.
    Fecho os olhos, vejo-te a caminhar pela praia no primeiro sero que pass-
mos juntos. Com os relmpagos a iluminarem-te o rosto, estavas incrivelmente
bonita e penso que essa foi uma das razes que me levaram a abrir-me contigo,
contando-te coisas que nunca tinha contado a ningum. Porm, no fui mo-
tivado apenas pela tua beleza. Foi por tudo o que pela tua coragem e pela tua
paixo, pela sabedoria cheia de bom senso com que encaras o mundo. Julgo que
senti em ti estas qualidades logo da primeira vez em que tommos caf juntos e,
se assim pode dizer-se, quanto melhor te conhecia mais sentia a falta dessas
qualidades na minha prpria vida. Tu s uma preciosidade difcil de encontrar,
Adrienne, e sinto-me um homem feliz por ter tido a oportunidade de te
conhecer.
    Espero que estejas bem. Ao escrever-te esta carta, sei que no estou. Dizer-te
adeus hoje  a tarefa mais difcil de toda a minha vida; quando regressar, posso
honestamente jurar que nunca mais voltarei a faz-lo. Amo-te por tudo o que
partilhmos e j te amo, por antecipao, por tudo o que ainda temos para viver.
Conhecer-te foi a melhor coisa que alguma vez me sucedeu. J estou a sentir a
tua falta mas, do fundo corao, penso que estars sempre comigo. Nos poucos
dias que passei contigo, transformaste-te no meu sonho.
    Paul
    O ano que se seguiu  partida de Paul, no teve paralelo em nenhum dos out-
ros anos da vida de Adrienne.  superfcie, tudo continuou na mesma. Parti-
cipava activamente da vida dos filhos, ia ver o pai todos os dias, trabalhava na
biblioteca, como fazia antes. No entanto, sentia um novo bem-estar, alimentado
pelo segredo que transportava consigo e a sua nova maneira de encarar a vida
no passou despercebida s pessoas que estavam  sua volta. Sorria com mais
frequncia, comentavam as pessoas, e at os filhos notavam uma vez por outra
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que a me fazia passeios depois do jantar e que por vezes passava uma hora a
deliciar-se na banheira, ignorando o tumulto que se desencadeava  sua volta.
    Nesses momentos pensava sempre no Paul, mas a imagem dele era mais real
sempre que via a carrinha do correio a subir a rua, parando e voltando a arran-
car a cada entrega.
     O carteiro chegava habitualmente entre as dez e as onze horas da manh;
Adrienne ficava por detrs das cortinas, a ver a carrinha parar em frente da sua
porta. Corria para a caixa do correio logo que a carrinha arrancava, fazia uma
escolha rpida entre aquele molho de sobrescritos,  procura dos sinais caracter-
sticos das cartas dele: os sobrescritos de correio areo de cor bege seus
preferidos, selos postais que mostravam um mundo de que ela no sabia nada, o
nome dele rabiscado no canto superior esquerdo.
    Quando chegou a primeira carta, leu-a no alpendre das traseiras. Logo que
acabou a leitura, recomeou do princpio e leu-a uma segunda vez, mas mais de-
vagar, com pausas frequentes para meditar sobre o que lia. Fez o mesmo com
cada uma das cartas subsequentes e, como continuaram a chegar com regularid-
ade, percebeu que a mensagem transmitida pelo bilhete de despedida de Paul
era verdadeira. Embora no fosse to agradvel como estar a v-lo ou a sentir-se
enlaada nos seus braos, a paixo contida nas palavras concorria, de certa
forma, para encurtar a distncia entre eles.
     Adorava imaginar como seria a expresso dele ao escrever as cartas.
Imaginava-o a escrever numa secretria desconjuntada, com uma nica lmpada
a iluminar-lhe a face cansada. Gostaria de saber se ele escrevia depressa, se as
palavras fluam sem interrupo, ou se tinha de parar de vez em quando, de ol-
hos no infinito, a pr os pensamentos em ordem. A imagem no era sempre a
mesma, umas vezes tomava uma forma, que podia ser alterada pela carta
seguinte, tudo a depender do que ele tinha escrito. Era frequente que Adrienne
interrompesse a leitura e fechasse os olhos, a tentar adivinhar o estado de es-
prito do Paul no momento em que escrevia a carta.
    Escrevia-lhe de volta, para responder a perguntas e para lhe contar o que se
passava na sua vida. Nessas alturas, quase conseguia v-lo a seu lado; se a brisa
lhe agitava o cabelo, era como se Paul lhe estivesse a acariciar as madeixas com
as pontas dos dedos, se ouvia o tiquetaque de um relgio, associava-o s batidas
do corao, que ouvia quando pousava a cabea no peito dele. Contudo, logo que
pousava a caneta, o pensamento fugia-lhe sempre para os ltimos momentos
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que tinham passado juntos: abraados na vereda de acesso  estalagem, o roar
suave dos lbios dele, a promessa de que a separao era apenas por um ano,
que depois ficariam juntos para sempre.
     Paul tambm lhe telefonava com frequncia, sempre que tinha oportunidade
de ir  cidade mais prxima, mas ouvir a ternura da sua voz provocava-lhe
sempre um aperto no corao. O mesmo acontecia com o som das suas gargalha-
das ou com o tom magoado quando lhe falava das saudades que tinha dela. Tele-
fonava durante o dia, quando os filhos estavam na escola, e sempre que ouvia o
telefone tocar, esperava um pouco antes de atender, na expectativa de que fosse
ele. As conversas no eram longas, raramente atingiam os vinte minutos, mas,
juntamente com as cartas, permitiram-lhe suportar os meses que se seguiram.
    Na biblioteca comeou a fotocopiar pginas de uma grande variedade de liv-
ros onde se falava do Equador; tudo, da geografia  histria do pas, qualquer
coisa que lhe despertasse a ateno. Numa ocasio em que uma revista de via-
gens publicou um artigo sobre a cultura local, comprou a revista e ficou sentada
durante horas, a estudar as fotografias e praticamente a decorar o texto, a tentar
aprender tudo o que pudesse sobre as pessoas com quem Paul estava a trabal-
har. Algumas vezes, mesmo sem querer, punha-se a imaginar se alguma das
mulheres de l o olhava com o mesmo desejo que ela sentira, concluindo ser
provvel que isso acontecesse com algumas.
    Tambm passava os olhos pelos microfilmes de jornais e revistas sobre
Medicina,  procura de informaes sobre a vida de Paul em Raleigh. Nunca lhe
falou destas pesquisas - nas cartas ele fazia referncia a essa parte da sua vida,
afirmando que no pretendia voltar a ser aquela pessoa - mas sentia-se curiosa.
Encontrou o artigo publicado no Wall Street Journal, com um desenho dele a
seguir ao ttulo. No artigo dizia-se que tinha 38 anos e, ao analisar o desenho,
viu pela primeira o aspecto dele quando era mais jovem. Embora tivesse recon-
hecido a gravura imediatamente, havia algumas diferenas notrias: o cabelo
mais escuro com risco ao lado, o rosto sem rugas, a expresso demasiado sria,
quase dura. Ficou a reflectir no que ele pensaria agora daquele artigo, ou se lhe
daria qualquer importncia.
    Tambm descobriu algumas fotografias dele em nmeros antigos do Raleigh
News and Observer: a encontrar-se corn o governador ou a assistir  inaugur-
ao de uma nova ala no Duke Medical Center. Reparou que no aparecia a
                                                                          98/121

sorrir em qualquer das fotografias. Aquele era, pensou, um Paul que no con-
seguia sequer imaginar.
    Em Maro, sem qualquer razo especial, Paul mandou que lhe entregassem
rosas em casa, uma entrega que se repetiu durante os meses seguintes. Colocava
as rosas na sala, partindo do princpio de que os filhos acabariam por dar com
elas e por lhe falarem do assunto, mas eles andavam imersos nos seus prprios
mundos e nunca o fizeram.
    Em junho voltou a Rodanthe para passar um fim-de-semana prolongado na
companhia da Jean. Quando chegou, pareceu-lhe que Jean estava impaciente,
como se ainda tentasse descobrir o que tinha preocupado a Adrienne da ltima
vez que estivera na estalagem. Contudo, uma hora de alegre conversa foi o sufi-
ciente para fazer emergir a Jean de sempre. Adrienne fez vrios passeios pela
praia durante o fim-de-semana, sempre  procura de bzios, mas nunca encon-
trou um que no tivesse sido partido pelas ondas.
    Quando regressou a casa, encontrou uma carta do Paul, com uma fotografia
que o Mark lhe tinha tirado. Ao fundo via-se a clnica e Paul, embora mais magro
do que seis meses antes, parecia de boa sade. Apoiou a fotografia de encontro
ao saleiro e ao pimenteiro e respondeu-lhe de imediato. Na carta era-lhe pedida
uma fotografia; percorreu os lbuns de fotografias da famlia at encontrar uma
que achasse digna de lhe oferecer.
    O Vero foi quente e hmido; a maior parte de julho foi passada dentro de
casa, com o ar condicionado em funcionamento; em Agosto, Matt foi para a uni-
versidade, enquanto Amanda e Dan iniciavam o seu ltimo ano na escola secun-
dria. Quando as folhas das rvores comearam a amarelecer e a luz do sol de
Outono se tornou mais suave, comeou a pensar em coisas que ela e Paul poderi-
am fazer, quando ele regressasse. Pensou em ir ao Biltmore Estate, em Asheville,
para observar as decoraes de Natal; ficou a imaginar o que os filhos pensariam
dele quando o vissem aparecer para a ceia de Natal, ou o que faria a Jean
quando, logo a seguir ao Ano Novo, ela marcasse um quarto na estalagem, em
nome dos dois. No tinha dvidas, pensou, de que a Jean receberia a notcia com
ar perplexo. Conhecendo a Jean, achava que, para comear, no diria nada,
preferindo exibir a sua expresso complacente, como se sempre tivesse sabido
da histria e j estivesse  espera da visita do casal.
   Agora, ali sentada em frente da filha, Adrienne recordou aqueles planos, a
meditar que, no passado, houvera momentos em que quase acreditara que eles
                                                                         99/121

tinham realmente acontecido. Costumava imaginar os cenrios com todos os
pormenores mais vibrantes, mas, ultimamente, tinha resolvido parar com as en-
cenaes. O desgosto que sofria depois de cada uma dessas fantasias deixava-lhe
uma sensao de vazio e sabia que o seu tempo teria melhor aplicao a cuidar
das pessoas que a rodeavam, as que ainda faziam parte da sua vida. No queria
mais sentir o desgosto que aqueles sonhos provocavam. Porm, havia alturas em
que, por melhores que fossem as suas intenes, no conseguia evit-los.
   - Caramba - murmurou Amanda quando acabou de ler o bilhete e o entregou
 me.
    Adrienne voltou a dobr-lo segundo os vincos originais, p-lo de lado e en-
tregou  filha a fotografia de Paul, a que Mark lhe tirara. - Este  o Paul -
informou.
    Amanda pegou na fotografia. A despeito da idade, era mais bonito que ima-
ginara. Analisou aqueles olhos que tanto pareciam ter agradado  me. Sorriu
passados instantes.
   -Estou a ver o motivo de teres ficado pelo beicinho. Tens mais?
   - No,  a nica.
   Amanda no disse nada, voltou a estudar a fotografia.
   - Acho que me deste uma boa descrio dele - concluiu. Ele mandou-te al-
guma fotografia do Mark?
   - No, mas so parecidos - respondeu a mae. - Conheceste-o?
   - Conheci. - Onde? - Aqui.
   Amanda enrugou a testa. - Aqui, em casa?
    - Esteve sentado onde tu ests agora. - E onde  que ns estvamos? - Na
escola.
    Amanda abanou a cabea, como se estivesse a tentar entender todas aquelas
informaes novas.
   - A tua histria est a ficar confusa - concluiu.
                                                                           100/121

   Adrienne desviou os olhos e, lentamente, levantou-se. Ao deixar a cozinha,
murmurou:
    - Para mim tambm foi.
    Em Outubro, o pai de Adrienne tinha recuperado um pouco dos acidentes
vasculares anteriores, embora as melhoras no fossem suficientes para que
pudesse deixar a clnica. A filha nunca deixou de lhe fazer companhia, no se
poupando a esforos para o fazer sentir-se mais confortvel.
     Graas a um controlo apertado das despesas, tinha conseguido poupar o su-
ficiente para o manter internado at Abril, mas, a partir dessa altura no sabia o
que fazer. Era uma situao delicada e fez tudo o que pde para que o pai no se
apercebesse dos seus receios.
    Na maioria dos dias, encontrava o som do televisor muito alto, como se as
enfermeiras do turno da manh achassem que o barulho poderia, graas a um
qualquer mecanismo desconhecido, clarificar a neblina da mente do pai. A
primeira coisa que fazia era desligar o aparelho. Para alm das enfermeiras, ela
era a nica pessoa que visitava o pai todos os dias. Embora compreendesse a' re-
lutncia dos filhos em virem ver o av, mesmo assim gostaria que eles viessem.
No apenas pelo av, que bem gostaria de os ver, mas para o prprio bem deles.
Sempre pensara que passar tempo com a famlia  importante, tanto nas alegrias
como nas tristezas.
     O pai perdera a capacidade de falar, mas Adrienne sabia que ele compreen-
dia o que lhe diziam. Com o lado direito do rosto paralisado, fazia um sorriso
torcido que ela considerava afectuoso. Eram necessrias maturidade e pacincia
para olhar para l das aparncias e ver o homem que ele tinha sido; embora os
filhos a tivessem por vezes surpreendido com a demonstrao de tais qualidades,
quase nunca se sentiam  vontade quando a me os forava a visitarem o av.
Era como se olhassem para o av e vissem um futuro que se recusavam a ad-
mitir, que se assustassem ante a perspectiva de tambm virem a acabar assim.
    Adrienne chegava, ajeitava-lhe as almofadas ainda antes de se sentar,
pegava-lhe na mo e conversava. Passava a maior parte do tempo a p-lo ao cor-
rente dos acontecimentos mais recentes, da famlia, ou de como os midos es-
tavam a comportar-se e o pai ficava a olhar para ela, com os olhos sempre postos
no rosto da filha, a nica forma de comunicao silenciosa que tinha ao seu al-
cance. Sentada junto do pai, era inevitvel que se lembrasse da infncia, do odor
                                                                            101/121

da Aqua-Velva na cara do pai, do feno no estbulo do cavalo, do arranhar da bar-
ba quando o pai lhe dava o beijo de boas-noites, das palavras ternas que ele
sempre usara desde os seus tempos de menina pequena.
   Foi visit-lo na vspera do Dia das Bruxas, sabendo o que tinha a fazer,
achando que chegara a altura de o pai ficar a par do assunto.
    - H uma coisa que tenho de dizer-lhe - comeou. Depois, nas palavras mais
simples que encontrou, falou-lhe de Paul e de quanto aquele homem era import-
ante para ela.
    Quando acabou, ficou a magicar no que o pai pensaria acerca do que acabara
de lhe contar. O pai tinha o cabelo branco e ralo, as sobrancelhas pareciam dois
tufos de algodo.
   Ento, sorriu-se, aquele seu sorriso de esguelha e, embora no conseguisse
emitir qualquer som, ela soube o que ele estava a tentar dizer-lhe.
    Sentiu o, n na garganta, inclinou-se sobre a cama, a apoiar a cabea no
peito do pai. Com movimentos incertos da mo boa, o pai acariciou-lhe as cost-
as. Por baixo do rosto, Amanda sentia as costelas do pai, agora frgeis e
quebradias e a batida fraca do seu corao.
    - Oh, paizinho - murmurou -, tambm tenho muito orgulho em si.
    Na sala, Adrienne foi at  janela e puxou as cortinas para os lados. A rua es-
tava vazia e as lmpadas da iluminao pblica estavam rodeadas por halos. Al-
gures, l longe, um co ladrou a um intruso, verdadeiro ou imaginrio.
    Amanda continuava na cozinha, embora Adrienne soubesse que a filha
acabaria por vir procur-la. Apoiou os dedos na vidraa, o sero fora longo para
ambas.
    O que  que ela e Paul tinham sido um para o outro? Mesmo agora, ainda
no tinha a certeza. A situao que viveram no era fcil de definir. No fora seu
marido, nem lhe prometera casamento; chamar-lhe namorado era fazer que a
situao se assemelhasse a um capricho de adolescentes; amante s cobria uma
parte dos sentimentos que tinham vivido juntos. Paul era a nica pessoa da sua
vida que desafiava qualquer definio. Quantas pessoas, perguntava a si prpria,
poderiam dizer o mesmo acerca de algum que conhecessem?
                                                                           102/121

    Acima da sua cabea, a mancha redonda da Lua estava rodeada de nuvens
escuras, que rolavam para leste com a brisa. Na manh seguinte, pensou, ia
chover na zona costeira. Adrienne sabia que tinha razes para no mostrar as
restantes cartas  filha.
    Que podia Amanda aproveitar de uma leitura daquelas? Quando muito,
ficaria a saber pormenores da vida da clnica e sobre a maneira como Paul pas-
sava os dias? Ou da relao entre pai e filho, e sobre a forma como esta evoluiu?
Tudo isso estava claramente explicado nas cartas, bem como os seus pensamen-
tos e temores, mas nada disso tinha interesse para o que Adrienne contava poder
demonstrar  filha. Os dados que tinha seleccionado seriam suficientes.
    No entanto, sabia que, mal a filha sasse, iria reler todas aquelas cartas uma
vez mais, mesmo que o fizesse apenas por causa do que se passara nesta noite. 
luz amarelada do candeeiro da mesa de cabeceira, correria o dedo pelas palavras,
a saborear cada uma delas, pensando que valiam mais do que tudo o resto que
lhe pertencia.
    Esta noite, a despeito da presena da filha, Adrienne estava s. Estaria
sempre s. Sabia isso antes, enquanto estava na cozinha a contar a sua histria.
Sabia-o agora que estava ali na sala, a olhar a rua atravs da janela. Por vezes,
punha-se a pensar na pessoa que teria sido se o Paul nunca tivesse entrado na
sua vida. Talvez tivesse voltado a casar-se e, mesmo suspeitando de que teria
sido uma boa esposa, dava por si a pensar se teria conseguido arranjar um bom
marido.
    No teria sido fcil. Alguns das sas amigas divorciadas voltaram a contrair
matrimnio. A maioria dos sujeitos com quem se casaram pareciam bastante
simpticos, mas nenhum deles tinha semelhanas com o Paul. Talvez fossem
parecidos com o Jack, nunca com o Paul. Acreditava que o romance e a paixo
so possveis em qualquer idade, mas tinha ouvido o suficiente para saber que
muitas relaes acabam por criar mais problemas do que aqueles que ajudam a
solucionar. Quando tinha cartas a recordarem-lhe o tipo de homem que tinha
perdido, Adrienne no queria contentar-se com o gnero de marido que as amig-
as estavam dispostas a aceitar. Qual seria o novo marido capaz de, por exemplo,
escrever as palavras que Paul lhe escreveu na terceira carta, palavras que memo-
rizou logo no dia em que as leu pela primeira vez?
    Quando durmo, sonho contigo e, quando acordo, desejo ter-te nos meus
braos. 0 tempo que vivermos separados mais no far do que convencer-me
                                                                          103/121

ainda mais, se tal for possvel, de que quero passar as noites que me restam ao
teu lado e os meus dias contigo no corao. 
   Ou estas, da carta seguinte?
    Quando estou a escrever-te, sinto o teu hlito, e imagino que sentes o meu
quando ls o que escrevo. Tambm se passa o mesmo contigo? Estas cartas so
agora parte de ns, parte da nossa histria, uma recordao eterna do que fize-
mos com a nossa vida. Agradeo-te por me teres ajudado a sobreviver este ano
mas, ainda mais importante, agradeo-te, antecipadamente, por todos os anos
futuros. 
   Ou at estas, depois de, no final do Vero, ele e Mark terem discutido, o que,
como era inevitvel, o deixou deprimido.
    Nos dias que passam desejo muitas coisas, mas, acima de tudo. gostaria
que estivesses aqui comigo.  estranho, mas j no me recordo da ltima vez em
que chorei, anta de te conhecer. Agora, segundo parece, tenho facilidade em
fazer correr as lgrimas... mas tens uma maneira de demonstrar que os meus
desgostos tm a sua utilidade, de explicar as coisas de modo a aliviares as min-
has mgoas. s um tesouro, uma ddiva e, quando voltarmos a estar juntos,
espero abraar-te at os meus braos ficarem to fracos que tenham de te soltar.
Pensar em ti , quantas vezes, a nica coisa que me d vontade de continuar. 
    Ao olhar a face distante da Lua, Adrienne sabia a resposta. No, pensou, no
voltaria a encontrar um homem como o Paul; sem deixar de apoiar a testa na
vidraa fria da janela, sentiu a presena de Amanda atrs de si. Soltou um sus-
piro, sabendo que tinha chegado a hora de concluir a narrativa.
    - Estava assente que ele passaria o Natal aqui - contou Adrienne, numa voz
to baixa que obrigou a filha a um grande esforo para a ouvir. - Eu tinha tudo
preparado, reservei quarto num hotel - continuou - de modo a podermos passar
a primeira noite juntos. At comprei uma garrafa de Pinot Grigio. - Teve de fazer
uma pausa. - Nessa caixa que est em cima da mesa, h uma carta do Mark que
explica tudo.
   - O que  que aconteceu?
    Sem sair do escuro, Adrienne voltou-se. Metade do rosto ficou na sombra e,
ao ver aquela expresso na cara da me, Amanda sentiu um arrepio sbito.
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    Adrienne no respondeu logo e quando o fez, as palavras pareceram flutuar
na escurido.
   - No adivinhaste? - murmurou.
DEZESSETE

    Amanda viu que a carta fora escrita no mesmo papel de apontamentos que
Paul tinha usado para escrever o seu bilhete de despedida. Ao notar que as mos
lhe tremiam ligeiramente, apoiou-as, abertas, sobre o tampo da mesa.
   Depois, inspirando profundamente, baixou os olhos para ler.
   Querida Adrienne,
    depois de me sentar, apercebo-me de que nem sei como comear uma carta
destas. Afinal, nunca nos encontrmos, embora a conhea atravs das descries
do meu pai, o que no  bem a mesma coisa. Bem gostaria de poder dizer-lhe
tudo pessoalmente mas, devido aos ferimentos que sofri, ainda no estou em
condies de sair deste lugar. Portanto, aqui estou,  procura das palavras e sem
saber se aquilo que escrevo ter algum significado para si.
    Peo desculpa por no ter telefonado mas, na altura, no lhe seria mais fcil
ouvir o que vou agora dizer-lhe por escrito. Eu prprio estou ainda a tentar per-
ceber tudo o que aconteceu e essa , em parte, uma das razes que me levam a
escrever-lhe.
    Sei que o meu pai lhe falou de mim, mas julgo importante que conhea a
histria segundo a minha perspectiva. A minha esperana  poder desta forma
contribuir para que conhea melhor o homem que a amou.
    Tem de compreender que no tive um pai durante os meus anos de infncia
e adolescncia.  claro que ele vivia l em casa, que no deixava que faltasse
coisa alguma, tanto  minha me como a mim, mas nunca estava presente, a no
ser para me repreender sempre que conseguia apenas um Bom em qualquer
disciplina. Recordo que quando era mido a escola realizava uma feira anual de
cincias e que participei todos os anos; porm, desde o jardim infantil at ao
oitavo ano, o meu pai no foi l uma nica vez. Nunca me levou a um jogo de
basebol, nem nunca jogou  bola comigo no quintal ou me acompanhou num
passeio de bicicleta. Disse-me que lhe falou de algumas destas falhas, mas pode
acreditar que foi tudo pior do que ele provavelmente lhe fez crer. Para ser hon-
esto, devo dizer que quando vim para o Equador esperava nunca mais ter de lhe
pr a iWsta em cima.
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    Ento, ao contrrio de tudo o que se poderia pensar, resolveu vir para aqui,
para estar junto de mim. Tem de perceber que sempre existiu no meu pai um
fundo de arrogncia, que me habituei a detestar  medida que cresci, e pensei
que a sua vinda teria a ver com isso. Dei comigo a imagin-lo a tentar, assim de
repente, agir como um pai, a debitar conselhos de que eu no precisava e tam-
bm no tencionava pedir-lhe. Ou a reorganizar a clnica com o fim de a tornar
mais eficiente, ou a trazer consigo ideias brilhantes para nos tornar a vida mais
cmoda num lugar como este. Ou at a querer ser pago de alguns favores que foi
fazendo ao longo dos anos e a trazer consigo uma equipa numerosa de novos
mdicos voluntrios, dispostos a trabalhar na clnica, sem deixar de se assegurar
que toda a comunidade de jornalistas l da terra soubesse quem era o verdadeiro
responsvel por todas essas boas aces. 0 meu pai sempre adorara ver o seu
nome em letra de imprensa e tinha a exacta conscincia do que uma boa publi-
cidade podia fazer por ele e pela clnica de que era dono. Na altura em que
chegou, eu estava efectivamente a fazer as malas para voltar para casa, pronto
para o deixar aqui sozinho. Tinha uma dzia de respostas preparadas, capazes
de contradizerem tudo o que pensava que ele me poderia dizer. Desculpas? Acor-
dou um bocado tarde. Prazer em ver-te? Bem gostaria de poder dizer o mesmo.
Julgo que devemos falar? No acho que seja uma boa ideia. Em vez disso,
limitou-se a dizer ol e, ao ver a minha expresso, virou as costas e seguiu. Foi
o nosso nico contacto durante a primeira semana que c passou.
     No se registaram quaisquer mudanas bruscas. Esperei, durante meses,
que ele resvalasse de novo para os seus velhos mtodos, pronto a saltar sobre ele
e a chamar-lhe a ateno para o facto. Mas tal nunca aconteceu. Nunca se queix-
ou do trabalho ou das condies, dava sugestes apenas quando lhe eram pedi-
das directamente e, embora ele nunca o admitisse, o director acabou por dizer
que os novos remdios e equipamentos de que carecamos desesperadamente
tinham sido doados pelo meu pai, que sempre insistira na necessidade de
manter a oferta anonima.
    Julgo que o facto que mais apreciei foi ele nunca ter fingido que ramos o
que no ramos. Durante meses no fomos amigos, nem o considerei como meu
pai, mas nunca tentou modificar a minha opinio quanto a isso. No exerceu
qualquer presso e penso que foi esse o principal motivo que me levou a aban-
donar a atitude continuada de defesa.
   Julgo que estou a tentar dizer que o meu pai estava mudado e que, pouco a
pouco, comecei a verificar haver algo nele que merecia uma segunda
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oportunidade. E embora saiba que j estava algo modificado antes de a con-
hecer, penso que a senhora foi a principal causadora de ele se ter tornado o
homem que foi. Antes de a conhecer andava em busca de qualquer coisa. E
encontrou-a, sem dvida, quando a conheceu.
    0 meu pai passava o tempo a falar de si e apenas posso fazer uma ideia vaga
de quantas cartas lhe ter escrito. Amava-a, mas tenho a certeza de que sabe
isso. 0 que talvez no saiba  que, antes de a senhora aparecer, estou inteira-
mente convencido de que ele no sabia o que significava amar algum. 0 meu pai
conseguia realizar uma srie de coisas, mas estou convencido de que seria capaz
de as trocar todas por uma vida junto de si. No me  fcil escrever estas coisas,
considerando que ele foi casado com a minha me, mas julguei que a Adrienne
gostaria de o saber. E, em parte, estou convencido de que ficaria satisfeito ao
pensar que eu tinha compreendido o que a senhora significava para ele.
    De qualquer forma, a senhora transformou o meu pai e, graas a si, eu no
trocaria a maneira como vivi este ltimo ano por nada deste mundo. No sei
como conseguiu um resultado destes, mas fez do meu pai um homem de quem j
sinto a falta. Salvou-o e, ao faz-lo, penso que de certa maneira tambm me sal-
vou a mim.
    Sabe, ele teve de se deslocar  clnica secundria, nas montanhas, por minha
causa. 0 tempo estava terrvel naquela noite. Chovia h vrios dias e as estradas
tinham desaparecido por debaixo de torrentes de lama. Quando comuniquei pela
rdio que no podia regressar porque o meu jipe no pegava, alm de que estava
iminente um desabamento de terras, ele resolveu pegar no outro jipe - apesar
dos protestos veementes do director - para tentar chegar junto de mim. 0 meu
pai veio salvar-me e, quando vi que era ele quem vinha a conduzir, julgo que foi
a primeira vez em que o encarei como meu pai. At quele momento sempre fora
o meu progenitor, no o meu pai, se  que me fao entender.
    Conseguimos sair de l mesmo a tempo. Passados uns minutos, ouvimos o
estrondo de um dos lados da montanha a desabar, destruindo a clnica instant-
aneamente e recordo-me de termos olhado um para o outro, quase no querendo
acreditar que estivssemos salvos.
    Gostaria de lhe poder contar o que depois correu mal, mas no consigo. 0
meu pai conduzia com cuidado e quase conseguimos fazer o caminho de re-
gresso. At cheguei a ver as luzes da clnica, mais abaixo, no vale. Porm, ao do-
brarmos uma curva apertada, o jipe comeou subitamente a deslizar e logo a
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seguir percebi que estvamos fora da estrada e aos tombos pela montanha
abaixo.
    Para alm de um brao e algumas costelas partidas, no fiquei ferido com
gravidade, mas apercebi-me de imediato que o mesmo no sucedera com o meu
pai. Lembro-me de lhe pedido que se aguentasse, que ia  procura de socorro,
mas agarrou-me a mo e obrigou-me a ficar quieto. Julgo que tambm soube
que o fim estava prximo e quis ter-me junto de si.
    Nesse momento, aquele homem que me tinha salvado a vida, pediu-me
perdo.
    Ele amava-a, Adrienne. Nunca se esquea disso, por favor. Apesar do pouco
tempo que passou junto de si, adorava-a, e s posso lamentar profundamente a
perda que sofreu. Quando se sentir mal, como agora estou a sentir-me,
conforme-se no s com a ideia de que ele faria pela Adrienne o mesmo que fez
por mim, mas tambm com a certeza de que, graas a si, foi-me concedido o
privilgio de conhecer, e de amar, o meu pai.
   No fundo, acho que apenas estou a tentar dizer-lhe obrigado.
   Mark Manner,,
    Amanda pousou a carta sobre a mesa. Na cozinha, agora praticamente s es-
curas, conseguia ouvir a prpria respirao. Adrienne tinha ficado na sala, soz-
inha com os seus pensamentos, e Amanda dobrou a carta lentamente, a pensar
em Paul, a pensar na me e, por estranho que lhe parecesse, a pensar em Brent.
    Com algum esforo, conseguiu recordar um Natal de h muitos anos, em que
a me se mostrara muito pouco expansiva, com sorrisos que pareciam sempre
um pouco forados e as lgrimas inexplicveis que, pensaram os filhos, teriam
algo a ver com o pai deles.
   Todos aqueles anos passados e ela sem se referir ao caso.
    Apesar de a me e o Paul no terem passado juntos tantos anos como os que
ela passara com Brent, Amanda descobriu, numa espcie de iluminao sbita,
que a morte de Paul tinha atingido a me com intensidade igual  que ela pr-
pria tinha experimentado quando se sentou pela ltima vez junto da cama de
Brent. S houve uma diferena: A me no teve direito nem a um ltimo adeus.
                                     ***
                                                                         109/121

    Ao ouvir o som abafado dos soluos da filha, Adrienne virou as costas 
janela da sala e dirigiu-se para a cozinha. Amanda olhou-a em silncio, de olhos
arregalados por uma angstia muda.
    Adrienne ficou parada, a observar a filha, at que, finalmente, abriu os
braos. Como que por instinto, Amanda levantou-se, a tentar sem o conseguir
estancar a torrente de lgrimas, e me e filha ficaram ambas de p, a abraaram-
se durante muito, muito tempo.
DEZOITO

   O ar tinha arrefecido ligeiramente, pelo que Adrienne resolveu acender algu-
mas velas na cozinha, tanto para iluminar como para aquecer o ambiente.
Sentada  mesa, tinha voltado a guardar a carta do Mark dentro da caixa, junta-
mente com o bilhete e a fotografia. Amanda observava-a calmamente, de mos
abandonadas no regao.
    - Lamento muito, mam - disse em voz baixa. - Por tudo. Por perderes o
Paul, por teres de arrastar sozinha com uma mgoa dessas. No consigo imagin-
ar quanto te ter custado manter toda essa dor guardada dentro de ti.
   - Nem eu - respondeu a me. - Nunca o teria conseguido sem ajuda.
   Amanda abanou a cabea.
   - Mas foi isso que fizeste - murmurou Amanda.
   - No. Sobrevivi, mas no sozinha.
   A filha olhava-a, sem compreender. Adrienne mostrou um sorriso
melanclico.
     - O av - acabou por dizer. - O meu pai. Foi juntamente com ele que chorei.
Durante semanas, chorei todos os dias com ele. Sem ele, nem sei o que poderia
ter acontecido.
   - Mas...
   Amanda no conseguiu concluir e a me foi em seu auxlio.
    - Mas ele no falava, no  o que ias dizer? - Adrienne fez uma pausa. - No
precisou de falar. Ouviu e isso era tudo aquilo de que eu precisava. Alm disso,
eu tinha conscincia de que ele no poderia dizer nada que aliviasse o meu des-
gosto, mesmo que conseguisse falar. - Levantou os olhos. - Sabes isso to bem
como eu.
   Amanda mordeu o lbio.
   -Gostaria que me tivesses contado - disse. - H mais tempo, quero eu dizer.
   - Por causa do Brent?
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    Amanda assentiu.
    - Sei que terias gostado de saber, mas s agora te julguei pronta
    para ouvires a histria. Precisavas de tempo para,  tua maneira e
    segundo os teus prprios termos, ultrapassares o desgosto. Amanda ficou
calada durante muito tempo.
    - No  justo. Tu e o Paul, eu e o Brent... - murmurou. - Pois no, no .
    - Como  que conseguiste continuar depois de o perderes nessas
circunstncias?
    Adrienne fez um sorriso tristonho.
    - Aceitei a vida, um dia de cada vez. No foi assim que fomos ensinadas a
fazer? Sei que soa a banalidade, mas costumava acordar pela manh e dizer a
mim prpria que s precisava de ser forte durante mais um dia. Apenas mais um
dia. Fiz isso, uma e outra vez, durante muito tempo.
    - Dito assim, parece muito simples - murmurou Amanda. - No foi. Foi o pi-
or perodo da minha vida. - Pior ainda do que quando o pai saiu de casa? - Essa
tambm foi uma altura m, embora diferente - respondeu a me, com um sorriso
rpido. - Foste tu mesma que me disseste isso, recordas-te?
   Amanda desviou o olhar. Sim, pensou, claro que me lembro. - Gostaria de ter
podido conhec-lo.
    - Terias gostado dele. Com o tempo, quero eu dizer. Na altura, talvez no.
Continuavas a alimentar a esperana de que eu e o teu pai refizssemos o
casamento.
    De ar melanclico, Amanda levou a mo  aliana de casamento que con-
tinuava a usar e f-la rodar  volta do dedo. - Sofreste duras perdas na tua vida.
    -  verdade.
    - o, agora pareces to feliz.
    - Sou feliz.
    - Como  que consegues?
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    Adrienne juntou as mos.
     - Quando penso na morte do Paul e nos anos que poderamos ter vivido jun-
tos, decerto me sinto infeliz. Senti a perda, na altura, e continuo a senti-la. H,
porm, uma outra coisa que tens de compreender: por mais difcil que tivesse
sido, por mais terrvel e injusta que a vida me parecesse, nunca trocaria os pou-
cos dias que passei com ele por nada deste imundo. - Fez uma pausa, dando
tempo a que a filha entendesse o que lhe estava a dizer. - Na carta do Mark est
escrito que eu salvei o Paul dele prprio. No entanto, se o Mark tivesse pedido a
minha opinio, ter-lhe-ia dito que nos salvmos um ao outro, ou que o Paul me
salvou de mim mesma. Se no o tivesse conhecido, duvido de que alguma vez
conseguisse perdoar ao Jack e nunca teria sido a me e a av que sou hoje.
Graas a ele, voltei a Rocky Mount sabendo que tudo ia correr bem, que os prob-
lemas se iam resolver e que, fosse como fosse, esta tua me ia sobreviver. E o ano
que passmos a trocar cartas deu-me a fora necessria para enfrentar a situao
quando soube o que lhe tinha acontecido. Sim, fiquei devastada por t-lo per-
dido mas, se de qualquer modo pudesse recuar no tempo e ficar a saber ante-
cipadamente o que iria acontecer, mesmo assim, gostaria que ele tivesse ido ao
Equador, por causa do filho. Ele precisava de esclarecer a situao com o Mark.
O filho precisava dele. E ainda estavam a tempo de comporem as coisas.
    Amanda desviou os olhos, sabendo que ela estava tambm a falar de Max e
de Greg.
     - Foi por isso que quis contar-te a histria desde o incio - continuou a me. -
No s por ter vivido o perodo difcil que ests a viver agora, mas tambm
porque quis que percebesses quanto a relao com o filho era importante para o
Paul. E aquilo que essa relao significa ainda hoje para o Mark. So feridas di-
fceis de curar e no quero provocar-te mais feridas do que as que j tens.
    Estendeu o brao por cima da mesa e pegou na mo da filha.
    - Sei que ainda sofres por teres perdido o Brent e no posso fazer nada para
te ajudar nesse transe. Porm, se Brent aqui estivesse, dir-te-ia para te con-
centrares nos teus filhos, no no luto pela morte dele. Gostaria que recordasses
os bons momentos, no os maus. E, acima de tudo, gostaria de saber que tam-
bm vais ser feliz.
    - Sei isso tudo...
    Com uma ligeira presso dos dedos, Adrienne no a deixou continuar.
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    - s mais forte do que pensas - continuou -, mas s na medida em que
tiveres vontade de o seres. - No  assim to fcil.
    - Pois, decerto no , mas tens de compreender que no estou a falar dos
teus sentimentos. No os conseguirs controlar. Vais continuar a chorar, vais
ainda ter momentos em que no te achas capaz de prosseguir. Mas tens de agir
como se tivesses tudo controlado. Numa altura destas, os teus actos so pratica-
mente as nicas coisas que podes controlar. - Nova pausa. - Amanda, os teus fil-
hos precisam de ti. No julgo que tenha havido uma altura em que precisassem
mais de ti. Todavia, nos ltimos tempos no tens tido disponibilidade para eles.
Sei que ests a sofrer, e sofro contigo, mas s me e no podes continuar a agir
dessa forma. Brent no quereria tal coisa, mas os teus filhos esto a pagar um
preo elevado.
   Quando a me terminou, Amanda pareceu interessada em analisar a mesa.
Mas, ento, como num filme em cmara lenta, levantou a cabea e olhou para
cima.
    Por muito que desejasse saber, Adrienne ficou sem fazer ideia do que estava
a passar-se na cabea da filha.
    Quando Amanda chegou a casa, Dan estava a dobrar a ltima das toalhas
que havia no cesto, enquanto deitava um olho para o televisor. As roupas tinham
sido arrumadas em pilhas separadas, em cima da mesa do caf. Num gesto
automtico, Dan levou a mo ao comando remoto para fazer baixar o volume de
som.
   - J estava a pensar que tinhas decidido no voltar para casa - disse.
    - Ol., - cumprimentou Amanda, a olhar  volta. Onde  que esto os
rapazes?
    Dan apontou com a cabea e acrescentou uma toalha verde  respectiva
pilha.
    - Foram para a cama h apenas uns minutos. Se queres dar-lhes as boas-
noites,  provvel que ainda os encontres acordados. - E os teus midos, esto
onde?
    - Passei por casa e deixei-os, juntamente com a Kira. S para saberes, o Max
deixou cair um bocado de piza na T-shirt do Scooby Doo. Acho que  uma das
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preferidas dele, 'porque ficou muito aborrecido. J a pus de molho, no lavatrio,
mas no consegui encontrar o tira-ndoas.
    Amanda aquiesceu.
   - Este fim-de-semana, vou compr-lo. De qualquer forma, j tencionava ir s
compras. Preciso de mais umas coisas.
    Dan olhou para a irm.
    - Se fizeres uma lista, a Kira pode trazer-te tudo aquilo de que precisas. Sei
que ela tenciona ir ao supermercado.
    - Agradeo a oferta, mas  tempo de eu voltar a fazer esse tipo de coisas.
    - Ora bem...
    Mostrou um sorriso contrafeito. Por momentos, tanto ele como a irm
ficaram calados.
    - Obrigada por teres levado os midos contigo - acabou Amanda por dizer.
    Dan encolheu os ombros.
    - Que grande coisa! Ns amos, de qualquer maneira, e pensei que eles
gostariam de ir tambm.
    Amanda respondeu com sinceridade.
    - No. Quero agradecer-te por todas as vezes que fizeste o mesmo, desde h
bastante tempo. No  s por hoje. Tanto tu como o Matt tm sido fantsticos
desde... desde que perdi o Brent e nem sei se vos tenho demonstrado o quanto
vos estou agradecida. Ao ouvir o nome de Brent, Dan desviou o olhar. Pegou no
cesto da roupa, agora vazio.
    -  para isso que servem os tios, ou no? - Mudou o p de apoio, s para dis-
farar o embarao, mantendo o cesto  altura da barriga. - Queres que passe por
c amanh e torne a levar os rapazes? Estou a pensar num passeio de bicicleta
com os midos. Amanda abanou a cabea.
    - Obrigada, mas penso que chegou a minha vez. - O irmo encarou-a com ar
de dvida, mas Amanda no pareceu reparar. Despiu o casaco e deixou-o em
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cima de uma cadeira, juntamente com a malinha de mo. - Esta noite tive uma
longa conversa com a mam.
    - H sim? Como  que correu?
    - Se te contasse, no ias acreditar nem em metade. - O que  que ela disse?
    - Tinhas de ter assistido, s ouvindo. Contudo, hoje soube uma coisa acerca
dela. - Dan alou uma sobrancelha,  espera de ouvir mais.
    -  mais forte do que parece - disse Amanda. O irmo soltou uma
gargalhada.
   - Pois... decerto  forte. Chora sempre que morre um dos peixinhos
dourados.
   - Talvez isso seja verdade, mas em muitos aspectos tomara eu ser to forte
como ela.
    - Quero crer que sim.
     Ao ver a expresso sria da irm, Dan percebeu, com espanto, que Amanda
no estava a tentar fazer esprito. Enrugou a testa. - Espera l - exclamou -, ests
a falar da nossa me?
    Dan saiu minutos depois, sem ter conseguido, apesar dos seus esforos, que
a irm lhe desse qualquer pormenor da conversa que tivera com a me. Amanda
compreendia os motivos do silncio da me, tanto no passado como nos anos
mais recentes, e sabia que a me no hesitaria em d-los a conhecer ao Dan se
entendesse dever faz-lo.
    Amanda fechou a porta depois de o irmo ter sado e ficou a olhar para a
sala. Para alm de ter dobrado a roupa, Dan tinha arrumado a casa; recordou
que quando saiu, havia cassetes de vdeo espalhadas junto do televisor, uma
pilha de chvenas vazias em cima da mesa, revistas de um ano inteiro empilha-
das em equilbrio precrio na mesa junto da porta.
    Dan tinha cuidado de tudo. Uma vez mais.
    Apagou as luzes, a pensar em Brent, a reflectir sobre os ltimos oito meses, a
pensar nos filhos. Greg e Max partilhavam um quarto no fundo do corredor; o
quarto de casal ficava do lado oposto. Nos ltimos tempos aquela distncia es-
tava a revelar-se demasiada para ser percorrida no final do dia. Antes de Brent
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ter morrido, antes de lhes puxar a roupa at aos queixos, costumava acompan-
har os rapazes nas preces nocturnas e lia-lhes histrias de livros infantis com
gravuras coloridas.
   Esta noite, o irmo tinha-se encarregado dessa parte. Na noite anterior, nin-
gum o fizera.
    Dirigiu-se para a escada. A casa estava s escuras; o corredor do andar de
cima estava sombreado de preto. Ao chegar ao cimo da escada, ouviu os mur-
mrios abafados dos dois filhos. Percorreu o corredor e parou  porta do quarto
deles,  escuta.
    Dormiam em camas iguais, com edredes decorados com dinossauros e car-
ros de corrida; havia brinquedos espalhados entre as camas. A luz da noite bril-
hava num candeeiro colocado perto do armrio e, no silncio, tornou a pensar
como os dois rapazes se pareciam com o pai.
   Os midos ficaram quietos. Sabendo-se observados, fingiram que estavam a
dormir, como se se sentissem seguros ao esconderem-se da me.
    O soalho rangeu com o peso dela. Max parecia conter a respirao. Greg
espreitou-a pelo canto do olho e cerrou as plpebras logo que Amanda se sentou
junto dele. Inclinando-se, a me beijou-o na face e passou-lhe uma mo carin-
hosa pelos cabelos.
   - Ol - sussurrou. - Ests a dormir?
   - Estou - respondeu o petiz.
   Amanda sorriu.
   - Queres dormir esta noite com a mam? Na cama grande? - murmurou.
    Greg pareceu necessitar de algum tempo para perceber o que a me lhe
disse.
   - Contigo?
   - Sim.
    - Quero - respondeu e a me ficou a v-lo sentar-se na cama e deu-lhe outro
beijo. Chegou-se  cama do Max. A luz vinda da janela dava reflexos dourados,
como os das luzes de Natal, ao cabelo do filho.
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   - Ol, doura.
   Max engoliu em seco mas continuou de olhos fechados. - Tambm posso ir?
   - Se quiseres.
   - Eu quero - foi a resposta.
    A me sorriu ao v-los saltar da cama mas, quando ambos j estavam a cam-
inho da porta, puxou-os para trs e abraou-os. Exalavam o cheiro tpico dos
rapazes pequenos, a p, a erva,  prpria inocncia.
    - E se amanh fssemos at ao parque para, mais tarde, comermos uns
gelados?
   - Podemos pr os papagaios a voar? - perguntou Max. Amanda apertou-o um
 pouco mais, enquanto fechava os olhos. - Durante todo o dia. E no dia seguinte
 tambm, se quiseres.
DEZENOVE

    J passava da meia-noite. Adrienne estava sentada na cama, a segurar o
bzio com as duas mos. Dan tinha telefonado uma hora antes, com grandes
novidades acerca da irm.
   - Disse-me que amanh ia passear com os rapazes, s os trs. Acrescentou
que os midos precisavam de estar com a me - comentou, antes de fazer uma
pausa. - No sei o que lhe disseste mas, fosse o que fosse, resultou.
   - Fico contente.
    - Ento, o que  que lhe disseste? Ela mostrou-se, como hei-de dizer, algo
circunspecta acerca do assunto.
    - Disse-lhe o mesmo que tenho vindo a dizer-lhe desde o incio. O mesmo
que tu e o Matt tambm lhe tm andado a dizer.
   - Ento, por que  que desta vez ela ouviu?
    -Julgo - comeou Adrienne, a escolher bem as palavras - que finalmente quis
ouvir.
    Mais tarde, depois de desligar o telefone, voltou as ler as cartas do Paul,
como sabia que teria de fazer. Embora as lgrimas tornassem difcil a leitura do
que Paul escrevera, as suas prprias cartas eram ainda mais difceis de ler. Leu
tambm, como fizera vezes sem conta, aquelas palavras que escrevera ao Paul
durante o ano em que estiveram separados. As cartas dela estavam no segundo
mao; no mao que Mark Flanner trouxera consigo quando a visitara, ali em
casa, dois meses depois de Paul ter sido enterrado no Equador.
    Amanda saiu antes de se lembrar de fazer perguntas acerca da visita de Mark
e a me tambm no a encorajara a perguntar.
     A filha voltaria decerto a falar do assunto mas, mesmo agora, Adrienne no
sabia muito bem o que deveria responder-lhe. Essa era a parte da histria que
tinha guardado exclusivamente para si durante todos aqueles anos, que tinha
mantido to fechada como as prprias cartas. Nem o pai sabia o que Paul tinha
feito.
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    Levantou-se da cama e, aproveitando a luz plida da rua que a janela deixava
entrar, foi ao armrio buscar um casaco e um leno, desceu a escada e saiu para
o exterior pela porta das traseiras.
     As estrelas brilhavam como as pequenas lantejoulas de uma capa de ilu-
sionista e o ar estava frio e hmido. No jardim, havia poas de gua escura que
reflectiam as cintilaes vindas do cu. As janelas das casas dos vizinhos es-
tavam iluminadas e, por muito que soubesse que se tratava apenas de imagin-
ao sua, quase podia sentir o cheiro da maresia no ar, como se a neblina do mar
j estivesse por cima dos jardins da vizinhana.
     Mark tinha-a visitado numa manh de Fevereiro; continuava de brao en-
gessado num aparelho, mas ela mal notara esses pormenores. Em vez disso, deu
consigo a encar-lo de frente, sem conseguir desviar os olhos do rosto dele. Pare-
cia, pensou, a cpia exacta do pai. Depois de lhe abrir a porta e de ser presen-
teada com o mais triste dos sorrisos, Adrienne teve de dar um pequeno passo at-
rs, numa tentativa desesperada de conter as lgrimas.
   Sentaram-se  mesa, com duas chvenas de caf entre eles, e Mark tirou o
mao de cartas da pasta que trazia consigo.
   - Ele guardou-as - informou. - No sabia o que fazer com elas, excepto
devolv-las  autora.
    Adrienne mostrou satisfao ao receb-las.
    - Obrigada pela sua carta - disse ela. - Adivinho quanto lhe deve ter custado a
escrever.
    - No tem de qu.
    Mark ficou em silncio durante uns instantes. Depois, informou-a do motivo
da visita.
     Agora, no alpendre, Adrienne sorria ao pensar no que Paul tinha feito por
ela. Recordou-se de que, logo que Mark saiu, foi visitar o pai  clnica de recu-
perao, um lugar de onde o pai jamais teria necessidade de sair. Como Mark ex-
plicou enquanto esteve sentado  frente dela, na cozinha, Paul tinha tratado de
tudo para que o pai pudesse permanecer na casa de repouso at ao fim dos seus
dias uma surpresa que se preparava para lhe anunciar pelo Natal. Quando ela
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esboou um protesto, Mark esclareceu que Paul teria ficado muito desconsolado
se soubesse que ela no queria aceitar a oferta.
   - Por favor acabou por implorar -, era o que o meu pai queria.
    Nos anos que se seguiram, nunca mais deixou de apreciar aquele gesto final
do Paul, tal como apreciava todas as recordaes dos poucos dias que passaram
juntos. Paul continuava a significar tudo para ela, sempre significaria tudo para
ela e, naquele ar frio do final da tarde, Adrienne sentiu que nunca deixaria de
pensar assim.
    Sabia que j vivera mais anos do que os tinha para viver, embora sem a con-
scincia de ter tido uma vida longa. Houve anos inteiros que se lhe varreram da
memria, como se fossem pegadas deixadas na areia,  beira-mar, quando a
mar est a encher. Por vezes pensava que, com excepo dos dias vividos com
Paul Flanner, tinha passado pela vida como uma criana que  levada numa
longa viagem de automvel, que nada mais faz do que olhar pela janela, a ver as
constantes alteraes da paisagem.
    Tinha-se apaixonado por um estranho no decurso de um fim-de-semana e
nunca mais voltaria a apaixonar-se. O desejo de voltar a amar tinha acabado
numa vereda de montanha do Equador. Paul tinha morrido para salvar o filho e,
nesse momento, uma parte dela morreu tambm.
    Todavia, no sentia amargura. Numa situao semelhante, sabia que tam-
bm tentaria salvar os seus prprios filhos. Sim, Paul tinha morrido, mas tinha-
lhe deixado tantas coisas. Com ele encontrou o amor e a alegria, alm de uma
fora de que nunca se julgara possuidora, riquezas de que jamais poderia ser
despojada.
    Todavia, agora estava tudo acabado; tudo menos as recordaes e essas
eram mantidas com carinhos infinitos. Eram to reais como a cena que agora
tinha diante dos olhos e, contendo as lgrimas que tinham comeado a rolar na
escurido do seu quarto, levantou o queixo. Olhou o cu e inspirou profunda-
mente, a ouvir um eco distante de ondas imaginrias,  medida que iam rebent-
ando numa praia da ilha de Rodanthe, numa noite de tempestade.
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